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Alberto Tamer: É a agricultura que tem sustentado o crescimento econômico.

Alberto Tamer

A agricultura brasileira pode ser chamada de “essa desconhecida”. As atenções estão voltadas para a indústria, que fraqueja, e para outros setores, mas é a agricultura que tem evitado explosões inflacionarias e sustentado o crescimento econômico, principalmente nos anos de crise.

Um fato importante, diria mesmo, importantíssimo ao qual se dá pouco destaque: é também um modelo em que o setor privado responde por “toda” produção e comercialização no País. Tem o apoio técnico do governo, sim, pelo excelente trabalho realizado pela Embrapa, tem financiamento, mas não conta com a proteção dos escandalosos subsídios oferecidos pelos Estados Unidos e a União Europeia aos seus agricultores. Mesmo assim, os americanos estão perdendo terreno para o agronegócio brasileiro no mercado mundial. E repito, todos eles privados, multinacionais ou não.

Eis um modelo a seguir O Estado participa também por meio de um Ministério da Agricultura eficiente, que completa 150 anos, observa e age nas emergência, socorre os que precisam, estimula a agricultura familiar, mas fica distante. Não se mete nas decisões do que plantar, produzir e exportar. O mercado é que decide. A agricultura brasileira não precisa de estatais. Não quer intromissão do Estado.
Esse é um modelo de convivência entre Estado e setor privado que deveria ser estudado pelos dois candidatos a presidência, para que não inventem mais empresas estatais como se está fazendo hoje.

Mas a agricultura é isso mesmo? Sei que é essa a pergunta que o leitor deve estar fazendo. A resposta é sim. E baseada não só em dados do IBGE, mas também do governo americano. Mesmo sem subsídios, o Brasil é hoje o terceiro maior exportador de alimentos do mundo. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Brasil é líder na produção e exportação de açúcar, café em grãos e suco de laranja. Além disso, é o primeiro exportador mundial de carne bovina, tabaco, álcool etílico e carne de frango.

Ocupa a vice-liderança na produção e exportação de soja em grãos (atrás apenas dos EUA. É o terceiro maior exportador mundial de milho e o quarto de carne suína. O Brasil depende hoje da importação de trigo, que somou apenas US$ 1,2 bilhão em 2009, e alguns outros derivados, além de cevada e arroz. As exportações do agronegócio, em 2009, totalizaram US$ 64,75 bilhões, representando nada menos que 42,5% das vendas externas. As importações foram de apenas US$ 9,8 bilhões, o que significa um superávit de US$ 54, 9 bilhões. Sustentou a balança comercial.

O que exportamos e para quem O complexo soja lidera (farelo, óleo e grãos); representou 26% das vendas. Seguem as carnes (bovina, aves e suína), que foram responsáveis por 18% das vendas externas do agronegócio. O complexo sucroalcooleiro (açúcar e etanol) respondeu por 15% das exportações agropecuárias.

A China vem se consolidando, há dois anos, como o principal país comprador de produtos do agronegócio brasileiro. Absorveu no ano passado 13,77% das vendas externas. Os chineses compraram quase US$ 9 bilhões. Vale destacar que o Brasil exporta para cerca de 200 países.

Com 7,67% na participação das vendas externas do agronegócio, os Países Baixos estão em segundo lugar, representando nada menos que US$ 5 bilhões. Mas é importante registrar que representa a importação da Europa, pois é na pequena Holanda que está localizado o importante Porto de Roterdã.

E os americanos? São grandes produtores e exportadores e importam do Brasil apenas US$ 4,5 bilhões. Nada mais de 7% das nossas vendas do setor. Os Estados Unidos lutam com o Brasil na OMC, nas falidas negociações de Doha, porque querem exportar mais produtos agrícolas a preços subsidiados. Mesmo assim, sozinhos, ainda compram quase o mesmo que os 27 países da União Europeia juntos. Mas será que vai dar para sustentar esse ritmo de exportações e ainda atender, neste ano, ao aumento da demanda interna por alimentos? Vai dar sim. É um assunto tão importante e vital para a economia brasileira, que vamos destinar uma segunda coluna para ele.

Uma sugestão Por que os professores de escolas e faculdades não pedem aos estudantes, neste início de semestre, trabalhos sobre a importância da agricultura brasileira no País e no mundo mostrando os pontos altos e baixos de uma realidade nacional quase esquecida e que só se lembra mesmo quando o Ministério completa 150 anos?

Artigo publicado em 29 de julho, no jornal O Estado de S.Paulo


Agricultura, um modelo (final)

A agricultura brasileira pode crescer no ritmo atual e até dobrar a produção em alguns anos sem pressionar o meio ambiente, violar florestas ou expulsar a pecuária. Há terra livre, há tecnologia, clima, insolação, recursos naturais e, acima de tudo, interesse do governo e do setor privado em atender a demanda interna e o mercado internacional. Não é apenas uma afirmação vazia, sem base. Ela se fundamenta em dados do IBGE, dos levantamentos de campo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), dos bancos que financiam as safras e das grandes empresas, nacionais ou não, que operam no setor.

Safras recordes. A produção de grãos no Brasil, ciclo 2009/2010, foi estimada em 146,7 milhões de toneladas, de acordo com o último anúncio (8 de julho) da Conab. Faltam apenas mais dois levantamentos e não há dúvida de que será mais uma safra recorde. A atual será 8,6% maior que a de 2008/2009, quando foram colhidas 135,13 milhões de toneladas. Vai dar para abastecer o mercado sem pressionar os preços. Como?

Há terras para plantar. Muita, mas muita mesmo. O IBGE, não o Ministério da Agricultura, faz um acompanhamento sistemático da produção agrícola, conhecido como LPSA. O mais recente, em junho, constatou que a área plantada com as principais lavouras no Brasil é de 61 milhões de hectares, em números redondos. E sabem quanto há de terra própria para a agricultura? O último levantamento do instituto, em 2006, informa que são 226 milhões de hectares.

Mas tem a pecuária! Sim, de acordo com esse mesmo levantamento, ela ocupava 158 milhões de hectares. Ou seja, haveria ainda 60 milhões de hectares para plantar sem invadir florestas. A produção poderia mais que dobrar por dois motivos: 1) levantamento da Fundação Getulio Vargas, que consta de reportagem do colega Fernando Dantas, do Estado, de segunda-feira, 28, revela que a produção agrícola vem aumentando mais do que a área plantada; e, 2) que a lavoura vem recuperando espaço perdido para a pecuária. Estão sendo plantados mais arroz, feijão, algodão e milho do que capim para os pastos invasivos.

Sei qual é a pergunta, agora: e as florestas? 98 milhões de hectares… Podem ficar tranquilos pois, se houver fiscalização eficiente, não é preciso derrubar nada. (Tem mais: pela vivência do colunista na Amazônia, a maior parte da floresta quando derrubada, vira areião.)

O que há. Há financiamento oficial e do setor privado. O governo anunciou recursos recordes de R$ 100 bilhões para a safra atual. É ótimo, mas não é tudo. Em média, a participação oficial no financiamento da agricultura é de 33% do que o setor precisa. O restante vem do setor privado. Na crise, ele se retraiu e a participação oficial deve ter chegado a 35%. Foi oportuna e confirma a tese defendida na última coluna de que o modelo agrícola no qual o setor privado predomina e o Estado complementa é o melhor para o Brasil. Não só para a agricultura, para a indústria também.

Há características próprias, sim, adaptáveis a cada setor. O retorno na produção agrícola é mais rápido, um ano, em média, e o da indústria tem mais prazo de maturação. Mas não há dúvida de que o governo tem sido mais ágil e encontrado mais resposta na agricultura que na indústria.

E o que falta? Infraestrutura: estradas, ferrovias, portos. Um leitor atencioso corrige e informa que, pelo menos no milho, nem toda a safra é comercializada pelo setor privado. Há os leilões da Conab. Registro e agradeço a correção. O leitor informa também algo incrível. Uma saca de milho negociada, sem Conab, por R$ 8, custa R$ 9 para ser transportada de Primavera, no leste de Mato Grosso, para o porto de Paranaguá. É a ausência do governo onde devia estar.

Artigo publicado pelo mesmo autor, em 1º de agosto, no jornal O Estado de S.Paulo.

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