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Leia a Nota de Esclarecimento referente ao programa veiculado em 19 de março.

Há 16 anos comandado pelo apresentador Luciano Huck, da TV Globo, o programa de variedades "Caldeirão do Huck" atinge um público bastante vasto, de jovens às donas de casa.  Em 2013, o programa estreou um quadro "Jovens Inventores", com o objetivo de encontrar inovações para solução problemas.

O quadro trouxe três jovens que pesquisam a substância carvacrol como defensivo agrícola natural.

A Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF enviou carta à direção devido ao programa exibido dia 19 de março último. A ANDEF elogia a iniciativa do quadro "Jovens Inventores" por incentivar a maior participação dos estudantes no mundo da ciência; no entanto, apontou determinados equívocos no texto do apresentador ao se referir aos defensivos agrícolas. 

NOTA DE ESCLARECIMENTO:

1.  A decisão de nações investirem em políticas estruturais de Educação elevou-as ao patamar do desenvolvimento pleno, especialmente em áreas da Ciência e Tecnologia – historicamente as mais carentes no sistema de ensino brasileiro. Quando iniciativas apontam este caminho- chave, devem ser decididamenteaplaudidas.

Com este objetivo, a Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF, que reúne as empresas que pesquisam e desenvolvem as tecnologias dos defensivos agrícolas no Brasil, enaltece o quadro “Jovens Inventores”, do programa Caldeirão do Huck.

Em sua quinta edição, “Jovens Cientistas” tem se constituído uma semente de oportunidades para as gerações de hoje cultivarem o amanhã. Portanto, os nossos votos de sucesso a este quadro do Caldeirão do Huck, programa cujas ideias construtivas justificam seus dezesseis  anos bem sucedidos na emissora.

Ao mesmo tempo – e justamente em nome do rigor que cabe à Ciência –, tomamos a  liberdade de sugerir correções a determinadas informações no episódio do dia 19 de março último, quando exibiu a experiência de três jovens do Rio de Janeiro utilizando uma substância natural, o carvacrol, como defensivo agrícola.

2.   A substância carvacrol é pesquisada há anos por especialistas. Ela compõe uma classe de produtos naturais presente em óleos essenciais de plantas, com odor e sabor intenso, contendo moléculas que apresentam atividade biológica. Sua aplicação é possível em indústrias, principalmente, dos ramos farmacêutico, cosmético e químico.

O carvacrol tem atraído atenção devido à sua variedade de atividades biológicas benéficas, especialmente analgésica, antibacteriana, antioxidante e anti-inflamatória. Entretanto, são substâncias voláteis, que apresentam certa instabilidade química e cujo mecanismo de ação ainda desconhecido tem sido objeto de pesquisas.

3.   É frequente indústrias nos setores químico e farmacêutico pesquisarem inovações a partir de um composto de origem biológica. Os exemplos são vacinas desenvolvidas para doenças e que foram sintetizadas a partir de substâncias naturais, emlaboratórios.

Outro exemplo clássico é o princípio ativo piretróide, descoberto após observar-se a ação biológica das plantas do gênero dos piretros, como hortênsia e crisântemo. Sintetizada em laboratório, na década de 1989, foi possível produzi-la em escala comercial para se tornar um dos inseticidas mais eficientes utilizados na agricultura.

4.  Os jovens premiados no programa deram um importante passo. Mas, como exige o Estado da Arte da ciência, agora a pesquisa começará outra longa jornada: testar nos laboratórios e nos campos os possíveis benefícios e a segurança do produto se incorporado comercialmente nas lavouras.

Se o carvacrol não se tornou, ainda, um produto agrícola comercial, aprovado por órgãos regulatórios,  como  os  ministérios  da  Saúde  e  do  Meio  Ambiente,  certamente deve-se pendências sobre aspectos técnicos – como falta de dados sobre comportamento ambiental e toxicológico do produto, ou mesmo a dificuldade de obtê-lo em escala comercial.

5.    Ficam as expectativas de que o incentivo que os três jovens receberam do programa contribua para o avanço desta semente. Como representante das empresas que pesquisam agroquímicos, a ANDEF prevê que os fabricantes interessados em apoiar doravante a iniciativa dos jovens terão longo e caríssimo trabalho pela frente. Até serem aprovados pelos órgãos de governo e chegarem às lavouras dos agricultores, os defensivos são estudados, em média, ao longo de vinte anos, com o grau de regulamentação mais rígido do mundo e investimentos que somam, em média, 250 milhões dedólares.

6.    Ao proteger os alimentos nas plantações, a tecnologia dos agroquímicos se constitui ferramenta essencial diante do desafio de alimentar bilhões de pessoas em todo o mundo. Quando a maioria dos países enfrenta sérios desafios socioeconômicos, torna-se ainda mais dramático o problema dadesnutrição.

O Brasil é indicado pela FAO, órgão da ONU para a agricultura e alimentação, como uma das mais competitivas do mundo. Portanto, foi lamentavelmente equivocada e injusta a frase do apresentador Luciano Huck, ao dizer que “os agrotóxicos são inimigos da alimentação brasileira”.

Embora um dos maiores produtores de alimentos, o Brasil enfrenta uma grande dificuldade: as características tropicais expõem as lavouras ao ataque permanente de pragas. Ou seja, uma realidade comum no campo que, hoje, está sendo tristemente conhecida nos meios urbanos devido à proliferação do inseto Aedes aegypti.

Ainda assim, o uso desta tecnologia no Brasil é muito menor que o observado nos principais países. De acordo com a consultoria Kleffmann, quando se analisa o volume de alimento colhido entre os dez maiores produtores mundiais, o Brasil é o sétimo colocado.

7.    Outro grande equívoco do Programa foi a afirmar que o Brasil consome 5,2 litros de agrotóxicos por habitante. Apesar da estatística infundada, que não resiste a uma explicação elementar, ela predomina facilmente nas redes sociais.

Na verdade, grande parte dos agrotóxicos se destinam a cultivos não-alimentares. Por exemplo, cana-de-açúcar, árvores de reflorestamento e algodão são matérias-primas de  etanol, madeira e de roupas, que não vão aos pratos dos cidadãos.

Mesmo no caso de alimentos, é uma grave falsidade afirmar que o brasileiro ingere as substâncias aplicadas na lavoura. Como lembrou o próprio Marcelo Morandini, chefe geral da Embrapa e um dos jurados no programa: “Há o prazo de carência – o tempo entre a última aplicação do produto e a data da colheita – em que a substâncias são degradadas, por muitos dias ou semanas, pela ação da temperatura, luz, umidade etc.” Ainda assim, caso permaneça algum resíduo, será uma quantidade tão ínfima (Partes Por Milhão, PPM) e diluída, não oferecendo portanto, qualquer risco aos consumidores.

8.  Feitas tais considerações, reiteramos nossos cumprimentos aos responsáveis pelo programa e aos três jovens entusiasmados com o mundo da ciência. Afinal, a pesquisa científica entre os jovens lembra a frase recente do economista Cláudio de Moura Castro, especialista em Educação: “A ciência é uma planta frágil. Não pega de galho nem de sementes lançadas a esmo. Requer muito zelo e entusiasmo paraprosperar”.

Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF

24 de Março de 2016.

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