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Pesquisador da Embrapa comenta sobre as variações da agropecuária brasileira.

*Evaristo Eduardo de Miranda

A dificuldade dos produtores e da agropecuária brasileira em dar respostas adequadas às variações climáticas presentes e futuras deve-se a três conjuntos de incertezas.

1 – As limitações e as imprecisões dos modelos de mudanças climáticas. Quando se vai do global para o local, ou seja, conforme aumentam as escalas, crescem as divergências das previsões, principalmente com respeito às precipitações, entre os 21 modelos usados pelo IPCC (Figura 10.27 WG1 – AR4). As tendências de chuvas e temperaturas nos últimos 50 anos no Brasil, p. ex., apontam padrões complexos com 2 a 3 situações em um mesmo estado.

2 – O conhecimento científico em países tropicais sobre o funcionamento, a adaptabilidade e a vulnerabilidade real dos diversos sistemas de produção frente às variações climáticas é insuficiente. O uso de tecnologias condiciona a plasticidade, a resistência e a resiliência da agropecuária frente às flutuações climáticas.

3 – Os cenários sociais, culturais e econômicos nas agriculturas tropicais são um fator de incerteza. Mesmo quando alternativas tecnológicas existem para aumentar produção frente às variações climáticas, elas não chegam aos agricultores. Seu sucesso depende do empreendedorismo dos agricultores e de políticas públicas inovadoras.

Esse conjunto de incertezas precisa ser mensurado. Ele define o risco assumido pelos agricultores e pecuaristas da zona tropical quando tomam decisões de investimentos e mudanças tecnológicas frente às variações do clima e do tempo.

Variabilidade climática interanual versus variabilidade de longo prazo

– A agricultura é afetada por duas componentes climáticas: as variações sazonais e interanuais e as tendências evolutivas a médio e longo prazo dos parâmetros climáticos.

– A observação de séries de temperaturas e chuvas com mais de 50 e até 100 anos indica uma amplitude de variabilidade interanual maior do que a apontada para o futuro pelos modelos de mudanças climáticas globais. A agricultura e a vegetação tropical enfrentam, de um ano para outro, variações de temperaturas e chuvas enormes, mesmo em regiões tidas como mais estáveis, como a Amazônia. Em adição, podem ocorrer “veranicos”, bastante prejudiciais à agricultura de sequeiro.

– Estudos quantificados e probabilísticos, em diversas escalas de tempo e espaço, sobre a variabilidade climática de curto prazo versus longo prazo, realizados por cientistas tropicais não são tão prioritários em países temperados. É mais relevante prever trajetórias para a agricultura do que investir em tentar prever um determinado futuro.
 
Adaptação da agricultura tropical frente às incertezas climáticas

– Os sistemas biológicos e as agriculturas tropicais estão razoavelmente adaptados a variações climáticas. Contudo, esse grau de adaptação varia entre cultivos anuais, plurianuais ou perenes, por exemplo, e depende dos sistemas técnicos de produção e da capacidade de investimento e uso de tecnologias sustentáveis pelos produtores.

– Para tratar da adaptação da agricultura às variações e incertezas climáticas, o próprio contexto de suas componentes (perturbações e tendências) sugere uma abordagem do tipo sistema dinâmico. Essa abordagem combina as dinâmicas espontâneas ou inerentes aos sistemas agrícolas (plasticidade/resiliência/evolução) e às estratégias de ação e inovação tecnológica e produtiva (mitigação/remediação/adaptação) e de gestão territorial (realocação de atividades, integração na paisagem, logística etc.).

– Do empreendedorismo dos agricultores tropicais, das inovações de instituições de pesquisa agropecuária como a Embrapa e do dinamismo dos países emergentes, como China, Índia, Indonésia e Brasil, virão grandes soluções para fazer frente às incertezas climáticas. A pesquisa agropecuária e o setor agrícola trabalham em várias prioridades:

Climatologia e agrometereologia tropical

– Informatizar e facilitar o acesso a totalidade dos dados climáticos existentes
– Manter operacional e adensar redes de monitoramento climático
– Analisar de forma sistemática os padrões e tendências espaçotemporais das variações climáticas nos trópicos
– Definir quais os pré-requisitos relevantes para os modelos elegíveis de previsão climática em zona tropical
– Comparar os dados observados (tendências – incertezas) e as previsões dos modelos regionais (cenários – riscos) para melhor validar modelos climáticos
– Propor métricas estatísticas consistentes e pertinentes para quantificar a combinação de incertezas e riscos (p. ex. seguro agrícola)

Ciência e a pesquisa agropecuária tropical

– Responsabilidade da pesquisa de aproveitar as situações de crise e de ocorrência de extremos para instrumentalizar os processos de adaptação;
– Necessidade da pesquisa modelizar processos na escala regional, local e de paisagem, e não apenas em escala global
– Interesse para a pesquisa em executar ações operacionais em regiões piloto escolhidas por razões climáticas, produtivas ou socioeconômicas
– Avaliar e simular os impactos positivos e negativos para agropecuária (cenários) em escalas temporais e espaciais adequadas e por biomas
– Avaliar os custos e os benefícios para a agropecuária dos processos e ações (mitigação/remediação/adaptação) propostos e estudados
– Avaliar, por exemplo, o papel compensador do aumento da concentração de CO2 e penalizador das chuvas e temperaturas (p. ex. CO2 e café)
– Estratégias de extensificação e intensificação; diversificação e gestão territorial (distribuição espacial das atividades)

Resiliência e adaptação dos sistemas de produção vegetal e animal

– Avaliar os cultivos anuais (espaçamentos, variedades…), plurianuais (cobertura do solo, enraizamento…) e perenes (sombreamento, consórcios…)
– Avalias os cultivos florestais (variedades, serviços ambientais…)
– Os sistemas especializados e diversificados; intensificados ou não (gestão de insumos e da sanidade…); mais ou menos integrados (p. ex. IPFL); as especificidades da agricultura de subsistência e da agricultura de mercado
– Identificar os sistemas mais críticos (nível tecnológico, áreas irrigadas…)
– Criar indicadores de vulnerabilidade por sistemas, regiões e países
– Ampliar a gestão territorial da vulnerabilidade e da resiliência agropecuária

Inovações genéticas

– Conceber de forma global para os trópicos a gestão dos recursos genéticos
– Explorar a diversidade genética disponível nas espécies animais e vegetais
– Valorizar a seleção e as estratégias de conservação dinâmicas
– Cenários de mudanças de variedades e espécies (integração de biotecnologia)
– Reduzir a sensibilidade das plantas ao fotoperiodismo (mobilidade latitudinal)
– Agir sobre fenologia (fatores climáticos x genéticos), tolerância e resistência às variações de temperatura, precipitações, geadas, vento, granizo etc.
– Arquitetura do sistema radicular e suas funções frente às incertezas climáticas
– Ajuste dos ciclos aos riscos climáticos e sanitários (ex. cana) estudo das fases sensíveis no ciclo vegetativo (mecanismos fisiológicos e parâmetros genéticos)

Difusão das inovações frente às incertezas climáticas

– Papel dos sistemas de extensão e assistência técnica que sequer atendem hoje as demandas triviais da busca de uma melhor produtividade
– Inovações para reduzir os efeitos negativos e aumentar os efeitos positivos
– Oportunidades de melhoria na qualidade dos produtos (p. ex. vitivinicultura)
– Inovações nas práticas e nos insumos (psicultura, avicultura…)
– Elaboração e avaliação das estratégias de remediação ou adaptação

Gestão da evolução do risco sanitário e de agentes transmissores

– Monitorar patógenos, pragas e organismos vetores (polinizadores, propágulos, agentes transmissíveis) e os riscos de emergência ou de reemergência
– Dinâmica de espécies introduzidas ou invasoras, incluindo as utilizadas nas estratégias de adaptação ou remediação
– Prosseguir na pesquisa de novas variedades resistentes a pragas e doenças
– Desenvolver e agilizar a aprovação de novos defensivos e biopesticidas
– Efetivar a gestão faunística: bioadversidade x biodiversidade

Gestão de riscos

– Avaliar o perfil e modo de atuar dos sistemas de seguro agrícola e rural
– Face às incertezas climáticas, repensar e ampliar os sistemas atuais de seguro
– Desenvolver a cultura de gestão do risco entre os agricultores
– Analisar capacidades e liberdade dos agentes da produção agropecuária de escolher entre diferentes riscos, sistemas de produção e qualidade de vida
– Desenvolver infraestruturas hídricas e de armazenagem em regiões prioritárias
– Desenvolver programas de reposição e reparação em caso de eventos climáticos catastróficos
– Buscar novas estratégias de ações emergenciais na sanidade vegetal e animal

A adaptação coordenadora da agricultura tropical frente às incertezas climáticas está apenas começando, mas ações nesse campo vêm de longa data. A temática é emergente e faltam financiamentos específicos à pesquisa agropecuária tropical. Falta também uma coordenação de esforços e de programas suficiente e adequada.

As pesquisas e inovações tecnológicas existentes para a agricultura tropical já são de grande utilidade para enfrentar as incertezas climáticas presentes e futuras. Novos saltos tecnológicos estão a caminho. A ampliação da irrigação, da eletrificação, da mecanização rural, da capacidade de armazenagem nas fazendas, da logística e do seguro rural já seria um enorme avanço frente às incertezas climáticas.

Os “cenários climáticos” para a agricultura tropical não são os piores, mas apontam a necessidade de se adaptar simultaneamente a agricultura e a sociedade.  Soluções e alternativas tecnológicas existem e existirão para aumentar a sustentabilidade da produção frente às variações climáticas. Neste sentido, é importante manter o monitoramento climático como atividade contínua para estudos e aprimoramento dos modelos climáticos. O empreendedorismo dos agricultores, da pesquisa agropecuária e das políticas agrícolas e ambientais inovadoras em países emergentes são a melhor garantia contra as incertezas climáticas presentes e futuras.


*Evaristo Eduardo de Miranda é agrônomo, com mestrado e doutorado em ecologia pela Universidade de Montpellier (França). Possui centenas de trabalhos publicados no Brasil e também no exterior, é autor de 35 livros. Pesquisador da Embrapa, dirigiu três centros nacionais de pesquisa e é atualmente coordenador na Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais da Presidência da República.

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