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Presidente do Conselho diretor da Andef, Eduardo Leduc, comenta sobre o setor de defensivos. 

Desde janeiro último, Leduc é presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef, onde representa a Basf, da qual é vice-presidente sênior da Unidade de Proteção de Cultivos para o Brasil e a América Latina. Eduardo Leduc concedeu entrevista ao editor executivo da Agro DBO, Richard Jakubaszko, e respondeu sobre os desafios do setor de agroquímicos, como a questão em debate no Congresso Federal sobre a nova lei dos agrotóxicos, para avaliar o conceito de “avaliação de risco” na liberação das novas moléculas, e que o entrevistado lembra que “a dose faz o veneno”, conforme o aforismo de Justus von Liebig.

Agro DBO – Qual é hoje a grande dificuldade do segmento de agroquímicos que mais afeta os agricultores?

Leduc – A dificuldade de se trazer inovação, e de como acelerar o acesso a essas tecnologias, para que os produtores tenham mais ferramentas no ambiente de agricultura tropical em que atuamos.

Agro DBO – Isto se deve à demora burocrática aplicada pelos agentes governamentais em aprovar as solicitações de registro dessas inovações?

Leduc – A demora burocrática é um dos temas, que dificulta acelerar essa disponibilização de novas tecnologias. O problema é que o prazo para se desenvolver um novo produto é muito longo, e não apenas isso, mas as restrições toxicológicas, os estudos de impactos ambientais, muitas vezes direcionadas por ideologias, mundialmente falando, acabam atrasando os lançamentos dos produtos que passam por todos esses critérios. Poderíamos ter muito mais produtos disponíveis se no Brasil fizéssemos avaliação de risco das moléculas, como fazem outros países. Devemos entender que uma molécula pode ser perigosa na sua essência, porém pode oferecer muito pouco risco na forma como ela deve ser usada. Assim, os países que não fazem avaliação de risco, com o Brasil, acabam proibindo essas moléculas já nas suas etapas de desenvolvimento. Associado a isso se tem a morosidade de autoridades regulatórias, pois levamos hoje de 5 a 7 anos para ter a liberação de um novo produto. Com isso, o agricultor é obrigado a usar ferramentas antigas, mesmo para novos invasores das lavouras, afora o fato de que o uso contínuo dos mesmos produtos potencializa o aparecimento de resistências em ervas daninhas, insetos e doenças, reduz a eficiência dos produtos, e isso aumenta custos, tudo dentro de um ambiente tropical onde a dinâmica de pragas é muito acelerada.

Agro DBO – E como a Andef avalia o uso dessas ferramentas pelo agricultor hoje?

Leduc – Este é outro desafio, porque o agricultor hoje precisa mudar paradigmas, de um produto que controla para um manejo integrado daquela doença ou praga, naquele hectare, durante o ano, porque não é mais só aquela doença naquele cultivo. Nós temos que trabalhar o manejo considerando que temos de duas a três safras por ano na mesma área, e só o manejo integrado, com uso de diversas ferramentas, poderá dar solução a isso. Temos a obrigação e necessidade, todos nós, empresas, agricultores, agrônomos, entidades de pesquisa, de ter consciência de que precisamos claramente reaprender a trabalhar na agricultura tropical, o que implica em um manejo integrado e não mais o uso de apenas uma ferramenta. Isso exige, do agricultor e de todos nós, uma formação e uma competência multidisciplinar, desde o gerenciamento de solo, rotação de culturas, rotação de princípios ativos, olhando sempre o ciclo produtivo daquele hectare, e não mais tal alvo em tal lavoura ou talhão. É um novo tempo, deveremos combinar biotecnologia com os defensivos agrícolas convencionais e os biológicos. Existe aí uma oportunidade para os profissionais da área se especializarem nessas multidisciplinas para serem valorizados, pois o mercado vai exigir isso cada vez mais. Esse é um grande desafio.

Agro DBO – A natureza venceu, até agora?

Leduc – Não diria dessa forma, mas a natureza reage, porque ela é dinâmica, e a biologia manda na agricultura. A combinação disso tudo, solo, clima, cultura, umidade, é um ambiente dinâmico em que a natureza nos dá respostas, a evolução natural ocorre, quer queiramos ou não, inclusive resistências. Como consequência, hoje já lançamos novas tecnologias e produtos pensando na longevidade de seu uso, porque o custo para o desenvolvimento em pesquisas é muito alto e o prazo em que essa tecnologia permanece útil é cada vez menor. Precisamos lançar hoje cada tecnologia com um pacote de ações que prolonguem a vida útil dela, e, dentro dessas ações, todas passam 100% pelo manejo integrado.

Agro DBO – Isso valeria também para os OGMs?

Leduc – Em minha opinião, sim, de forma indiscutível.

Agro DBO – Há pesquisadores que protejam que os OGMs Bt (Bacillus thuringiensis) perderão eficiência dentro de um prazo de 6 a 8 anos. Como a Andef avalia isso?

Leduc – É difícil prever um prazo, porque depende de muitos fatores externos. Veja, já tivemos anos de ataques de algumas pragas muito superiores a outras. Isso também depende do clima, depende de um inverno mais rigoroso, que elimina pragas, e às ações de manejo integrado, seja uso do refúgio, seja do uso de combinação de tecnologias. Tudo isso é fundamental para que essas tecnologias, que são de alto valor para os agricultores, permaneçam em uso com eficiência por mais tempo. Um dos grandes desafios é que o agricultor muitas vezes deposita essa responsabilidade na indústria. Só que, na prática, quem pode dar essa longevidade para as tecnologias é o agricultor, nas lavouras dele. A indústria faz o seu papel, desenvolve os produtos, recomenda as formas de uso, proporciona assistência técnica, capacita, porém, na prática, o manejo integrado só pode ser feito na lavoura. Esse é um trabalho de todos, de preservar a eficiência, caso contrário o grande prejudicado será o agricultor, que não terá ferramentas alternativas à sua disposição. É evidente que sem essas tecnologias a produtividade de hoje não seria a mesma que já conquistamos.

Agro DBO – Existem em uso comercial, nos EUA e Europa, agroquímicos que já deveriam estar em uso no Brasil?

Leduc – Sim, existe uma defesagem, por vezes de 2 a 3 anos, e há produtos que as autoridades brasileiras nem aceitam avaliar. Isto porque, no Brasil, não se faz avaliação de risco das moléculas, prática que os EUA adotaram faz muito tempo, especialmente na parte de toxicologia humana. As avaliações de perigo são feitas por molécula, por princípio ativo, e independem da forma de como a molécula será utilizada na prática. Ou seja, os EUA adotam a avaliação de risco do uso, e não o perigo da molécula. Com isso os EUA conseguem avançar na regulação de várias moléculas. Veja o caso do cloro de uso doméstico, se for avaliado pelo perigo vemos que causa irritação ocular, problemas respiratórios, alergias, danos na pele, se for utilizado em alta dose. Pelo perigo é um produto que não seria aprovado. Pelo risco, com uso em dose certa, por exemplo, com a diluição correta, o cloro purifica a água, com enormes benefícios para a população. É o clássico “a dose faz o veneno”. Com a avaliação de risco os EUA conseguem ter inúmeros produtos que nós ainda não temos no Brasil. O Brasil perde com isso e podemos perder competitividade em nossas commodities por causa disso.

Agro DBO – Como vocês projetam o uso das tecnologias integradas para que o Brasil consiga obter o aumento da produtividade e possa corresponder ao da FAO/ONU de atender 40% das necessidades de uma população mundial?

Leduc – A tendência do aumento populacional vem se concretizando a cada ano e as estatísticas mostram claramente isso. Em 2015 tivemos um adicional de 80 milhões de pessoas, descontando os óbitos. Ora, é uma Alemanha por ano a se alimentar, e isso não inclui dados de muitos países com alta taxa de urbanização, de inclusão social, e ainda aumento da expectativa média de vida. Temos nessa questão uma oportunidade imensa de conquistar espaços. A dificuldade que vejo é que a alta capacidade de produção, no ambiente tropical, que nos permite fazer duas ou três safras/ano, deveria incluir a Integração Lavoura-Pecuária, e essa tecnologia precisa ser aprimorada no Brasil, porque não vamos conseguir importar essa tecnologia dos países temperados. Ou seja, como produzir em ambiente tropical, aproveitando o solo, que é um recurso escasso, melhorando esse solo, para produzir alimentos, grãos e carnes nesse mesmo hectare. Esse é o diferencial que o Brasil pode construir, produzindo com sustentabilidade. O desafio é como trabalhar as pesquisas para que essas tecnologias estejam disponíveis a todos os cultivos e ainda incluindo a pecuária.

Agro DBO – O desafio é tornar pecuaristas em agricultores, e os agricultores em pecuaristas?

Leduc – As duas coisas, ou especialmente em parcerias entre agricultores e pecuaristas, porque o agricultor tem experiência e mais facilidade no uso de novas tecnologias, enquanto que o pecuarista, na maioria dos casos, ainda se mantém na tradição de sistemas extensivos e reduzido uso de máquinas, até porque o sistema permite isso. Então, vislumbramos que os agricultores devem incorporar o hábito de estabelecer parcerias para um manejo integrado de lavoura e pecuária. Os técnicos dessas propriedades, das revendas e cooperativas, terão de buscar o conhecimento nas duas áreas. A prática das lavouras eles já conhecem, agora deverão conhecer produção de pastagens, de massa verde, de pragas dos pastos, digestibilidade dos bovinos etc. Portanto, o desafio é de como a gente vai organizar as entidades de pesquisas. Quanto mais demorarmos nesse avanço, mais vai atrasar o nosso próprio desenvolvimento para atender ao desafio da FAO/ONU.

Agro DBO – Como a Andef vê a nova Lei dos Agroquímicos em discussão no Congresso Federal?

Leduc – Entendemos que é positivo ter um marco regulatório, mais moderno e à luz das necessidades atuais. Há avanços nesse Projeto de Lei, que devem facilitar as pesquisas e a entrada de novos produtos. O grande tema de desconforto, não apenas ao setor de defensivos, mas em todo o sistema produtivo, inclusive os agricultores, é o de não ser implementada a avaliação de risco, conforme já comentei, e algumas novas moléculas podem até mesmo nem serem avaliadas por esse critério brasileiro. Nós defendemos que todos os produtos devem ser avaliados à luz da ciência pelo risco real que oferecem. Há formas claras de se fazer as avaliações e de se mitigar os perigos desses produtos. O benefício de vários produtos, como, por exemplo, o Glifosato, é muito grande na agricultura. Não possuirmos essa tecnologia é um prejuízo muito grande ao setor no sentido econômico, social e até mesmo no ambiental, porque o plantio direto sem o Glifosato seria inviável. Nas avaliações de risco deve-se contemplar o aspecto social, o ambiental e a toxicologia. A ciência tem como avaliar essas questões do risco. Caso contrário, o impacto econômico e geopolítico do marco regulatório poderá ser desastroso. Não fazermos uso da avaliação de risco pode trazer prejuízos imensos ao Brasil em suas pretensões como celeiro do mundo. 

Fonte: Revista Agro DBO – Ed. 80

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