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Décio Zylbersztajn comenta sobre a relação entre a agricultura e a economia

A cada leitura que faço de notícias sobre tensões entre agricultura e indústria, lembro-me de Ray Goldberg. Foi o octogenário professor de Harvard que motivou o estudo da agricultura não como um setor isolado, mas conectado aos demais setores da economia. Parece óbvio, mas, na prática, está longe de sê-lo.

No trabalho de 1968 chamado Agribusiness Coordination, o professor Goldberg estudou os sistemas de produção de trigo, laranja e soja nos EUA. Identificou duas tendências: a necessidade de aprimorar os mecanismos de coordenação agroindustrial; e o crescente poder da indústria e da distribuição de alimentos. Do valor total gerado nos sistemas produtivos de base agrícola, uma parcela crescente caberia ao processamento e distribuição, prenunciando que as margens da fase agrícola seriam mais apertadas.

Goldberg inovou ao criar o termo agribusiness, para significar o atrelamento da fase agrícola aos demais setores. Para ele, a produção agrícola é parte integrante de um sistema que tem por objetivo levar os produtos à mesa do consumidor. O termo “agronegócio”, na sua origem, nada tinha que ver com a “grande produção”, tal como é interpretado no Brasil. Basta ver a série dos estudos de caso do programa de agribusiness de Harvard dos últimos 30 anos, que cobrem grandes e pequenas organizações.

O professor Goldberg não é um economista agrícola típico, cuja tradição foi o estudo da economia da produção agrícola. Diferentemente, ele nos convida a estudar as estratégias dos atores envolvidos nos sistemas agroindustriais. Em vez da mão invisível dos mercados, a abordagem de sistemas agroindustriais abriu caminho para o estudo das estratégias de coordenação caracterizadas por contratos e acordos entre produtores de insumos, agricultores, processadores e distribuidores de alimentos.

Os preços não são suficientes para a coordenação dos sistemas agroindustriais modernos. Mecanismos contratuais são adotados refletindo estratégias conjuntas de geração e compartilhamento de valor. Elaborar estratégias conjuntas não significa que os conflitos são eliminados, só que são explicitados e gerenciados. A ideia central é cooperar para gerar valor com base em regras de compartilhamento de resultados e riscos.

Desde que Goldberg escreveu seu texto, nos anos 60, as necessidades de coordenação aumentaram. Os consumidores passaram a exigir características especiais nos produtos; aumentou a regulação dos mercados de base agrícola; a biotecnologia causou reações inesperadas em grupos de consumidores; cresceu o movimento de alimentação orgânica, com todo um espectro de significados para o termo. A década de 2010 vem se caracterizando pela elevação e volatilidade dos preços dos produtos agrícolas, acompanhada por maiores custos de produção, redução dos estoques mundiais e choques de oferta, associados às mudanças climáticas.

Os mecanismos de coordenação refinados se tornaram mais necessários nos sistemas agroindustriais tanto dos produtores corporativos como de produtores empresariais familiares. Ambos têm a responsabilidade de alimentar uma população global de 7 bilhões de pessoas com renda crescente e, ao mesmo tempo, atender às exigências de sustentabilidade socioambiental. Os dois paradigmas são fortemente interligados e interdependentes. A produção em larga escala e baixos custos permite concentrar áreas de produção globais e atender ao aumento da demanda. A produção de base empresarial familiar, por sua vez, é necessária para ofertar alimentos e atender ao crescente mercado que valoriza a produção familiar. Os dois paradigmas utilizam tecnologias de ponta, estão premidos pela elevação dos custos de produção, são expostos ao choque climático e têm suas margens reduzidas.

Não há como não corroborar a visão de Goldberg. Ele acertou, nos anos 60, ao apontar para a necessidade de ferramentas especializadas de coordenação. As notícias recorrentes dos conflitos em sistemas agroindustriais, como os da laranja e da carne bovina no Brasil, nos fazem perceber que as lideranças desses setores perdem uma oportunidade preciosa. São setores que demonstraram competência tecnológica para produzir a custos competitivos e ampliaram a sua participação nos mercados globais. Ao mesmo tempo, ignoram as oportunidades existentes de geração de modelos de estratégias compartilhadas, redutoras de custos de transação.

Outros setores do agronegócio incorporaram uma visão inovadora que considera conceitos como direitos das terceiras partes; cogeração de conhecimento; adoção de padrões de transparência; e responsabilidade socioambiental além do discurso. Os gestores das organizações de base agrícola, ao mesmo tempo que enfrentam desafios de custos – dados os limites de recursos disponíveis, a elevação da demanda global e o aumento da volatilidade dos mercados agrícolas -, também têm desafios para gerenciar relações de produção transparentes e duradouras.

Os conselhos das corporações atuantes nos sistemas de base agrícola, os governos e as entidades de representação setorial podem observar uma regra simples: se a agenda setorial é tomada exclusivamente pelo debate de preços e custos, algo me diz que perdem grande oportunidade de preparar o futuro.

* Decio Zylbersztajn, é professor titular do centro de estudos de relações agroindustriais da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis da USP

Fonte: Estado de S. Paulo

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