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Aquecimento e seca afetarão muito o desempenho das lavouras de soja e trigo e dos pastos nas regiões tropicais e subtropicais. 

*José Graziano

A agricultura surgiu há milênios com o objetivo de garantir a segurança alimentar dos seres humanos, que passavam dessa forma a não depender exclusivamente da caça e do extrativismo. Ou seja, por meio do cultivo da terra e também de animais, a humanidade sempre buscou reduzir as incertezas futuras em torno da disponibilidade quantitativa e qualitativa de alimentos.

E a capacidade de produção de alimentos aumentou ao longo dos séculos, em virtude do desenvolvimento das técnicas e práticas agrícolas.

Hoje, por exemplo, a agricultura de precisão está em expansão nas lavouras capitalizadas de todo o planeta. O uso de GPS, o micromapeamento de pragas e doenças, a customização do manejo em frações de terreno, análises detalhadas de fertilidade e umidade e a digitalização das operações, entre outros recursos, respondem ao desafio permanente de garantir e elevar a produtividade.

É verdade que atualmente 800 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo. Mas é verdade também que a produção global corrente poderia alimentar bem mais pessoas que a atual população mundial (cerca de 7,5 bilhões). Calcula-se que cerca de um terço de toda a produção global é desperdiçada, e muitos simplesmente não dispõem da capacidade física para produzir alimentos ou financeira para compra-los.

Em razão dos impactos da mudança do clima, antigos riscos e incertezas com relação à produção de alimentos estão voltando à tona. A contrapelo do arsenal tecnológico erguido pela humanidade até aqui, voltamos a um ponto anterior aos das colheitas programáveis, índices de produtividade previsíveis e estoques administráveis e seguros.

As temperaturas mais altas e padrões metereológicos erráticos já estão prejudicando as atividades agrícolas, bem como a saúde de solos, florestas e oceanos, dos quais a segurança alimentar depende.

A volatilidade de novo é senhora no horizonte agrícola de um planeta que se esfalfa sem saber se conseguirá impedir que a temperatura média se eleve acima de 2º Celsius até o fim do século, como determina o Acordo de Paris.

Secas cada vez mais acentuadas e longas, chuvas torrenciais e concentradas, temperaturas feericamente elevadas já constituem o 'novo normal' de uma transição que veio intensificar a volatilidade de rendimentos, cotações e estoques que se supunha planejáveis.

Na América Latina e no Caribe, os impactos já mapeados não são negligenciáveis.

A edição de 2016 do relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 'O Estado Mundial da Agricultura e Alimentação' (Sofa, em inglês), inclui um anexo especial sobre a nova era da instabilidade: 'Mudanças Climáticas e Segurança Alimentar Nutricional da América Latina e Caribe'.

O que ele mostra é que a produtividade da soja, do trigo e das pastagens poderá até exibir ganhos em latitudes temperadas, mas o aquecimento e a seca afetarão negativamente o desempenho das lavouras e dos pastos nas regiões tropicais e subtropicais. Zonas áridas do Chile e do Brasil, ademais da agricultura de sequeiro em zonas semiáridas, enfrentarão as perdas mais significativas. Na América Central, 40% das espécies de mangue poderão desaparecer. A silvicultura e a pesca de água doce serão golpeadas.

Embora o gradiente dos impactos seja amplo, regiões sujeitas a aumentos de temperaturas perderão receita agrícola.

A correlação entre segurança alimentar, produção sustentável e inclusiva e a busca de adaptação ao novo imponderável climático redefine, portanto, a agenda internacional.

Todas as demais escolhas do desenvolvimento terão que se reordenar diante da variável que veio para ficar.

Resiliência é o nome do novo bem público na agricultura do século XXI. Providenciá-lo não é uma tarefa para trincheiras isoladas. Sobretudo, para pequenos agricultores pobres que formam a vasta maioria (80%) das 570 milhões de unidades rurais espalhadas pelo planeta, e que não contam com acesso à maior parte dos recursos tecnológicos da agricultura de precisão.

Adaptar a agricultura às novas realidades da mudança climática pressupõe a democratização de uma nova revolução verde. Desta vez, verde de fato.

Novas soluções técnicas de baixo custo, transferência de tecnologia e mais recursos para a cooperação para o desenvolvimento, serão decisivos.

Estamos falando de variedades resistentes à seca, por exemplo, mas também de sistemas de comunicação de ampla capilaridade interativa, estatísticas ágeis, redes compartilhadas de armazenagem, máquinas, assistência técnica, manejo de reservas hídricas ademais de alertas meteorológicos de máxima antecipação e detalhamento.

Os dados da equação nos dizem que o tempo das constatações se esgotou.

O alarme climático eliminou o espaço da negligência protelatória na luta contra os desequilíbrios sociais, sobretudo os do campo.

É hora de alargar a ponte da resiliência, para que os mais vulneráveis possam, também, alcançar uma vaga na margem menos turbulenta do futuro.

*José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

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