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Segurança alimentar: o Brasil evoluiu muito em 10 anos.

O boliviano Alan Bojanic, 55 anos, é formado em engenharia agronômica na Bolívia, com mestrado em Londres e doutorado em economia agrícola na Universidade de Utrecht, Holanda, uma das universidades mais antigas dos Países Baixos, considerada a melhor universidade do país e a décima melhor universidade da Europa. Bojanic está há pouco mais de 8 anos na Agência para Agricultura e Alimentação da ONU (FAO); trabalhou no Chile nos últimos 3 anos, e antes por quase 6 anos na Costa Rica, e assumiu a representação da FAO no Brasil em março último, mas seu convívio com a língua portuguesa e o Brasil é de longa data, tornando seu sotaque quase imperceptível. Com essa facilidade de se expressar Bojanic foi entrevistado pelo editor Richard Jakubaszko, e explica a ótica de entendimento da FAO para o problema alimentar no mundo, além de enviar os recados que a FAO deseja que o Brasil ouça.
 
Agro DBO – Qual é a definição da FAO para segurança alimentar?

Alan Bojanic: É o de facilitar o acesso a qualquer momento e disponibilidade dos alimentos de qualidade, a custos razoáveis. É fundamental nisso a qualidade de alimentos, saudáveis, com altos valores proteicos e vitamínicos.

Agro DBO: O Brasil ocupava a 31ª posição no mundo em termos de segurança alimentar, e subiu para a 29ª posição em 2012, considerando 105 países. Qual é a visão da FAO sobre isso?

Alan Bojanic: O progresso que o Brasil tem feito nessa área é impressionante. É uma redução de mais da metade das pessoas que estavam em situação de vulnerabilidade alimentar, considerando os últimos 10 anos. Entendemos que eliminar o problema totalmente é muito difícil se lembrarmos do tamanho do Brasil, com uma população de 192 milhões de habitantes, onde existem dezenas de nações indígenas, enormes contingentes de ribeirinhos e núcleos de pessoas com alta pobreza na Amazônia, que moram mais afastadas, espalhadas pelos sertões de todo o país.

Agro DBO – Sobre estoques de segurança alimentar, em termos de tempo de disponibilidade, da II Grande Guerra para os dias de hoje, esses estoques, especialmente grãos e cereais, se reduzem ano a ano. Eram de 60 a 90 dias, mas hoje em dia são de 30 dias ou menos.

Alan Bojanic: Sobre esses estoques, os números mostram que efetivamente são relativos, tiveram redução em termos de tempo, mas temos de lembrar que os transportes se tornaram mais eficientes e mais rápidos, reduzindo a necessidades de estoques tão grandes, porém os estoques reais, cada vez mais, são maiores em toneladas, acompanhando o crescimento populacional.

Agro DBO – A China tem sido o único país no mundo a fazer um controle de natalidade (a política do filho único, agora abrandado para 2 filhos se os pais tiverem posses financeiras para sua manutenção), para reduzir a velocidade do crescimento demográfico. Comisto, a Índia deve ultrapassar a China em população total dentro de 5 anos. A FAO, entendemos assim, deveria ser o órgão regulador, com políticas voltadas para reduzir essa velocidade do crescimento demográfico. Por que isso não é feito? Sabemos que será muito difícil alimentar adequadamente 9 bilhões de bocas dentro de 35 anos, e já existem projeções de que faltarão terras agricultáveis para dentro em breve.

Alan Bojanic: A ONU tem mui¬tos programas de planejamento familiar. O Fundo de População das Nações Unidas, com a sigla UNFPA, tem realizado programas nesse sentido, e também a OMS, Organização Mundial para a Saú-de, mas temos de reconhecer que a UNFPA ainda não é uma agência com o porte da FAO, por exemplo, ela é menor. Entretanto, em alguns países, não apenas na China, mas na Rússia também, esses progra-mas têm sido implantados com algum sucesso, inclusive aqui na América Latina.

Agro DBO – A FAO acredita que vai haver alimento para todos no mundo, com uma população de 9 bilhões de pessoas?

Alan Bojanic: As tecnologias das ciências agrícolas mostram que estamos evoluindo. Devemos também entender que hoje temos mais produção de alimentos do que todas as pessoas precisam. O que falta resolver, através da inclusão social, são as condições financeiras dessas populações mais pobres terem acesso a esses alimentos disponíveis. Essa é a razão de existirem hoje quase 870 milhões de pessoas com situação de fome. O importante não é a quantidade, mas o acesso aos alimentos.

Agro DBO – Qual seria o caminho das ciências agrícolas para ajudar na solução do futuro problema, e de minimizar os atuais?

Alan Bojanic: Dar suporte e assistência técnica para a agricultura familiar, e com isso elevar as médias de produtividade do país, que ainda são baixas. O Brasil ainda tem um caminho muito longo a percorrer, o de levar assistência técnica aos pequenos produtores rurais, para aumentar a produção através da produtividade. O Brasil é um país de renda média, tem pesquisas avançadíssimas na agricultura tropical, e tem muita coisa para ensinar ao mundo, à África e aos países do Caribe, e também à FAO, mas até agora pouca coisa fez com a agricultura familiar. Só nos últimos anos isso tem acontecido de forma perceptível.

Agro DBO – Com quais instru-mentos a FAO pode contribuir com o Brasil?

Alan Bojanic: A FAO tem várias dimensões, uma delas é a facilitação da cooperação. Outra dimensão é que a FAO funciona como uma secretaria de tratados e acordos internacionais. Somos também um fórum para ajustar normativas internacionais, para facilitar o comércio entre os países, harmonizar políticas, por exem¬plo, há o Codex Alimentarius, e em todas essas áreas temos dado nossa contribuição, propiciando intercâmbios. Fazemos ainda pro-moções gerais, a cada ano.

Agro DBO – Que tipo de promoção?

Alan Bojanic: Por exemplo, este ano foi eleito pela ONU/FAO como o Ano da Quinoa. Divulgamos e incentivamos o plantio desse grão, que pode ser muito importante para o Brasil e o mundo na questão da estratégia de segurança alimentar, pois é um grão muito rico em minerais como cálcio, ferro, fósforo, magnésio, ômega 3, zinco, e outros, como a Licina, e é superior a diversos outros alimentos conhecidos como milho, trigo ou arroz. O grão traz benefícios para a saúde cardiovascular e para a dieta. No Brasil a Embrapa Cerrados tem trabalha¬do com pesquisas sobre a quinoa, e tem avançado nesse trabalho, já há, inclusive, uma variedade brasileira tropicalizada, a Peabiru. A quinoa não apresenta os inconvenientes do trigo, como a presença do glúten, que causa severas alergias, isso para os consumidores. Para os agricultores será uma boa opção de lavoura a ser cultivada, com mercado garantido e alto valor agregado, pois o Brasil é um grande importador desse grão. A quinoa é um grão para cultivo no inverno, precisa de pouca água, e tem excepcional resistência a pragas, e as máquinas para seu cultivo e colheita são as mesmas do milho, com pequenas adaptações. Essa variedade desenvolvida pela Embrapa é mais produtiva do que as variedades usadas hoje no Peru e Colômbia, de onde a planta se origina. Em meu país, a Bolívia, temos hoje mais de 100 mil hectares cultivados, e não conseguimos atender a todos os mercados, inclusive o Brasil, que, segundo dados oficiais, importa mais de 500 mil toneladas/ano, fora o que deve entrar pelas nossas fronteiras secas.

Fonte: Revista AgroDBO – Ed.: Julho/2013

 

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