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Oferta de alimento pode triplicar em 10 anos com uso de tecnologia.

‘Se mantivesse as taxas de produtividade de 20 anos atrás, o Brasil precisaria de mais 68 milhões de hectares para produzir a quantidade de grãos que produz hoje’, calcula o ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas. ‘São 68 milhões de hectares de florestas, cerrados e campos preservados. Isso é uma ode à tecnologia brasileira.’ Para José Roberto Rodrigues Peres, chefe geral da Embrapa Cerrados, nos próximos 10 a 12 anos o Brasil pode triplicar a oferta de alimentos utilizando a mesma área plantada hoje, um total de 53,23 milhões de hectares.
‘Podemos chegar a esse resultado só com transferência de tecnologia ao produtor e boas práticas, como a verticalização da produção, por meio do sistema integrado’, diz Peres.

Segundo José Eustáquio Ribeiro Vieira, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 68% do crescimento da produção agrícola brasileira nos últimos 40 anos estão relacionados ao emprego de tecnologia, enquanto 9% correspondem ao fator terra (aumento de área ou terra mais produtiva) e 2% a mão de obra. ‘A terra não é mais fator significativo para o aumento de produção. O fundamental é a tecnologia’, afirma. De 1975 a 2010, a produtividade agrícola brasileira avançou 267%, enquanto a dos Estados Unidos aumentou 75%.

Projeções da Assessoria de Gestão Estratégica (AGE), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), para 2023 também indicam maior acréscimo de produção do que de área utilizada. Entre 2013 e 2023, considerando-se três cenários, a produção de grãos pode crescer entre 25,3% e 69,1%, enquanto a área deverá expandir-se entre 10% e 30%. No cenário mais provável, a produção brasileira de grãos deve chegar a 222,7 milhões de toneladas em 2023, um acréscimo de 38 milhões de toneladas. Já a área plantada deve ser acrescida de 4,4 milhões de hectares, para 57,33 milhões de hectares. Nos próximos dez anos, deverão ser produzidas também mais 9,3 milhões de toneladas de carnes, um aumento de 34,9% em relação à safra deste ano, para um total de 35,8 milhões de toneladas.

A curva de investimentos em pesquisa no país é acentuada e crescente, desde 1973, segundo José Garcia Gasques, coordenador de planejamento estratégico do Mapa. ‘O efeito é cumulativo’, diz. Além disso, houve grandes investimentos em máquinas e implementos mais eficientes, variedades mais produtivas e fertilizantes e defensivos de maior qualidade. Contribuíram também para a expansão do rendimento agrícola a adoção de uma gestão mais profissional da atividade rural, decorrente da abertura da economia e da estabilização econômica e monetária.

A pecuária também evoluiu. Segundo o censo agrícola do IBGE, a área de pastagem foi reduzida de 174,6 milhões de hectares, em 1980, para 160 milhões de hectares em 2006, enquanto o número de cabeças de gado aumentou, no período, de 118 milhões para 176 milhões, devido basicamente ao melhoramento das pastagens, segundo Gasques.

A recuperação de pastagens degradadas, com a adoção do sistema de integração de culturas e pecuária, também tende a liberar novas áreas para a produção agrícola. ‘O sistema de integração, o plantio direto na palha e outras práticas são tecnologias disponíveis para a recuperação de uma grande área degradada. Ainda há bastante espaço para a utilização de tecnologia’, diz Paulo César Dias, coordenador do ramo agropecuário da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). A técnica do plantio direto na palha (plantio de uma cultura sobre o que restou no solo da colheita anterior), ao melhorar as propriedades físicas do solo, proporciona aumento de 30% no rendimento, principalmente nas culturas de soja e milho, segundo Gasques.

O impulso à pesquisa tecnológica veio com a introdução da soja no Centro-Oeste, no início dos anos 1970. Criada em 1973, a estatal Embrapa desenvolveu tecnologias para corrigir o solo e criar cultivares de diferentes espécies, tendo a soja como carro-chefe. ‘Na década de 1970, a soja só era produzida no sul do país, com cultivares vindos dos EUA, que não cresciam nos cerrados. Foi feito todo um programa de desenvolvimento genético para a região’, relata Peres.

A soja também melhorou o solo da região, ao retirar nitrogênio de camadas mais profundas, o que permitiu também a produção de milho, algodão, arroz e feijão nos cerrados. A região é responsável hoje pela produção de 55% de carne bovina do país, 40% a 45% da produção de leite, cerca de 60% da soja, 50% a 55% do milho, 30% do arroz e quase 40% do café. ‘A agricultura moderna foi desenvolvida para o clima temperado, na Europa, Estados Unidos, Argentina e Austrália. A partir desse conhecimento científico, o Brasil desenvolveu uma tecnologia própria. Isso é que é inovação’, comenta Luiz Antonio Pinazza, diretor técnico da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Estimulada pela valorização no mercado internacional, a soja desenvolveu-se rapidamente no país. Hoje 70% da produção do grão e derivados (farelo e óleo) são exportados. ‘O crescimento da cultura de soja foi calcado mais em produtividade do que em área’, diz Daniel Furlan Amaral, gerente de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). De 1976 a 2013, a produção aumentou 6,7 vezes, para 81,3 milhões de toneladas, enquanto a área plantada com o produto aumentou menos de quatro vezes, para 27,7 milhões de hectares. A taxa de produtividade continua crescente, embora em ritmo menor.

Desde 2002, segundo Amaral, o rendimento médio da soja tem crescido ao ritmo de 0,82% ao ano. ‘O patamar atual, de 3.000 kg/ha, é bastante alto’, diz. Ele calcula que o avanço da produtividade da soja economizou 18,8 milhões de hectares nos últimos 37 anos.

Fonte: Valor Econômico

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