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Exemplo da guerra contra a ciência ocorreu durante uma consulta pública da Anvisa, marcada pela ingerência de uma apresentadora de TV.

*Antonio Carlos Moreira

Nos Estados Unidos, cresce o movimento que reúne casais jovens, políticos e celebridades que alegam convicções religiosas ou pessoais e se recusam a vacinar os filhos. Famílias que não seguem este dogma sofrem as consequências, segundo a PBS, rede de apoio à educação. Há cinco anos, por exemplo, sob um surto de vírus do sarampo na Flórida, as autoridades não convenceram muitos pais sobre a importância da vacina para evitar sua propagação; em 2015, a doença atingiu dezessete estados.

Essa reação sem sentido a medicamentos desenvolvidos por anos em laboratórios e aprovados como avanços da Medicina por instituições internacionais de saúde exemplifica bem a reportagem de capa da revista National Geographic, em março de 2015, sob o título "The war on Science".

A aversão à Ciência obedece ao diáfano culto ao "natural", enquanto se horripila diante da palavra "química". Alimentos orgânicos são um dos pratos prediletos da militância naturalista, porém estudos como o da Agência de Padrões de Alimentos, do governo da Inglaterra, afirmam que não há diferenças na qualidade entre o alimento orgânico e o convencional – que usa defensivos agrícolas no combate às pragas.

O desafio é entender como as pessoas decidem quanto ao que acreditam e por que, muitas vezes, não aceitam um conhecimento científico. Dan Kahan, da Universidade Yale, aponta uma razão: ouviu 1.540 entrevistados sobre as ameaças, em escala de zero a dez, das mudanças climáticas; aqueles com melhor formação acadêmica atribuíram mais notas nas extremidades do espectro, zero e dez. "Na verdade, elas usam o conhecimento para reforçar suas crenças e ideologias", conclui Kahan.

Some-se a isso a ausência de conhecimento sobre os temas e o ativismo potencializado pela aldeia da internet. Esse caldo de cultura suscitava em Umberto Eco, que acaba de deixar o conclave dos maiores pensadores modernos, uma análise cáusticasobre a rede virtual. Dizia o escritor italiano: "O problema é que os imbecis, antes, falavam apenas no boteco, tomando uma taça de vinho, e não prejudicavam a humanidade".

Um exemplo brasileiro que ilustra a guerra à ciência via redes sociais ocorreu no dia 25 de fevereiro. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) finalizava consulta pública sobre um agroquímico utilizado pelos produtores rurais no combate a uma virulenta praga. Poucas horas antes de encerrar o prazo para manifestações no site da Agência, havia menos de 400 inscrições a favor de sua retirada do mercado e 1.670 pedidos, a maioria de agricultores, favoráveis ao seu uso.

Então, a apresentadora de TV Bela Gil, certamente orientada por ativistas notórios contra o agronegócio, convocou seus seguidores no Facebook a votarem pelo banimento do defensivo agrícola; nos minutos finais, o site da Anvisa estava abarrotado por manifestações contrárias, resultando em 69% de vetos ao agroquímico. Pode-se imaginar o conhecimento quase nulo da apresentadora de TV e de seus seguidores sobre a ciência agronômica, mas importa saber, sim, como a Anvisa julgará: se à luz da Ciência ou se influenciada pela militância virtual.

*Antonio Carlos Moreira é jornalista, pós-graduado em Economia de Empresas pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas associada à Universidade de São Paulo (Fipe-USP) e em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração também associada à USP (FIA-USP) e gerente de Comunicação da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef).

Fonte: Revista Agroanalysis | Ed. Abril/2016

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