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Jornal Correio Braziliense publica artigo do diretor da Andef, Eduardo Daher

 

Eduardo Daher*

Mais importante do que o balanço feito pelos presidenciáveis Dilma Rousseff e José Serra sobre os últimos governos, talvez seja olhar para o futuro. Impõe-se mirar as oportunidades que se abrem ao país e, ao mesmo tempo, como enfrentar melhor os desafios persistentes. Quando se coloca em perspectiva o cenário mundial dos próximos anos, tem-se um quadro que está longe de sugerir a menor acomodação. É o que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, alertou aos governantes de todo o mundo em 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação.

Seis bilhões e oitocentos milhões de pessoas disputam recursos naturais cada vez mais escassos. Dessas, de acordo com a FAO, cerca de 1 bilhão de pessoas sofrem a miséria absoluta. O Brasil não está livre do mapa da fome %u2014 que, em 2009, atingiu 6% de sua população, 12 milhões de pessoas. Apesar dessa tragédia, há alarmante tendência de a fome ser relegada a um plano secundário frente a outros temas recentes, como a questão ambiental.

A bem-vinda preocupação com a natureza e a onda verde elegeram expressivo número de candidatos que empunharam essa bandeira e tornaram Marina Silva a pedra angular do segundo turno. Contudo, há um grande equívoco em curso: é o recado das urnas de não ouvir o grito desesperado das multidões famintas. Ou seja, a agenda ambiental não pode exorbitar num preservacionismo que se coloca acima mesmo das necessidades do homem como ser preponderante da vida no planeta. Tal radicalização conduzirá a uma forma velada e cruel de acentuar a exclusão social.

Na verdade, conservar a natureza e o desenvolvimento socioeconômico são rumos inadiavelmente urgentes e complementarmente possíveis. O caminho-chave está na agricultura %u2014 em sua própria essência verde %u2014 que alia os manejos sustentáveis à imprescindível eficiência tecnológica.

Para tanto, de início, se recomenda abandonar de vez outra ideia equivocada: o desempenho vigoroso da agropecuária no país não se deve a benesses da natureza e sim à revolução tecnológica empreendida no campo. Desenvolvida pela mais avançada pesquisa tropical do mundo, os agricultores apostaram pesadamente nessa revolução silenciosa que transformou o velho mundo rural no mais bem-sucedido negócio do país.

Embora o mundo a reconheça como sinônimo de excelência, a agricultura brasileira jamais foi eleita estrategicamente pelos governos como única capaz de solucionar uma equação cada dia mais complexa e vital: as demandas das sociedades modernas por alimentos e energia crescem em ritmo diametralmente oposto à disponibilidade dos recursos naturais. Ou seja, sem dotar o campo de medidas estruturantes, que estimulem seu comprovado potencial como gerador de desenvolvimento, a sociedade pode esquecer todos os seus anseios por sustentabilidade.

Há desafios prementes em alguns setores. Por exemplo, recuperar e construir malhas intermodais e portos para escoamento da safra; estimular a pesquisa e a inovação tecnológica; e aperfeiçoar os marcos regulatórios de modo a conferir maior agilidade aos órgãos oficiais encarregados de analisar e aprovar as novas tecnologias demandadas pelos agricultores.

Ao lado de reformas estruturais, será importante estimular os arranjos estratégicos que envolvem entidades, comunidade científica, órgãos de governos e empresas %u2014 retomando a ideia positiva, mas um tanto esquecida, das parcerias público-privadas. Com semelhante preocupação surge, em nível internacional, uma elogiável iniciativa. Trata-se do programa Agricultura em Primeiro Lugar, liderado por pesquisadores, acadêmicos e profissionais dos segmentos produtivos. Seu elenco de propostas foi concebido sob a égide da sustentabilidade, mas entendida em suas três vertentes: assim como a ambiental, a econômica e a social.

Estudos alertam que a agricultura, principalmente as pequenas lavouras, serão as primeiras vítimas das alterações climáticas. Também apontam que, para poupar recursos naturais %u2014 terra, água e energia %u2014, a produção de alimentos deverá se apoiar no maior rendimento das culturas, por meio das inovações tecnológicas. Portanto, se do campo vêm alimentos, fibras e matérias-primas vegetais renováveis para o desenvolvimento futuro, a agricultura é o centro das soluções sustentáveis.

*Economista, pós-graduado em administração de empresas pela FGV-SP e diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef)

 


 

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