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Como o controle de pragas afeta a renda na agricultura, as exportações e os preços domésticos dos alimentos?

*Sílvia Helena Galvão de Miranda

A incidência de pragas e seu controle na agricultura envolve uma série de aspectos econômicos, pouco percebidos para atores da sociedade que não estejam envolvidos diretamente com a atividade de produção e com sua cadeia de suprimentos. De fato, avaliar a magnitude dessa economia não é uma tarefa simples mesmo para os economistas agrícolas. Além dos aspectos diretamente relacionados à produção, o desafio amplia-se na medida em que crescem as preocupações com a sustentabilidade e a segurança dos métodos empregados no controle dessas pragas agrícolas. Estas, por sua vez, mais familiares à comunidade em geral.

As pragas – aqui compreendidas como insetos e ácaros, doenças (causadas por fungos, vírus ou bactérias) – e também as plantas invasoras causam perdas à agricultura, sendo as principais a redução do volume de produção, prejuízos à qualidade dos produtos e, conforme a situação, a morte de plantas ou até dizimação de cultivos inteiros. A decadência do cacau no sul da Bahia, devido à vassoura de bruxa, é um caso emblemático a ilustrar este risco.

Nesse sentido, visando a garantir sua produção e sua renda, produtores agrícolas, grandes ou pequenos, familiares ou não, adotam práticas para controlar as pragas. O risco direto da presença de pragas é a perda de produção com eventual comprometimento das safras, mas há outras implicações de seu ataque às culturas, como possíveis restrições ao abastecimento doméstico e às exportações e/ou choques de preços desses produtos agrícolas e de seus derivados, tanto ao produtor quanto ao consumidor. No limite, em casos mais graves, estudos mostram que podem ocorrer impactos que se estendem, até influenciar os índices de inflação dos alimentos.

Assim, é esperado que, ao se defrontar com o ataque de pragas, os agricultores, com razão, busquem medidas de controle, cuja motivação, embora basicamente microeconômica – preservar seus investimentos e recursos alocados na atividade, garantir suas margens de lucro e a própria viabilidade socioeconômica de sua atividade produtiva –, claramente podem ter implicações macroeconômicas. Ou seja, sobre a renda agrícola nacional, sobre a balança comercial de produtos agrícolas e sobre a inflação.

A eficiência produtiva no campo ainda é, apesar de todos os avanços tecnológicos, um objetivo que deve ser perseguido por todos agricultores e cujos efeitos chegam, diretamente, à mesa dos consumidores, por meio da redução dos custos dos alimentos. Quanto maior a produtividade das culturas por unidade monetária do custo de produção, mais eficiente é o produtor e, portanto, maior é a sua competitividade em termos de definição de preços de venda de seu produto, e, em tese, menor é o valor ao consumidor final.

Essa tão almejada produtividade dos cultivos, no entanto, é afetada diretamente pelo clima, pela qualidade do solo e pelo manejo de nutrição adotado, pela incidência de pragas (sejam elas insetos, nematoides, ácaros, vírus, bactérias, fungos ou plantas invasoras) e pelos métodos de controle adotados para reduzir seus impactos, ou pela escolha do material genético a ser cultivado. São inúmeras variáveis interdependentes, em uma equação complexa, que, mais recentemente, com os avanços no conhecimento humano, foram adicionadas de componentes que vão qualificar a produção, mais do que garantir seu volume.

As equipes de pesquisadores do Cepea vêm, há anos, tratando direta ou indiretamente do tema acima, seja via levantamentos de custos de produção e identificação das alternativas tecnológicas de controle que os produtores adotam em cada safra; seja avaliando os benefícios econômicos dados pelas perdas evitadas ao se adotarem medidas para controle das pragas, como nos estudos realizados sobre o Huanglongbing (greening) e o cancro, para São Paulo; ou, como ainda mais recentemente, pelo monitoramento das principais pragas na agricultura, e sua avaliação de impactos micro e macroeconômicos.

Há muito o que fazer nessa área e os desafios não são convencionais: é preciso fomentar os trabalhos e a cooperação interdisciplinar, por exemplo, entre economistas, estatísticos, agrônomos e técnicos agrícolas; é preciso desenvolver metodologias ajustadas para examinar o problema dos impactos das pragas, suficientemente precisas para  isolá-los de outros efeitos como os climáticos; é preciso ampliar o escopo dos levantamentos de dados a campo, a fim de refletir melhor a heterogeneidade tecnológica, fundiária, e, principalmente, do capital humano envolvido nos sistemas produtivos.

Os estudos do Cepea abrangem, até o momento, o monitoramento dos impactos econômicos das pragas da soja, milho e do algodão, culturas que, em 2016/17, responderam por cerca de 86% da área plantada com grãos e cereais, 35% das exportações do agronegócio, 16% dos empregos na agricultura, e a mais de 70% das vendas de agrotóxicos no País.

Os montantes envolvidos no caso das três culturas são muito significativos. Uma estimativa com base na extrapolação dos dados de campo obtidos pelo Cepea indica que, nessa safra, o gasto dos produtores de soja com fungicidas pode ter alcançado algo próximo dos R$ 8,3 bilhões, dos quais 96% são para o controle da ferrugem.

Tomando-se o caso do controle da ferrugem, simulou-se uma situação em que os produtores não empregassem os fungicidas, de modo que estariam economizando cerca de R$ 5,75 bilhões na safra 2016/17. Contudo, ao se considerar as perdas potenciais, previstas na literatura técnica específica, essa ausência de controle poderia ocasionar uma queda de 30% na oferta estimada para a soja naquele ano. Esta queda, por sua vez, certamente teria efeitos sobre as exportações, sobre os preços domésticos de matérias-primas e alimentos derivados e sobre a renda do setor.

Este exercício evidencia, mais uma vez, a magnitude da economia envolvida quando se trata do controle de pragas na agricultura. No modelo que prevalece atualmente na produção agrícola, e diante dos desafios da segurança alimentar, há que se atentar para estratégias que garantam que as perdas acima ilustradas sejam mitigadas no limite do possível técnica e economicamente. Por outro lado, faz-se necessário também um esforço imenso de educação fitossanitária, para que o uso das técnicas de controle ocorra de forma apropriada, sem gerar prejuízos para a saúde humana e para o ambiente.

Assim, os limites da discussão econômica sobre o controle dessas pragas se estenderam, nos últimos anos, a um escopo socioeconômico e ambiental. Ou seja, um problema que, por muitos anos, ficou restrito à escolha de métodos de controle que fossem compatíveis com o nível tecnológico dos agricultores e com sua viabilidade econômica, passou a interessar pelas possíveis implicações à segurança dos alimentos e do ambiente propriamente. Estes, sim, problemas ainda mais complexos já que, em geral, estão associados ao uso inadequado dos agrotóxicos e à inobservância e ao desrespeito às indicações de adoção e de forma de aplicação dos mesmos nas culturas.

*Professora da Esalq/USP, pesquisadora da Cepea.

Data de publicação no site da Cepea: 22/11/2018

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