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Andef ouve especialistas e corrige reportagem sobre alimentação.

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Tendo em vista a reportagem especial de capa da edição de 24 de novembro de 2010, especialmente a sub-matéria “Os orgânicos em pratos limpos”, a Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF, lamenta o fato de não ter sido procurada, na condição de uma das entidades representativas do setor, para opinar a respeito de tema desta importância.
Portanto, em respeito ao rigor científico que exigem reportagens sobre alimentos e saúde, a ANDEF vem a público prestar os seguintes esclarecimentos:

1. Ao mencionar ser a boa iniciativa “a alimentação livre de agrotóxicos”, Veja faz uma insólita pregação: que a população brasileira e mundial deixem de consumir 900 milhões de toneladas de arroz, feijão, milho, soja e trigo, entre outros alimentos. Este é o volume aproximado de grãos salvos do ataque de pragas nas lavouras dos 17 principais países agrícolas na safra 2009/2010, graças ao uso da tecnologia química dos defensivos agrícolas, ou agrotóxicos. De acordo com a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, sem a aplicação de inseticidas, herbicidas, fungicidas e acaricidas na proteção das lavouras, os países colheriam menos cerca de 40% da produção.

2. Especificamente no Brasil, que nesta safra colheu 147 milhões de toneladas de grãos, significaria deixar ao banquete das pragas nas lavouras, ao invés de colocar nas mesas de milhões de brasileiros, perto de 60 milhões de toneladas de grãos. Isto é, considerando o consumo médio de grãos de 1 quilo, seria comida suficiente para alimentar, durante 60 anos, 1 milhão de famílias de quatro pessoas.

3. A reportagem cita, corretamente, o estudo publicado no “American Journal of Clinical Nutrition”, segundo o qual os alimentos orgânicos não têm benefícios nutricionais superiores aos dos alimentos convencionais. Mas poderia também enfatizar outro aspecto apontado pela professora Eloisa Dutra Caldas, do departamento de toxicologia da Universidade de Brasília, em declaração à Folha de S. Paulo: “A população não deve deixar de ingerir os alimentos tratados com agrotóxicos. O risco da exposição a esses produtos é menor do que o benefício potencial do consumo de frutas e legumes”, garante a especialista.

4. Embora o analista nutricional Fábio Gomes, do Instituto Nacional do Câncer, Inca, tenha afirmado na reportagem que “não há estudos científicos suficientes para provar uma relação direta entre casos de câncer e a ingestão de agrotóxicos”, a revista Veja logo a seguir coloca em dúvida a frase ao mencionar, sem explicar, “as lacunas da ciência”. Mais grave, adota um ecologismo perigosamente equivocado com a defesa da dieta orgânica pela simples “certeza de não fazer mal” [grifo nosso]. Ora, não há esta certeza, como adverte levantamento do próprio Ministério da Agricultura: as principais causas de contaminação nos alimentos são justamente os microorganismos biológicos como bactérias, vírus e fungos, encontrados na água e no solo – portanto, em qualquer produção agrícola inadequadamente manejada. (Produção Integrada no Brasil, 2008/09, MAPA)

5. Lamente-se que, pela forma como foi apresentada, a reportagem de Veja tende a causar receios injustificados junto à população no consumo de alimentos. “As quantidades residuais nos alimentos são ínfimas, tanto que analisadas em PPM, isto é, Partes Por Milhão”, explica Ângelo Zanaga Trapé, professor e coordenador da área de Saúde Ambiental da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. “Na maioria dos casos, os traços de resíduos que possam ser detectados, apesar de mostrarem o uso inadequado dos produtos fitossanitários, têm a garantia da Ciência de que são insuficientes para causar problemas do ponto de vista de saúde pública.”

6. O setor de defensivos agrícolas apresenta o grau de regulamentação mais rígido do mundo. Até a sua aprovação, os produtos são submetidos a numerosos requerimentos da legislação; sua regulamentação científica inclui comprovações de eficiência e segurança. “Acordos internacionais, tratados e convenções são firmados visando regular e apoiar o manejo responsável de agroquímicos”, destaca Bernhard Johnen, doutor em Agronomia, consultor da CropLife International e da FAO, Organização para Agricultura e Alimentação, vinculada à ONU. A indústria do setor de defensivos agrícolas no Brasil é signatária desses diversos regulamentos.
No país, antes do registro e de serem produzidos, os defensivos agrícolas passam por rigorosa avaliação agronômica, toxicológica e ambiental de três órgãos do governo federal, em média por até 3 anos: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ministério da Saúde, através da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa; e do Ministério do Meio Ambiente, sob responsabilidade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Ibama. Além do registro junto ao governo federal, os produtos ainda necessitam de cadastro nos Estados.

7. Não corresponde aos fatos a declaração do coordenador da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles, segundo o qual, “antes da criação do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, PARA, em 2001, não havia nenhum serviço de controle de resíduos”. Há pelo menos 30 anos instituições de elevadíssimo conceito científico, como Adolpho Lutz e Instituto Biológico, realizam esse tipo de análise. A Ceagesp, maior central de abastecimento da América Latina, procede tais análises há 22 anos.

8. Ao mencionar que produtos “antes considerados seguros” são retirados do mercado pela Anvisa, a reportagem deixa de esclarecer um aspecto fundamental. Os avanços nas pesquisas laboratoriais como, por exemplo, os modelos computadorizados, têm oferecido novas ferramentas de análise à comunidade científica e às áreas de Pesquisa e Desenvolvimento das empresas. O motor da inovação impulsiona a busca de novos ingredientes ativos, cada vez mais eficientes na aplicação, seguros no seu uso e de menor impacto ao ambiente.
“O lançamento de produtos com perfil eco-toxicológico mais seguro para o aplicador e o meio ambiente é um exemplo do esforço em pesquisa e desenvolvimento de produtos fitossanitários seguros e eficientes”, destaca Laércio Zambolim, PhD e professor da Universidade Federal de Viçosa, MG. De acordo com o especialista, “nos últimos 10 anos a indústria química fez grande progresso em relação aos avanços tecnológicos dos produtos, destacando-se o modo de ação, novos tipos de formulação, redução da quantidade de ingrediente ativo, redução do número de aplicações na safra e nas propriedades físico-químicas”. Além disto, houve grande evolução quanto a seletividade, impacto ambiental e toxicologia.

9. Se ainda persistem equívocos na produção, orgânica ou convencional, é preciso colocar em perspectiva o cerne do problema. Na década de 1990, no início do governo Collor de Mello, um relevante serviço público de educação do agricultor deixou de existir com o fechamento da Embrater, Empresa Brasileira de Extensão Rural. Portanto, é inaceitavelmente injusta a crítica apenas aos agricultores pelos casos de uso incorreto pois, de acordo com o Decreto 4.074/2002, cabe justamente aos três ministérios do governo federal – Saúde, Agricultura e Meio Ambiente – , desenvolver a instrução sobre o uso correto dos agrotóxicos.

10. Nos Estados Unidos, o treinamento de trabalhadores que manuseiam defensivos agrícolas é garantido pelo Pesticide Certified Applicator, programa que certifica, por ano, em torno de 1 milhão de aplicadores.
É importante destacar que, no Brasil, após a extinção da Embrater, um conjunto de esforços para a educação do agricultor foi cada vez mais assumido, de forma espontânea, pela iniciativa privada. Conforme dados apurados pela Fundação de Estudos Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, vinculada à USP, o número de trabalhadores treinados supera em quase 50% o de certificações nos Estados Unidos.
Em 2009, foram 5.690 atividades e 43 projetos no campo, promovidos pelas 15 empresas associadas da Andef, em parceria com cooperativas, revendas de produtos e centrais vinculadas ao sistema de destinação de embalagens, o Inpev – hoje, referência para os mais diversos setores da indústria e em todo o mundo na logística reversa de resíduos sólidos. Participaram de programas de qualificação para as boas práticas agrícolas e conscientização socioambiental 1.467.360 trabalhadores rurais e agricultores. Eis, colocada em prática, a visão plena de um futuro sustentável, pois corresponde aos anseios sociais, econômicos e ambientais.

Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF
24 de novembro de 2010

 

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