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FAO reforça papel estratégico do País e o sucesso no uso da tecnologia no campo.

O boliviano Alan Bojanic assumiu em março deste ano o “cobiçado” cargo de representante da FAO no Brasil. Cobiçado, diz ele, porque para um funcionário do braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, nada melhor que estar no país neste momento. “O Brasil é estratégico para a FAO e certamente para a minha carreira”, afirma Bojanic, que passou os quatro anos anteriores dirigindo a agência da FAO em Santiago do Chile.

O entusiasmo se explica: há anos considerado o “celeiro do mundo”, o Brasil passou a exercer agora um papel maior com a escolha de José Graziano – uma das cabeças por trás do projeto Fome Zero do governo federal brasileiro – para a direção geral da entidade em 2011. “Com a chegada de Graziano, a FAO mudou a forma como trabalhou por 30 anos, que priorizava os projetos dentro do Brasil, para projetar o conhecimento do Brasil ao exterior”, afirma Bojanic, em entrevista por telefone ao Valor. “O Brasil é um dos poucos países do mundo com conhecimento em agricultura tropical. Essas experiências devem ser repassadas”.

A primeira ação foi descentralizar a administração de projetos. Em uma experiência inédita, a FAO terá outros três escritórios no país para fazer a identificação e mapeamento de experiências de sucesso na agricultura, tanto de tecnologia quanto de organização da produção. O primeiro escritório foi aberto em Curitiba, com aporte previsto de US$ 100 mil por ano da Secretaria de Agricultura do Paraná, da Itaipu Binacional e da própria FAO. Em 2014 está prevista a abertura da segunda unidade, em Campina Grande (PB). Depois, na Amazônia.

“Não podemos ficar só em Brasília. A ideia é ter escritórios descentralizados – queremos pelo menos três – para juntar as realidades tão diferentes desse país. Precisamos de um olhar perto”, diz Bojanic. Segundo ele, se der certo – a FAO conta com recursos das parcerias para levar adiante esse plano -, o modelo poderá ser replicado nos outros BRICS (Rússia, Índia e China e África do Sul).

A escolha de Curitiba se baseou na tradição de cooperativismo agrícola do Paraná. Para a FAO, mais que a tecnologia em si – algo que o Brasil já vende, sobretudo por meio da Embrapa -, o modelo organizacional do campo deve ser exportado numa relação mais estreita de cooperação Sul-Sul. “Temos experiências para mostrar ao mundo”, afirma Bojanic, formado no Reino Unido em economia agrícola e PhD em florestas tropicais.

Além de exportar know-how, esses escritórios servirão também para receber especialistas de fora, direcionados para as especificidades de cada região. Caso dos representantes da Costa Rica, detentores de boa experiência em pagamentos por serviços ambientais. Bojanic afirma ter realizado mais de cem intercâmbios este ano, sobretudo com países latino-americanos e africanos, e tem como meta dobrar o número de visitas técnicas ao Brasil e do Brasil ao exterior.

Mas para fazer o Brasil acontecer, aqui ou no exterior, o dirigente da FAO terá de contar com o interesse mútuo por desenvolvimento da iniciativa privada e pública – os modelos de PPP ainda engatinham na área agrícola. Apesar do repasse de ? 3 milhões pelo governo brasileiro à FAO este ano, apenas US$ 500 mil voltaram para o país, e servem basicamente para o custeio da entidade. “Há países que precisam mais”, explica. Os 20 funcionários – sete deles técnicos – tampouco dão conta da demanda por assistência técnica e projetos que a FAO administra no país.

No campo político, a FAO também tenta exercer alguma influência. Em aparições públicas, Bojanic costuma pedir mais do país para garantir a segurança alimentar, tema central de atuação da agência da ONU. “O Brasil precisa resolver seus problemas estruturais”, afirma. Um deles é a falta de visão política de longo prazo. Outro é a falta de planejamento – duas vertentes que se confundem e culminam com o caos logístico que se vê hoje. “As rodovias são um problema. E segurança alimentar não é só produzir os alimentos, mas transportá-los. Se queremos que o Brasil seja líder mundial nas áreas de produção de alimentos, é preciso ter organização e visão. Onde o Brasil quer estar em 30 anos?”

Ele cita como exemplo políticas pontuais em que o governo injeta recursos sem trabalhar a cadeia como um todo. “Há coisas boas, como o Plano Safra”, diz. “Mas não é estruturado. O transporte dessa safra não está sendo pensado”.

A comparação com o Chile é feita, seja pela proximidade física ou pela disparidade logística com o Brasil. “No Chile, apesar das condições diferentes – metade do território é deserto, os portos são próximos e os Andes servem como uma barreira natural a doenças – eles têm uma visão de futuro para fortalecer essas áreas que são competitivas e gerar mais renda e divisas. Investem muito em pesquisa. O Chile quer ser uma potência em frutas e florestas”, diz Bojanic. “Eles estão trabalhando fortemente também com seguro rural e sanidade. E ainda assim eles acham que é insuficiente. Isso deveria servir de modelo para o Brasil”.

Fonte: Valor Econômico

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