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Em entrevista, Maurício Lopes pontua vantagens de ILPF.

O Brasil caminha para uma agricultura sustentável, de baixo carbono e com ganhos econômico, ambiental e social. É o que garante o sistema de integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF), onde bois e árvores complementam a produção de grãos. A incorporação de tantas modalidades de produção em uma mesma fazenda exige uma inovação gerencial e mudanças no conceito de assistência técnica.

As afirmações são de Maurício Lopes, presidente da Embrapa, feitas na fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO). Nessa fazenda, se desenvolve um projeto de integração da Rede Fomento de ILPF, com a participação de várias empresas.

Sobre a crise política e econômica atual, Lopes diz que o país "tem uma agricultura baseada na ciência, o que dá resiliência a ela. Se a crise persistir por muito tempo, no entanto, vai afetar o setor".

Abaixo, os principiais pontos da entrevista de Lopes.

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Área
O programa ILPF é um avanço na agricultura brasileira. No próximo mês, será divulgada a primeira estimativa sobre a área realmente dedicada a essa tipo de atividade. Atualmente, a Embrapa estima em 750 mil hectares em Mato Grosso e de 1,5 milhão a 2 milhões de hectares no Brasil.

Descarbonização
Cientistas desenvolveram métricas, apontando que medidas terão de ser tomadas para comprovar os ganhos da agricultura brasileira em redução de emissão de gás e ganho de estoques de carbono. Vamos trabalhar em modelos para o Brasil todo, a partir das URTs (Unidades de Referência Tecnológicas).

Pressão
Como caiu a contribuição brasileira na emissão de gás pelo desmatamento, a agricultura ganhou muita evidência. Temos de reconhecer que muitas práticas da agricultura e insumos geram volumes substanciais de gases. Pela forma como a agricultura brasileira se expande rapidamente, tende a ficar em evidência.

Pecuária
O Brasil tem de olhar com carinho para a pecuária porque a atividade está na mira do mundo. É vista como uma atividade pouco sustentável, que pressiona os ambientes frágeis e força o desmatamento. Não adianta ignorar isso e tapar o sol com a peneira.

Sistemas integrados
Eles nos oferecem um caminho para conter ou contrapor essa pressão sobre a pecuária brasileira. Em um sistema como esse, pode-se produzir uma pecuária de carbono neutro. A Embrapa já está com a modelagem da pecuária neutra praticamente pronta, desenvolvida pela unidade de Campo Grande.

Carne
A Embrapa desenvolveu estudos que permitirão rastrear a produção de carne e certificá-la, olhando o sistema, e não mais a "pecuária solteira". A carne será certificada de forma integrada, inserida em um sistema em que se produz soja, milho e pasto. Isso aumenta a eficiência do sistema, antecipando até o abate dos animais. Com isso, haverá menor emissão de gás metano.

Resistências
A resistência de pecuaristas tradicionais é natural a esse novo sistema. Eles têm novos desafios de como fazer lavoura, utilizando máquinas e tecnologias que, até então, não estão familiarizados. Mas há um processo de conscientização do pecuarista. Além disso, a nova geração percebe que esse é o caminho.

Pequenos
A Embrapa está investindo forte também em modelos de sistema ILPF para pequenos e médios produtores. Essa integração é interessante porque eles podem aumentar as espécies plantadas, entre elas a fruticultura. Nos cinturões, já fazem isso naturalmente. A Embrapa está abraçando esse desafio.

Degradação
O Brasil é líder nesse processo de integração. Se, de um lado, a área total de pasto degradado é assustadora, de outro é animadora a possibilidade de expandir esse sistema de integração. Não tem como o Brasil não ser a grande potência mundial em produção de alimentos.

Paradigmas
Com esse sistema de integração, estamos mudando o conceito de sustentabilidade. O conceito tradicional é o de usar os recursos naturais de forma segura e garantir que ele fique bom para seus filhos. Mas trabalhamos o conceito de entregar um recurso muito melhor para nossos filhos, construindo fertilidade e estoque de carbono no solo.

Produtividade
O sistema ILPF produz mais e com maior eficiência. Estamos redesenhando nossa base de recursos naturais. O solo será muito melhor no futuro. Vamos mostrar à sociedade o poder de uma agricultura integrada, sustentável e de baixo carbono para ajudar o mundo a lidar com o desafio do clima.

Pragas
Os sistemas integrados, em oposição aos sistemas únicos, são mais resilientes. Os integrados mantêm uma vida biológica extremamente diversificada, o que facilita o abrigo para inimigos naturais de pragas. Com menos pragas, usa-se menos defensivo agrícola na produção.

Clima
Sendo mais resilientes, os sistemas integrados conseguem lidar com variações de clima e de temperatura de maneira mais segura. Há um fortalecimento do conceito de manejo integrado de pragas e de aumento de resiliência.

Custos
Depende do lugar onde o sistema está sendo implantado. Mas não dá só para olhar a perspectiva de custo; o importante é olhar também a perspectiva de rentabilidade. O custo de implantação pode ser elevado, mas, com a maturação, o lucro vem.

Lucro
Vai mudar o conceito de rentabilidade e de busca de lucro no futuro. A árvore, por exemplo, é uma poupança no longo prazo. Alguns produtos dão retorno rápido, mas uma poupança nas árvores, mais o carbono no solo, mais vida microbiana e a dinâmica de um sistema mais resiliente são garantias para o futuro.

Crise
Esta não é a primeira nem a última. A agricultura tem sido um diferencial na economia brasileira. Ela foi concebida em uma lógica diferente de muitos outros setores do Brasil. O país tem uma agricultura baseada em ciência, e isso lhe dá resiliência. Removido o problema, a agricultura volta a dar saltos. É obvio que, se perdurar por muito tempo, terá impacto, afetando câmbio, investimentos, exportações e custos de insumos.

Gestão
A nova agricultura é bem mais diversificada, e manejar tantas opções requer também inovações gerenciais. Está no radar da Embrapa pensar na transformação digital da agricultura, gestões e negócios mais complexos e eficientes. Mas é preciso políticas de estímulo e tecnologia para lidar com a complexidade da agricultura. A agricultura, agora, se faz em 365 dias.

Assistência técnica
É preciso mudar o conceito de assistência técnica no país. Estamos com um conceito muito velho. Eu faço, tu transferes e ele usa. É preciso olhar para a unidade produtiva e modelar um sistema de produção compatível e coerente com o nível do produtor, com a capacidade econômica dele e com a capacidade de oferta da base de recursos naturais que ele pode acessar. Não queremos ajudar o produtor a produzir hoje o que vai comer amanhã.

Transgênicos
O sistema ILPF tem espaço para a utilização de transgênicos. Na minha opinião, transgenia não é algo ruim. Mas é um conceito que daqui a pouco será superado com a nova tecnologia de genoma. A atual transgenia estará superada em razão do avanço rápido de outras tecnologias -adição de genoma e biologia sintética-, que vão aumentar ainda mais o poder de fazer isso de forma mais rápida, mais precisa e mais eficiente.

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