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Em artigo, Eduardo Daher comenta sobre a demanda que será necessária até 2050.

*Eduardo Daher

Até 2050, a população mundial deve saltar de seis para nove bilhões. Na tarefa de garantir que três bilhões de pessoas tenham o que comer em 2050, está o investimento ainda maior em inovação tecnológica no campo. Para atender toda essa demanda, a Agência para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) estima que seja necessário aumentar a produção de alimentos agropecuários na ordem de 70%.

É claro que o Brasil não fará isso sozinho, mas ainda segundo prognósticos da FAO e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país terá, de longe, o mais rápido crescimento da produção agrícola, com expansão superior a 40%, tornando-se o principal player do agronegócio global nos próximos dez anos.

O ranking mundial de inovação de 2010, produzido pela escola mundial de negócios Insead em parceria com a Confederação da Indústria Indiana (CII), é um retrato nítido de como o país ainda é ofuscado diante de seu potencial. Na terceira edição da pesquisa, que classifica 132 países a partir de 60 indicadores, o Brasil despencou da 50ª para a 68ª posição. Apesar disso, o mesmo relatório aponta a agricultura nacional como uma de nossas principais forças inovadoras. A pesquisa e a adoção de tecnologias de base genética (sementes) e química (fertilizantes e defensivos) estão diretamente associadas à competitividade agrícola brasileira.

Para usufruir de todo potencial dessa força, a modernização de uma série de processos se faz necessária também no âmbito regulatório da agricultura. Isso porque a legislação tem se mostrado demasiadamente contraproducente não apenas para a indústria e o investimento vultoso que ela faz ano após ano em pesquisa e desenvolvimento, como também para a qualidade das plantações e a eficiência dos recursos do meio ambiente.

É notório o caso da água. Hoje, 40% de toda a água utilizada na agricultura é perdido, sendo que já existe tecnologia disponível para tratá-la e reutilizá-la na cadeia alimentar. Como resultado, haveria uma economia notável na pecuária. No entanto, a legislação assim não permite. Outro caso grave é a lentidão na aprovação da entrada de uma nova tecnologia no mercado: a espera pode chegar a cinco anos. É a sociedade quem mais perde com a assustadora lentidão nesse processo, refletida diretamente nos alimentos em menor quantidade e qualidade nos campos e também nos pratos dos cidadãos.

Para garantir a reversão desse quadro, impõem-se outras ações urgentes – de investimento e inovação. A pauta passa por mudanças fundamentais no setor que, na essência de sua missão, é responsável pela geração de alimentos – a agropecuária. As medidas necessárias são sobejamente conhecidas – não é de hoje. Elas foram reiteradas por 19 cadeias produtivas e apresentadas pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) aos presidenciáveis durante a última corrida eleitoral, em 2012, por meio de um documento dividido em seis pilares: garantia de renda para o agricultor; infraestrutura e logística; política de comércio exterior; pesquisa, desenvolvimento e inovação; defesa agropecuária e institucionalidade.

Entre os itens que compõem o relatório, sob o alicerce da sustentabilidade e com vistas à economia de baixo carbono, estão reformulação da política de concessão de créditos na agricultura, para dar fôlego ao agricultor, desoneração tributária, tanto em âmbito doméstico quanto na pauta de exportação, reestruturação da infraestrutura para reverter perdas logísticas e a abertura de novos mercados para produtos do agronegócio brasileiro. E, talvez uma das mais urgentes, a retirada de obstáculos às novas tecnologias que vêm impulsionando a competitividade no campo.

Preocupa, porém, o fato de o país ainda não reconhecer na Ciência o seu devido valor.  Ao longo da história, tratamos quase com descaso a atuação de nossos pesquisadores e seus feitos. E no campo não tem sido diferente. É prudente relembrar que, há apenas 50 anos, a falta de comida no Brasil era manchete de jornal. Em menos de três décadas esse perfil viveu uma verdadeira revolução, iniciada nos laboratórios e campos experimentais de institutos de pesquisa privados e da esfera pública.

Passamos pela chamada primeira Revolução Verde. Agora, precisamos também de uma Revolução no marco regulatório brasileiro para que a agricultura nacional use todo o seu potencial de crescimento e inovação para levar comida às mesas das famílias de todo o mundo.

*Eduardo Daher é economista pela Faculdade de Economia e Administração, FEA/USP, pós-graduado pela FGV-SP e diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef.

Fonte: Revista Agroanalysis | Ed.: Maio/2014

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