Você está aqui: Home / Imprensa / Notícias / Lavouras em perigo

Ao Valor Econômico, Andef comenta os prejuízos de novas pragas na agricultura.

Uma feliz combinação de solo e clima permitiu que o oeste da Bahia prosperasse de maneira sistemática a partir da década de 1990. Em suas vastas planícies se registraram índices de produtividade entre os mais elevados do país e do mundo. Recursos tecnológicos avançados, com a mecanização da lavoura, cultivo com sementes desenvolvidas para as condições do cerrado e o avanço dos sistemas de irrigação na produção de soja, milho e algodão, principalmente, elevaram as propriedades agrícolas locais à posição de destaque, algumas delas muitas vezes premiadas.

Mas, desde maio, os agricultores da região começaram a notar a presença de uma praga até então desconhecida da maioria. Uma lagarta, a Helicoverpa armigera, se pôs a devorar tudo o que encontra no caminho. Não escapam do seu apetite as maçãs dos algodoeiros, as vagens da soja, as espigas de milho ainda em formação e até a grama dos pastos.

O que torna a praga tão perigosa é a sua capacidade de se alimentar de qualquer tipo de lavoura. Esse inimigo, recém-descoberto no Brasil, segundo informam técnicos de instituições de extensão rural, já causou perdas estimadas em R$ 2,2 bilhões. Uma situação considerada estranha pelo secretário da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária da Bahia (Seagri), Eduardo Salles, que chegou a chamar o ataque de bioterrorismo, por suspeitar que a praga tenha sido instrumento de ação criminosa e, por isso, solicitou que seja investigada pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A devastação já não se limita ao oeste baiano. Há registros do ataque da lagarta em lavouras de Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Piauí, Maranhão, Tocantins, Paraná e Rio Grande do Sul. E pior: não há substância química com registro formal no país capaz de conter o seu avanço, o que leva a Embrapa a disparar alertas diários com recomendações sobre novas formas de manejo das lavouras.

Em uma tentativa de evitar o desastre iminente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) autorizou, em condições emergenciais, a importação da substância benzoato de amamectina, utilizada em países como a Austrália, que convive com a infestação já há alguns anos. Mas não foi possível a aplicação do produto, cuja importação havia sido solicitada pela Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação da Bahia a pedido dos agricultores locais. Uma ação civil pública do Ministério Público da Bahia cancelou a operação, sob o argumento de que o produto, de alta toxicidade, estava proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Salles compara o repentino aparecimento da Helicoverpa armigera ao da vassoura-de-bruxa, que dizimou lavouras inteiras de cacau no sul da Bahia e cuja infestação despertou suspeita de ação criminosa. No fim da década de 1980, chegou a ser atribuída a sabotagem de grupos de oposição, ou até de países africanos, principais concorrentes do Brasil na oferta da amêndoa. O fato é que o Brasil, até então o segundo maior produtor mundial de cacau, hoje só participa com 4% da oferta global. O efeito foi devastador na oferta de emprego e na renda da população.

O agronegócio ainda hoje é, como se vê, vulnerável ao ataque de pragas exóticas, pela falta de controle nas fronteiras. Mudas e sementes trazidas do exterior podem estar contaminadas e, sem que seu portador perceba, se disseminar pelas lavouras de todo o país, diz o professor José Mauricio Simões Bento, especialista no comportamento de insetos da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ (Esalq). Estudo preparado pelo pesquisador Marcelo Lopes, do Núcleo de Gestão da Estação Quarentenária de Germoplasma Vegetal da Embrapa, informa que além da Helicoverpa armigera a ferrugem asiática, detectada em 2003, causou pesados prejuízos à agricultura brasileira. Calcula que os produtores perderam receita de R$ 55 bilhões no período.

Às vésperas de dois grandes eventos internacionais -Copa do Mundo e Olimpíada -, que devem atrair milhares de turistas ao país, faltam políticas efetivas para conter a entrada de outras pragas exóticas no país, alerta a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que representa os fabricantes de defensivos agrícolas. ‘É preciso reforçar a segurança de área tão importante e estratégica do país’, afirma a entidade. ‘As pragas são mais rápidas que os demorados processos regulatórios vigentes no Brasil’, diz Eduardo Daher, diretor executivo da entidade. Ele se refere às morosas etapas a serem vencidas pelos produtores rurais e fabricantes de defensivos agrícolas até obterem a licença para a aplicação e comercialização desses produtos no Brasil. ‘A burocracia incomoda mais que a lagarta.’

O ataque da lagarta, segundo Daher, serve para expor a fragilidade do Brasil diante da iminente infestação das lavouras por algumas das dezenas de pragas existentes no mundo e que, para ele, já se encontram nas fronteiras, prontas para invadir as plantações em todo o país. O caso da lagarta, em sua opinião, é emblemático, pois ela é capaz de devorar até embalagens plásticas que tenham cheiro de produto agrícola. O diretor da Andef argumenta que a liberação de produtos para controle de pragas depende da autorização de órgãos do governo federal que não se entendem e, muitas vezes, se opõem.


Fonte: Valor Econômico

ANDEF. Avenida Roque Petroni Júnior, 850 . 19º andar . Torre Jaceru . Jardim das Acácias . CEP: 04707-000 . Tel.: 55 (11) 3087-5033 - (Mapa) Desenvolvido por UAU!LINE.