Tecnologia e sucessão

Quanto à inovação tecnológica, há um cenário espetacular e desafiador.


*Roberto Rodrigues

As razões do sucesso do agronegócio brasileiro têm sido estudadas, e duas delas têm grande destaque: de um lado está a tecnologia tropical sustentável desenvolvida pelos nossos órgãos de pesquisa, universidades e empresas privadas; e de outro lado está a demanda crescente dos países em desenvolvimento, cujas populações e renda per capita aumentam mais do que nos desenvolvidos.

A primeira representou incremento de produtividade por área e consequente aumento da produção, o que teve uma importante consequência: o preço dos alimentos caiu cerca de 5% ao ano entre 1975 e 2002 (para o que contribuiu também o avanço dos sistemas de distribuição), viabilizando uma melhor alimentação ao povo em geral. E isso continua, embora em menor escala.

A segunda fica explicitada pela diferença de destinos de nossas exportações nos últimos anos. No ano 2000, o agronegócio exportou US$ 20,6 bilhões, dos quais 59% foram para a União Europeia e os Estados Unidos. No ano passado, o setor exportou US$ 84,9 bilhões (acima de 4 vezes mais), mas apenas 27% para UE e EUA, uma redução significativa em termos relativos.

Isso se explica pelo explosivo aumento das exportações para emergentes, como a China, cujo porcentual saltou de 2,7% do total das exportações em 2000 para 24,5% em 2016! Para o Oriente Médio, o pulo foi de 4,6% para 9,3%, para a Ásia (fora China), foi de 11,1% para 19,5%. Mesmo para a África houve aumento de 3,0% para 6,6%.

Além desses dois fatores determinantes para o crescimento do agronegócio, houve outros, como o crédito rural, cujo volume de recursos cresceu enquanto a taxa de juros diminuiu, além de algumas políticas públicas expressivas, como o Moderfrota, do final do século XX, que levou à renovação do então sucateado parque motomecanizado das fazendas brasileiras.

Mas há um dado interessante, revelado pelo estudo Produtividade do trabalho no Brasil: uma análise setorial, publicado em 2105 pelos pesquisadores Fernando Veloso, Silvia Matos e Bernardo Coelho, da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro. Eles mediram a taxa anual de crescimento da produtividade do trabalho de diferentes setores entre 1995 e 2015, com a conclusão de que esta taxa foi de 5,4% na agropecuária, bem acima dos demais.

Na indústria houve crescimento negativo da taxa, de -0,8%, e em serviços ela subiu 0,3%. No total do País, o crescimento foi de apenas 0,9%! Some-se a esta notícia uma outra também notável: com o doloroso cenário de 14 milhões de brasileiros desempregados, o agro foi o único setor que não demitiu.

E agora, o que esperar do futuro? Quanto aos mercados, nada indica uma redução importante de demanda, embora a oferta venha crescendo em função dela, de modo que é possível uma redução nos preços das commodities e da renda rural.

Mas, quanto à inovação tecnológica, há um cenário espetacular e desafiador.

Vem por aí a Agricultura 4.0, ou Agricultura Digital, uma referência à Industria 4.0, que se caracterizou pela automação dos processos produtivos. São avanços em tecnologias de informação e comunicação (TICs) também no campo, que farão repensar e redesenhar processos ao longo das cadeias produtivas.

A Agricultura 4.0 e a transformação digital a ela inerente trarão o uso de mecanismos de previsão de clima além de aplicativos e ferramentas de gestão e controles. A comunicação será integrada entre máquinas, virão sistemas avançados de monitoramento e rastreabilidade, com sensores sofisticados. Big Data, internet das coisas e inteligência artificial melhorarão a agricultura de precisão, a produtividade e, principalmente, a sustentabilidade, sem a qual não haverá mais competitividade.

E por que tudo isso é desafiador?

Porque precisaremos de gente altamente qualificada para incorporar esta extraordinária revolução. E gente jovem, mais conectada que os gerentes tradicionais, que conhecem menos da nova era digital. E isso tem a ver com um tema delicado da atualidade rural: sucessão! Mas também não dá mais para contemporizar nessa questão...  

*Roberto Rodrigues é ex-ministro da agricultura e coordenador do centro de agronegócio da FGV.