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Em artigo na Folha, Roberto Rodrigues fala da importância do clima para o campo.

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CALOR

A agricultura tem seus tempos certos: a semente só pode ser plantada quando a terra estiver úmida e quente o suficiente para que o milagre da germinação se realize.

Aí, a descomunal força da natureza faz com que da minúscula semente saia um conjunto de raízes que buscarão a água e os nutrientes que garantirão o crescimento da parte aérea, que, por sua vez, sobe, atravessa a camada de terra e emerge para a luz e para todos os desafios: calor, frio, seca, enchente, geada, granizo, formigas e outros insetos, fungos e outros agentes patogênicos.

E, em vencendo tudo isso, a plantinha nascida produzirá os frutos que alimentarão animais e pessoas, fazendo com que a vida prossiga e a humanidade fique em paz.

Mas, atenção, tudo tem seu tempo: o fenômeno fisiológico da germinação só acontece se as condições naturais todas se associarem a seu favor.

Não adianta, por exemplo, plantar uma semente de milho em julho: faltará água, faltará calor, e, mesmo que a planta nasça, não terá forças para crescer -e acabará perecendo. E os gastos com insumos, crédito, máquinas e serviço terão sido inúteis, e o prejuízo será certo.

É por isso que tudo tem de ser feito na hora certa, não só do lado do produtor rural, mas também do lado das políticas públicas que fomentam e apoiam a atividade produtiva, como a liberação do crédito.

Não adianta o recurso chegar depois que passar o tempo do plantio, assim como é inútil um seguro rural ser liberado depois de o problema ser identificado.

Pois bem, estamos em outubro, principal mês de plantio de grãos no Centro-Oeste, no Sul e no Sudeste brasileiro. Os agricultores já estão com as sementes compradas e guardadas, bem como os fertilizantes e os defensivos, só esperando chover de verdade. Já começaram as primeiras águas, mas ainda insuficientes.

As máquinas estão reformadas, o pessoal contratado, há uma expectativa no ar, uma ansiedade geral, todo mundo consultando as previsões oficiais de tempo, os mais velhos olhando e interpretando os sinais da natureza.

É aquela mesma apreensão de cada ano, de cada verão, de plantar de novo para, mais uma vez, preservar a vida.

Todo mundo esperando, esperando, esperando… E ele, veterano agricultor, também espera. As rugas cortam o seu rosto queimado pelo sol e, com os cabelos brancos, contam os anos passados na permanente labuta do campo. Ele também espera.

Mas ele não consegue esquecer aquele ano, lá atrás. Tinha sido muito seco, desde abril não caíra uma gota de chuva. É verdade que nesta época não é mesmo de chover, mas daquele jeito nunca vira.

Quando setembro chegara, tudo estava seco, cinzento. Nada verde, nenhuma flor colorida. Havia uma bruma espessa e cinzenta resultante de mil incêndios em toda a região. Um cheiro de morte rondava a natureza.

Mesmo assim ele estivera pronto, como sempre: os insumos comprados, as máquinas engraxadas, a turma concentrada. E esperara…

Mas setembro passara, e nada. Outubro também passara, um calor desesperador, sol causticante, 31 dias sem uma nuvem no céu. Entrara novembro, Finados passara, e nada -só o calor brutal. Chegara o feriado da Proclamação da República, e nada.

O tempo passara e ele pensando nos prejuízos: acabaria plantando tarde, o ciclo seria curto, a plantação não se desenvolveria, a produção seria baixa com custo alto. Conseguiria pagar as contas?

Dia 21 de novembro dera um chuvisqueiro; pouco, mas molhara a terra e ele mandara ver: os tratores roncaram e, por três dias de muito trabalho, plantara quase tudo. Parara, porque não chovera mais nada e a terra secara, o calor voltara infernal. E a seca seguira inclemente.

As primeiras sementes germinaram, soltaram folhinhas tímidas que esperaram mais chuva. Estiolaram, morreram, tudo acabara. Ano trágico, fizera quase tudo certo, quase quebrara, quase perdera tudo.

Agora, anos depois, estava ele de novo, esperando. Outro outubro, pensando, quem sabe, que tudo vai correr bem desta vez.


Por Roberto Rodrigues, 69, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Depto. de Economia Rural da Unesp – Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula).

Fonte: Folha de S.Paulo, edição 8 de outubro

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