Você está aqui: Home / Imprensa / Notícias / Carnaval, agricultura e poesia

Eduardo Daher analisa a contribuição da Vila Isabel e do Carnaval para o Agro.

Eduardo Daher*

O carnaval carioca deste ano deu uma contribuição especial para o reconhecimento da relevância do campo para o Brasil e o planeta. Na Sapucaí, palco de um dos mais deslumbrantes espetáculos culturais do mundo, a Vila Isabel brilhou ao desvendar o mundo do agricultor, suas lidas no cultivo de alimentos, mas também um cotidiano, hoje, muito presente no asfalto dos meios urbanos, seus elementos culturais, sua religiosidade, suas histórias, canções. Isso explica a emoção que contagiou a público nas arquibancadas.
Se a narrativa bucólica sobre a vida no campo do samba foi conduzida com originalidade pela carnavalesca Rosa Magalhães, o desfile ganhou consistência nos versos do samba-enredo “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – água no feijão que chegou mais um….”. Os autores descrevem com exatidão as razões do sucesso da agropecuária brasileira, quando o agricultor-sambista entoa na avenida:


“… Preciso investir, conhecer
progredir, partilhar, proteger…”

De fato, investimento, conhecimento, progresso, partilha, proteção – não necessariamente nessa ordem -, são elementos que têm marcado nos últimos anos o setor agropecuário brasileiro e têm garantido os sucessivos recordes de produção de alimentos.
O fluxo consistente de investimentos privados e públicos em pesquisa e novas tecnologias agrícolas resultaram o desempenho vigoroso do País e a conquista de mercados importantes no Exterior. A colheita da safra 2012/2013, que ocorre agora a pleno vapor, assim foi mesmo durante os dias do Carnaval, deve alcançar 185 milhões de toneladas de grãos, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Com aumento de 11,3% em relação à safra passada, os números sinalizam a maior produção já registrada no País. As exportações atingiram outra marca histórica, US$ 95,81 bilhões.
O DNA da economia brasileira está estreitamente ligado ao trabalho agropecuário, desde os primórdios da nossa história. Mas foram os aportes de recursos nos últimos anos que permitiram o País diversificar e intensificar a produção, ampliar a oferta de alimentos nas mesas dos brasileiros e ainda atender a mercados tão exigentes como, Estados Unidos e Europa, e aqueles com demanda vertiginosa na Ásia. Ou seja, está cabendo ao Brasil a missão – depois do grande feito do cientista agrônomo Norman Borlaug -, de liderar a segunda Revolução Verde no campo.
Conhecer as fronteiras agrícolas brasileiras, as condições e segredos de seus solos e clima também vem representando fator de sucesso. A ciência brota nos laboratórios das instituições públicas e empresas privadas – como Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto Agronômico de Campinas, SP, e Embrapa, apenas para ficar em alguns exemplos emblemáticos de excelência. Tal conhecimento propicia a adoção cada vez mais racional de tecnologias de base genética (sementes) e química (fertilizantes e defensivos), além de máquinas de última geração que garantem a competitividade dos cultivos. Assim pensa também a presidente Dilma Rousseff: “Temos de enfrentar a extrema pobreza priorizando a ciência e o necessário salto em inovação e tecnologia”, afirmou Dilma em audiência no Planalto, na mesma semana do Carnaval, sugerindo maiores investimentos em pesquisa em biotecnologia.
Como prova do progresso gerado pelo campo, a cadeia do agronegócio proporciona cerca de 40 milhões de empregos, diretos e indiretos: desde a originação dos produtos na lavoura até sua distribuição por todo o mundo, passando pela indústria de alimentos e a geração de energia (combustível e elétrica) a partir da cana de açúcar. Entre 1992 e 2011, apesar da guerra protecionista comandada pelos países desenvolvidos, as exportações cresceram 615%. A agropecuária representa cerca de 25% de toda a produção de bens e serviços do país, o PIB.

A agropecuária brasileira tem proporcionado tanto a partilha de alimentos, como dos resultados financeiros. De um lado; assegurando o abastecimento de dezenas de milhões de brasileiros que agora podem se alimentar melhor; de outro, beneficiando pequenos e médios agricultores, com maior oferta de crédito. Destacam-se, por exemplo, as linhas de financiamento do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que na safra 2012/2013 prevê a destinação recorde de R$ 18 bilhões.
A continuidade da pujança da agropecuária brasileira passa também por medidas que preservem e protejam uma atividade imprescindível para a evolução econômica, social e ambiental do País. Proteção entendida, aqui, como a garantia da sustentabilidade de todo o ciclo agrícola – desde as tecnologias adotadas na defesa das lavouras das pragas e doenças, até a atenção com as necessidades de armazenagem e logística, para atender ao aumento exponencial de produção. Sem esquecer-se, obviamente, do uso mais responsável e eficiente dos recursos naturais.
Quando, no sábado passado, fechou o desfile das escolas campeãs, a Unidos de Vila Isabel reapresentou na avenida a sua lição de criatividade, vibração, profissionalismo e sucesso – substantivos que também têm sido a marca da agropecuária brasileira nos últimos anos. São campeãs!

EDUARDO DAHER, 63, é economista pela FEA-USP, pós-graduado em administração de empresas pela FGV-SP e diretor-executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef).

ANDEF. Avenida Roque Petroni Júnior, 850 . 19º andar . Torre Jaceru . Jardim das Acácias . CEP: 04707-000 . Tel.: 55 (11) 3087-5033 - (Mapa) Desenvolvido por UAU!LINE.