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Resposta à reportagem “O Brasil envenenado”, do jornal Le Monde Diplomatique.

Em todos os países, uma agricultura fortalecida é fundamental para o seu desenvolvimento e, portanto, para a qualidade de vida de sua população. Poucas nações possuem esta atividade tão competitiva como o Brasil, graças não a dádivas da natureza, mas ao avanço tecnológico alcançado.

Porém, entre certos setores nos meios urbanos, a falta de conhecimentos mínimos sobre a atividade agrícola ou, o que tem sido mais frequente, o preconceito ideológico colocam a agricultura tecnificada no rol dos inimigos da nação, quando, na verdade, historicamente, o campo vem se constituindo, há décadas, estratégico para a economia brasileira.

O agronegócio brasileiro responde por 23,7% do PIB nacional; movimenta 38,5% da exportações e emprega cerca de 40 milhões de pessoas. Motor da economia, tão competitivo a ponto de obrigar gigantes desenvolvidos, como Estados Unidos e países europeus, a recorrerem a expedientes protecionistas para enfrentá-lo na guerra pelo mercado internacional.

‘Em termos de contribuição para a agricultura brasileira, a adoção de tecnologias de base genética (sementes) e química (fertilizantes e defensivos) está associada ao crescimento da produção de grãos, que nos últimos 20 anos aumentou em mais de 100%, resultante do incremento tanto da área cultivada quanto da produtividade, elevada em mais de 60%’, afirmam os especialistas do Centro de Conhecimento em Agronegócios, PENSA, vinculado à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, autores do relatório ‘Organização dos mercados de insumos e suas relações com a agricultura’ (2009). Contudo, a agricultura brasileira tecnologicamente fortalecida enfrenta outra insana guerra – e esta está deflagrada dentro do próprio país.

Reportagens sensacionalistas – com quais interesses?

Os adversários desta agricultura avançada alardeavam o ‘perigo’ das plantações geneticamente modificadas. O que a Ciência afirmava desde o início, o tempo se encarregou de comprovar: as sementes transgênicas não apenas são aliadas dos agricultores, mas podem favorecer, principalmente, os consumidores. Pois bem: perdida a batalha, por assim dizer, dos transgênicos, esses mesmos adversários se armam agora contra os defensivos agrícolas. É o que demonstram reportagens raivosas e sensacionalistas; sem a menor base científica, mas se recusam a ouvir as partes interessadas – como manda a regra Número 1 do Jornalismo exemplar.

Por exemplo, a edição brasileira do jornal francês Le Monde Diplomatique, do mês de abril, traz o título de capa ‘O Brasil envenenado’. Reportagens como essa atingem os agricultores que utilizam insumos agrícolas sintéticos nas lavouras, as empresas fabricantes e afetam, seriamente, a imagem e a competitividade do próprio Brasil como um dos principais exportadores de alimentos para o mundo. Cabe, portanto, questionar: com qual interesse?

Os defensivos agrícolas são resultados da ciência desenvolvida no país, nos laboratórios de universidades, institutos de pesquisa públicos e privados e das empresas. A tecnologia se materializa em produtos aplicados no controle de doenças e pragas que, se não combatidas com eficiência, causam gravíssimos prejuízos às plantações.

Rigor científico

Como toda tecnologia corretamente utilizada, os defensivos são seguros aos trabalhadores, aos alimentos e aos consumidores. Os defensivos agrícolas são os produtos químicos mais severamente regulados no mercado; são registrados e produzidos após longa e rigorosa avaliação de três ministérios: da Agricultura; da Saúde, através da Anvisa; e do Meio Ambiente, através do Ibama. Os técnicos especializados desses ministérios se dedicam, durante anos, na avaliação de estudos agronômicos, toxicológicos e ambientais exigidos pela legislação brasileira, compatíveis com as regulamentações internacioinais.

A produção de defensivos consiste na manufatura de novos ingredientes ativos, trabalho que exige altíssimos investimentos por vários anos. Para que uma única nova molécula se torne o produto – herbicida, fungicida, inseticida ou acaricida – as indústrias associadas da ANDEF pesquisam e desenvolvem em laboratórios e estações experimentais, durante cerca de 10 anos, um volume entre 300 mil e 400 mil moléculas.

Esse longo e exaustivo trabalho científico consome vultosos aportes de capital, entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões. Somente os estudos toxicológicos e ambientais respondem por cerca de 60% deste valor. O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola, SINDAG, estima que, no período de 2008 a 2012, os novos investimentos no setor somarão US$ 313,6 milhões.

Alimento nas mesas

Estudos da FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, afirmam que esta tecnologia de controle de pragas evita a redução, em média, de 38% na produção dos alimentos. Da mesma forma, os autores do relatório do PENSA/USP concluem que o setor de defensivos tem importância estratégica para a agricultura brasileira e, portanto, a própria sustentabilidade econômica do país.

De fato, seriam dramáticas as consequências da escassez de hortaliças, frutas e cereais – como arroz, milho, trigo e feijão – apenas para citar alguns itens imprescindíveis na cesta básica da população. Com um breve exercício de cálculo, a partir da safra brasileira de cereais, se tem a noção, assustadora, da tragédia que o país enfrentaria se as plantações não fossem protegidas dos ataques das pragas.

A safra de grãos – composta de cereais e oleaginosas – somarão 145 milhões de toneladas. Portanto, sem aplicação de inseticidas, herbicidas, fungicidas e acaricidas na proteção das lavouras, o país colheria menos cerca de 40%, isto é, 58 milhões de toneladas – o que equivaleria um país do Primeiro Mundo, como o Canadá inteiro, por exemplo, se ver sem um só grão em suas mesas. Portanto, aqueles que têm críticas a esta tecnologia, que travem o debate, sim, mas do ponto de vista estrito da Ciência. Vejamos, então, com números mais detalhados, o que comprovam institutos de pesquisa a partir de análises do comportamento das pragas nas principais culturas do país:

– O Brasil é um dos países onde a Ferrugem Asiática causa mais impactos no sistema produtivo da soja. Segundo dados da Embrapa Soja, a doença pode diminuir em até 80% a produtividade de uma lavoura.
– Na cultura do milho, a lagarta do cartucho representa um potencial de dano de 37% de perda na planta atacada, e de até 60% de perda na produção de grãos de uma lavoura. Devido à sua grande ocorrência e alta taxa de infestação, variando de 25% a 100%, é considerada a principal praga alvo na cultura do milho no Brasil.
– Nos canaviais, a infestação de cupins nos toletes destinados aos novos plantios podem causar danos de até 10 toneladas por hectare no ano, o que representa cerca de 60 toneladas por hectare durante o ciclo completo da cultura.
– No algodão, a virose denominada Mosaico das Nervuras (VMN) para o algodão, pode reduzir a produção em até 60%, segundo o Centro Nacional de Pesquisa de Algodão.

O desenvolvimento almejado

Portanto, a forma como o jornal Le Monde Diplomatique discorreu sobre o uso desta tecnologia na agricultura está em sintonia com o que pensam líderes do MST que ameaçaram agricultores assentados gaúchos por cultivarem a soja geneticamente modificada (Folha de S. Paulo, 23/01/09). Ou seja, condenar o uso de insumos que geram renda e emprego no campo, mais do que ecologicamente ingênuos demonstram uma brutal irresponsabilidade.

‘A civilização pré-industrial dos sonhos ambientalistas resultaria, muito rapidamente, em fome global’, alertou, recentemente, na revista Veja, o cientista Peter Ward. Da mesma forma, na visão de Kofi Annan, ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas, o modelo de desenvolvimento que o mundo tanto almeja requer a contribuição fundamental da agricultura. ‘A agricultura moderna é um elemento-chave do desenvolvimento sustentável e essencial para o bem-estar da humanidade e do planeta’, conclui Kofi Annan.

Antonio Carlos Moreira
Gerente de comunicação da Andef – Associação Nacional de Defesa Vegetal
Foto: FAO/ONU

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