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Romeu Kiihl concede entrevista ao Jornal do Engenheiro Agrônomo.

Descendente de alemães, filho de alfaiate, nascido na cidade de Caconde, interior de São Paulo, provavelmente o jovem Romeu não imaginava que chegaria tão longe quando partiu para cursar engenharia agronômica na Esalq nos anos 1960. Em uma fase de muitas dúvidas, ele tinha uma certeza: queria ser pesquisador. Passadas algumas décadas, Romeu Afonso Kiihl, 70 anos, construiu uma carreira notável como geneticista e tornou-se referência, dentro e fora do Brasil, em melhoramento genético de soja para regiões tropicais.

Responsável pelo desenvolvimento de mais de 150 cultivares de soja, quando ele iniciou sua vida profissional no IAC, em 1965, a soja era uma cultura inexpressiva, plantada apenas no Rio Grande do Sul. Ao desenvolver cultivares com período juvenil longo – adaptadas a regiões de baixa latitude – o agrônomo contribuiu para a expansão da cultura na região central do Brasil e, consequentemente, para que o País chegasse a posição de segundo maior produtor mundial do grão. Egresso da turma de 1965 da Esalq, Romeu fazia os trabalhos da faculdade com um grupo que ele classifica como “fantástico”, composto por Roberto Rodrigues, Rodolfo Hoffmann e Sebastião

Antonio Garcia. Ele passou pelo IAC e pelo IAPAR, mas foi na Embrapa que ficou a maior parte de sua vida profissional. Hoje, é diretor científico e melhorista de germoplasma da Tropical Melhoramento & Genética (TMG), empresa parceira no desenvolvimento de cultivares de soja da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT).

Pai de duas filhas, uma delas agrônoma, ele diz que teve o privilégio de estar preparado para as grandes oportunidades que surgiram em sua vida. Escolhido pela diretoria da Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo para ser o engenheiro agrônomo de 2012, ao saber da indicação Romeu declarou:”Receber um prêmio dos seus pares tem um valor maravilhoso, ainda mais sendo do meu Estado de origem”.

Por que o senhor quis fazer engenharia agronômica e, mais tarde, como foi a decisão de se tornar pesquisador?

Eu fui fazer engenharia agronômica porque queria ser pesquisador. Na época, fiquei sabendo que o ITAL estava contratando e mandando esses estudantes para os EUA. O que hoje se chama engenharia de alimentos era um ramo da agronomia. Na Esalq, quando eu fiz a disciplina de genética descobri realmente o que eu gostava. Eu sempre passava férias na fazenda de um tio que era cafeicultor. Com ele aprendi que por mais complexa que seja a coisa existe sempre um modo de olhar que a simplifica. Quanto mais você conhece, melhor você estabelece os caminhos.

O senhor tinha agrônomos na família, como se preparou para entrar na Esalq?

Não, não tinha agrônomos na família, meu pai era alfaiate. Quando eu era jovem tinha um político na minha cidade, Caconde, chamado Pascoal Ranieri Mazili, e ele criou a Associação Cacondense Pró-Bolsa de Estudos, que dava uma bolsa para faculdade a quem terminasse o colegial em primeiro lugar. O pessoal da minha geração era estimulado a ser bom aluno. Para muitos de nós era “a chance” de fazer uma boa faculdade. Fiz agronomia na melhor escola da América do Sul e meu irmão fez matemática na Universidade de Chicago, por conta dessa bolsa. Vocês não têm ideia da capacidade de multiplicação que uma bolsa tem. Vários dos meus colegas que tiveram acesso a bolsa de estudos são profissionais destacados. A nossa presidenta tem um programa de bolsas [Programa Ciência Sem Fronteiras, que prevê o envio de 106 estudantes para intercâmbio internacional até 2015] que vai representar um sucesso muito grande para o nosso país.

Como e quando começa o seu envolvimento com a soja?

Em dezembro de 1965, fui trabalhar junto ao IAC e o Instituto de Pesquisa IRI, ligado a fundação Rockfeller, eles tinham um convênio para estudar leguminosas. E eu fui um dos bolsistas escolhidos para passar uma temporada no IRIS nos Estados Unidos. Lá, eu fiz pós-graduação com o Dr. Hartwig, considerado o melhor melhorista de soja da história. Eu fui o discípulo favorito dele, que me tinha como um filho. Ele tinha interesse em adaptar a soja para menores latitudes. Ele me disse: ‘você vai trabalhar em Campinas à 23 graus de latitude, e vai fazer uma tese aqui a 33 graus de latitude, estudando o florescimento e o crescimento em soja nas duas latitudes’. Ele me deu um treinamento em florescimento e fisiologia que foi fundamental para a minha vida. Quando voltei, em 1968, o dr. Shiro, chefe da seção de leguminosas do IAC, queria desenvolver soja para entressafra de arroz no Vale do Paraíba. Ele me levou para conhecer os trabalhos dele. Com os conhecimentos que eu já tinha ficou claro que conseguiria selecionar material para crescer bem em dias curtos. Eu recebi a visita de um eng. agrônomo que trabalhava na Paraíba e perguntei se ele plantaria uma coleção de genótipos lá e se faria algumas observações. Quando ele me devolveu os dados, ficou claro que eu conseguiria selecionar soja em qualquer lugar do Brasil por combinação de época de plantio. Quando eu fui para a Embrapa isso foi fundamental para desenvolvermos um programa para o Brasil inteiro. Grande parte das variedades que a Embrapa lançou para o Nordeste e Norte brasileiros selecionamos em Londrina, a 23 graus de `latitude`.

Como resume sua trajetória?

Tive sorte. Mas sorte é quando você está preparado para receber as coisas. Fiz o doutoramento também nos EUA e estudei a herança dessa característica que chamávamos de florescimento tardio da soja em dias curtos, hoje chamado de período juvenil longo, que permite adaptar a soja em qualquer latitude. O grande nome da soja no mundo foi meu orientador e eu aprendi tudo que ele sabia e vim com uma latitude 10 graus a menos que me possibilitava trabalhar de 33 até zero grau. Trabalhei em grandes instituições, mas a grande chance que tive na vida foi trabalhar na Embrapa porque interagia com pessoas de todas as partes do País. E tudo que eu pensava em fazer, tinha sempre um colaborador. Tudo que eu fiz, na verdade foi sempre o que “nós” fizemos. O aprendizado que tive no IAC, no IAPAR também foi maravilhoso. Aprendi a trabalhar em grandes equipes e me considero uma espécie de buraco negro, interajo muito bem com pessoas, sou um captador de informações, toda informação que um colaborador meu obtém eu assimilo, recombino e mando de volta.

Qual trabalho o senhor desenvolve atualmente na TMG?

Desenvolvo germoplasma com resistência a doenças e nematoides. Por exemplo, hoje temos uma doença muito séria, a ferrugem asiática, o custo do controle é de muitos milhões. E mesmo assim ainda existe danos. A solução é uma combinação, inicialmente, de fungicida com gens de resistência. À medida que vamos identificando novos gens de resistência e combinando-os, vamos tendo a possibilidade de eliminar o uso de fungicida. Temos na nossa empresa uma equipe que trabalha muito nessa parte.

O senhor enxerga muitos talentos nas novas gerações?

Eu sou muito entusiasmado com alguns jovens cientistas que vão dar grandes contribuições. Os jovens que trabalham conosco, na TMG, são excepcionalmente inteligentes e bem formados. Sou entusiasmado
com o futuro.

O que é fundamental para assegurar um futuro promissor para o melhoramento?

Mecanização e informática. Antigamente trabalhávamos com algumas milhares de plantas e linhagens, hoje são milhões. E a única forma de coletar e organizar os dados é através da mecanização e da
informática, com programas bem bolados.

É possível afirmar que o melhoramento é responsável por 50% do ganho de produtividade da soja nos últimos tempos?

É verdadeiro e preocupante porque estou vislumbrando grandes investimentos em melhoramento e pouco em manejo. O melhoramento está nas mãos da iniciativa privada, que está fazendo uma série de investimentos. Já a parte de práticas culturais fica mais com universidades e pesquisas oficiais, e apesar de muito importante é pouco valorizado pelo pesquisador. Tem pouca gente trabalhando nela.

Qual seria a solução?

Acho que é preciso valorizar quem faz essa pesquisa. Esse tipo de pesquisa leva 10 anos para ter resultados confiáveis enquanto tem gente que trabalha em laboratório e divulga três trabalhos por ano. A contribuição desse pessoal é muito importante, mas pouca gente quer ir para essa área, porque é difícil caminhar rapidamente na carreira.

Qual o principal inimigo da soja no campo atualmente e como estão os estudos para combatê-lo?

Nematoides e doenças. Entre os nematoides, nematoide de cisto, entre as doenças, a ferrugem asiática é a mais importante. Para ambos os casos, os programas brasileiros estão bem equacionados. A qualidade do pessoal de pesquisa no Brasil é muito boa.


Na comparação com os países desenvolvidos, qual nota o senhor daria para a pesquisa agrícola brasileira?

Se eu der 10 para os EUA, dou nota 8 ou 9 para nós. Somos tão bons quanto eles e talvez mais criativos. A dificuldade aqui é o acesso a equipamento e reagentes. Se você precisa de um primer nos EUA, consegue de um dia para o outro; eles são disciplinados e ágeis. Aqui vai parar na ANVISA, que vai ficar não sei quantos meses para decidir. Nós tendemos a burocratizar tudo. Mas conseguimos contornar essas dificuldades porque somos criativos. Essas coisas dificultam, mas não impedem nosso desenvolvimento.

O Brasil se tornará o primeiro produtor mundial de soja? Quando?

Se tivermos um ano muito bom, pode ser até esse ano. Não tenho dúvida nenhuma que seremos o primeiro. A soja é um sucesso tão grande e uma das principais razões é porque ela é uma leguminosa que tem capacidade de fixar nitrogênio, não precisa aplicar adubo nitrogenado, que representa uma economia incrível. Mas o futuro nosso vai passar por algo que chamamos de exploração agro-silvo-pastoril, num sistema de rotação e nesse sistema a soja se encaixa que é uma maravilha. Seremos imbatíveis quando amadurecermos esse sistema.

O senhor pode citar algum momento muito marcante em sua carreira?

Em 1983, quando ganhei o Prêmio Frederico de Menezes Veiga, da Embrapa. A instituição estava completando 10 anos de existência. Esse é o maior presente que a gente pode ganhar no Brasil na área de
pesquisa agrícola. E me deixou muito entusiasmado.

*Romeu Kiihl é formado em Engenharia Agronômica pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiróz” – ESALQ/USPO e conhecido como o “pai da soja” no Brasil. É celebrado por adaptar plantações de soja à região do cerrado, até então uma terra inóspita ao cultivo de grãos por apresentar solos ácidos e de baixa fertilidade. Hoje pesquisador da Tropical Melhoramento e Genética.

Fonte: Jornal do Engenheiro Agrônomo

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