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Segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, para um regime democrático o estar em transformação é seu estado natural: a democracia é dinâmica, o despotismo é estático. Isso mostra a vida em sua dinâmica contra o eixo dominante em seu interesse. É o que torna a democracia uma escolha de modelo político vivo. Mas para isso o cidadão precisa votar. É um momento sagrado para o futuro democrático. Então, como explicar que, no Brasil, cerca de 20% da população simplesmente não votou no primeiro turno das eleições? É uma questão para pensar.

 
Não há um modelo de governo perfeito. No entanto, dentre todos, a democracia é o melhor deles. Os modelos de dominância sempre se mostram capazes de despertar conflitos graves em face das diferenças de objetivos e de interesses pessoais, inevitáveis na natureza humana. Muito tempo no poder traz o desgaste nas relações e o antagonismo, que se vão tornando insuportáveis.
 
Estamos vivendo no Brasil um longo período de dominância, centrado num espírito negativo da divisão de classes, em constantes ataques maniqueístas, que tem levado à manutenção do poder. O Brasil vive o perigo da dominância, que é o melhor para a situação, a qual lutará por mantê-lo. Os que têm maior discernimento ressaltam a importância das mudanças e, no caso democrático, o enfrentamento virá pela competência na defesa das convicções. Mas como fazer isso num país que tem regiões tão distintas em termos de desenvolvimento e culturas?
 
Na esteira do segundo turno eleitoral, vamos discutir o que é melhor para o Brasil. Perpetuação ou alternância de poder? Esse é um tema que está despertando paixões e a organização de militâncias de ambas as partes – situação e oposição.
 
O filósofo grego Platão (427 a. C.- 347 a. C.), crítico da democracia, dizia que ela somente se justificaria se atingisse consequências desejáveis. Isso é bastante singelo, pois é desejável para quem? Sabe-se que a democracia dá expressão a dois valores que nos são caros: liberdade (certamente) e igualdade (difícil, em face das classes sociais tão distantes, mas aceita, mesmo a alto custo, para que seja concedida a todos). Somente a boa política permite amenizar os conflitos sociais.
 
Na lembrança do nascedouro dos modelos políticos, tem-se hoje a percepção de que a democracia venceu. E ela pressupõe a alternância!
 
No Brasil de 2014 há uma percepção crescente da importância do agronegócio, o grande indutor socioeconômico do Brasil. A visão das cadeias produtivas, em produtos que se renovam, abraça a meta comum da sustentabilidade e do uso de tecnologias avançadas, muitas desenvolvidas aqui mesmo, com grande êxito, por nossas instituições de pesquisa.
 
O País vem girando em torno de estimular o consumo versus oferta; arrecadar impostos versus estimular investimentos; controlar preços versus a realidade dos mercados; criar barreiras via burocracia versus desburocratização e incentivo aos negócios; criar barreiras ao capital externo versus abrir-se a ele; mais estatismo versus estadismo. De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgados recentemente, o Brasil isolou-se nos menores índices de desenvolvimento nos últimos anos.
 
O agronegócio brasileiro, infelizmente, enfraqueceu-se também. Mas sua competência produtiva e o olhar admirado do mundo desenvolvido sobre suas características o fizeram sustentar-se como um grande player dos negócios. O Brasil é chamado por entidades globais – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO-ONU) e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – a ocupar o lugar de maior destaque mundial na relevante questão de produzir alimentos e de reduzir emissões de gases de efeito estufa.
 
O despertar do agronegócio em termos do seu valor para o Brasil veio na última década do século 20. A extraordinária expansão da produção brasileira no campo, com índices de produtividade agrícola e elevada eficiência nas suas indústrias, transformam o Brasil e o tornam um ícone no mundo. A agropecuária brasileira é um sucesso inegável. Afinal, é um dos setores que mais crescem com base em inovação, em produtividade e sem amparo de mecanismos de proteção. Nos últimos anos não houve o entendimento de que isso é fundamental para a atuação geopolítica do Brasil.
 
Segundo turno, nova eleição. Novo momento, nova situação. O foco de luz está sobre dois candidatos somente e é tempo de revelação. O País dos contrastes voltará às urnas. Cabe a toda a sociedade, de todos os níveis econômicos e sociais, a responsabilidade por encaminhar o Brasil para um destino formidável, que vem encontrando barreiras quase intransponíveis. No entanto, o poder do agronegócio de segurar a balança comercial brasileira não se transforma em votos. Isso significa dizer que é necessário saltar as cercas e buscar o diálogo com esse setor, que representa 25% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, e com os outros grandes vetores do desenvolvimento do Brasil. É preciso e é urgente!
 
Produzir com qualidade e sustentabilidade leva à paz, principalmente quando se produz pelas regras da natureza, do tempo. Julgar os outros é pretensioso e, por vezes, arrogante. Mas julgar resultados, ações perturbadoras e divisionistas é essencial para a paz. Com um absurdo viés divisionista, contrapor a agropecuária e a indústria é se remeter ao passado, pois foi dogma do século 20.
 
A economia verde será o espetáculo de desenvolvimento no século 21. Não há a menor dúvida. Juntamente com isso, a abertura dos mercados ao Brasil requer a nossa abertura ao mundo. Abrir mercados com toda a resistência que o mundo desenvolvido antepõe ao Brasil é difícil, mas é também o formal reconhecimento de que o País é de fato competente e será figura expressiva na geopolítica de alimentos e de energia renovável neste século.
 
É essa a questão que deverá ser apresentada aos candidatos. O que eles acham disso?
 
*Luiz Carlos Corrêa Carvalho é presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
 

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