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“Falta estratégia e sobra ideologia na política agrária”, diz senadora.

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Otimista com Dilma Rousseff, mas firme na oposição. Assim se descreve a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). “Dilma passou por dissabores por não conseguir unir a burocracia ambiental à realização das obras do PAC”, afirma Abreu, 48.

Em entrevista, ela diz que o PT perdeu em várias regiões onde o agronegócio é forte “porque tivemos a maior insegurança jurídica nesses oito anos” e reclama que falta estratégia para deixar o campo mais produtivo, mas “sobra ideologia”. E afirma que a CNA não é contraponto ao MST. “O contraponto ao MST é a Constituição.”

Dissabores de Dilma
A presidente eleita Dilma Rousseff teve dissabores imensos com relação à questão ambiental na execução das obras do PAC. Por essa experiência negativa de não conseguir compatibilizar a preservação com a execução das obras, ela poderá trazer à luz um debate com mais bom senso e racionalidade e buscar a ciência. Tanto eu como Dilma e todos os brasileiros se preocupam com o meio ambiente. Isso não é reserva de mercado nem patrimônio exclusivo da ex-ministra Marina Silva.

IBGE aparelhado
Podemos discutir porque os assentamentos são tão pouco produtivos. O menor não é o melhor. Você precisa ter renda alta, você não transfere renda só com patrimônio. Fizemos um estudo com a FGV que demonstra que 70% do valor bruto da produção no país está em 4,5% das propriedades rurais.
Só que o Censo Agropecuário de 2006 demorou quatro anos para ser divulgado e, como o IBGE foi aparelhado, querem fazer crer que é a pequena propriedade a mais produtiva. A grande massa das propriedades rurais, 1,5 milhão delas no país, não tem renda nenhuma.

Comida de rico
Uma propriedade grande vai vender uma caixa de laranjas a US$ 3 porque teve acesso aos melhores defensivos, adubos, técnicas; a propriedade menor, no mesmo espaço, só vai conseguir vender essa caixa a US$ 5.
O Brasil precisa importar 80% do gergelim que consome, produto de nicho, com margem alta de lucro. A pequena propriedade deveria se dedicar a esses nichos. Se você produz soja em 50 hectares, não tem lucro. Comida de pobre tem que ser produzida por quem tem muita terra; o pobre, se produzir comida de rico, lucra.

Freio à gastança
Espero que Dilma implemente uma política econômica de diminuição de gastos públicos. A saúde não tem qualidade. Os rankings internacionais mostram os resultados terríveis da educação do Brasil. O “Tropa de Elite 2” mostra a realidade da segurança. A gastança não melhorou os serviços.

Arrocho popular
Não tenho dificuldade em estar ao lado de Dilma numa votação que faça um arrocho fiscal saudável, assim como não terei dificuldade para votar contra a CPMF.

BNDES
Não é crédito para grandes conglomerados de carnes que deixará a economia mais competitiva [o banco injetou recursos em frigoríficos como Marfrig e JBS para financiar aquisições]. É investimento em pesquisa, tecnologia, que dá mais produtividade. Sempre há preferidos e excluídos na concessão do crédito. Quando comparamos investimentos em educação e pesquisa de China e Coreia com os do Brasil, vemos o quanto estamos atrás.

Oposição firme
O político tem o risco de ganhar e perder. Adoro ser política e a oposição precisa aguentar firme, fazer o seu papel. O [José] Serra [do PSDB] excluiu aliados, tentou tudo sozinho. E como você cria ilusões sozinho? O DEM precisa ter candidato próprio em 2014.

Voto rural
O Serra venceu em vários Estados e regiões onde o agronegócio é mais forte. Vivemos na maior insegurança jurídica da história do país nos últimos oito anos. A CNA não é contraponto ao MST [Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra]. O contraponto ao MST é a Constituição que nos guia. Não debato crime, que é a invasão.

Pragas e erosão
Não conheço ninguém que produza sem água. A erosão baixa a produtividade. Se não tiver o equilíbrio na biodiversidade, as pragas vêm arrasadoramente tanto na produção de grãos como nas doenças dos animais. Não dá para colocar o produtor contra o meio ambiente, porque vivemos dele em primeiro lugar e dói no bolso.

Chefe de torcida
Ministro de Estado não pode ser chefe de torcida, nem dos ruralistas, nem dos ambientalistas. Ele precisa pensar no país, no Estado e fazer com que as coisas possam ocorrer de forma republicana. Tivemos ótima relação com os ministros de Lula, [Roberto] Rodrigues [da Agricultura] e [Reinhold] Stephanes [ex-ministro da pasta].

Clareza de Marina
Não acredito que a votação de Marina tenha sido por uma questão ambiental. Ela teve maior clareza nas ideias. Não ficou discutindo esquerda e direita. A população brasileira é religiosa e conservadora. Pode mudar com a evolução da humanidade, da ciência. Mas Marina, apesar de dita de esquerda, se mostrou com princípios conservadores e isso agradou a população. Não tentou desmentir o que disse no passado nem evitou polêmicas.

Terra para estrangeiro
Não dá para barrar chinês que quiser comprar terras no Brasil. Tem contrato de gaveta, laranjas, a lei pode ser burlada. O que precisamos saber é o que farão aqui e se podemos competir com eles.
Geramos empregos na China porque aqui cobramos 40% de carga tributária. Se o brasileiro fizer um produto pior ou não conseguir competir, tudo bem, mas as condições têm de similares.

Rural vs. Urbano
Não pode persistir um direito à prioridade urbana, mas um não direito à propriedade rural. O direito à propriedade é um só, está na Constituição e tem de ser respeitado. Há concentração no setor de supermercados, de bancos, mas parece que só a grande propriedade rural é vilã.

Fonte: Folha de S. Paulo – 10.11.10
Raul Juste Lores e Catia Seabra

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