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Tema exige debate responsável e isento, com base na Ciência, afirma pesquisadora

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Lúcia de Souza*
      
Qualquer atividade exercida pelo ser humano gera impactos no meio ambiente, sejam eles com implicações sociais, econômicas ou ecológicas, de maior ou menor intensidade. Diversos fatores podem estar relacionados a esses impactos e diversas medidas podem ser tomadas para minimizá-los.
No caso da agricultura, prática que é realizada pelo homem há mais de 10 mil anos, há bons motivos para que sejam desenvolvidas e implantadas abordagens para reduzir o impacto ambiental, como substituir inseticidas antigos por alternativas mais eficientes e menos prejudiciais. Porém, noções pré-concebidas e posições inflexíveis dificultam a discussão mais ampla e séria a respeito das melhores soluções possíveis. 
Uma ideia ainda muito difundida é a de que tudo que é “natural”, ou seja, encontrado na natureza, é mais seguro ou mesmo inofensivo tanto para a nossa saúde como para o ambiente. A crença de que efeitos da agricultura orgânica são mais tênues para o ambiente do que produtos químicos sintéticos presume que é melhor utilizar as variedades minerais de pesticidas naturais, a exemplo de cobre, enxofre, potassa cáustica, piretrinas, piretróides, rotenona etc. 
Mas o que se sabe realmente sobre a segurança de produtos químicos naturais? Na verdade, há inúmeros exemplos de produtos químicos naturais que são tóxicos. Recentemente, um grupo de cientistas canadenses comparou o impacto ambiental de inseticidas sintéticos novos com o de naturais usados na agricultura orgânica para controle de pulgão em soja. Os inseticidas orgânicos testados, além de menor eficácia, tiveram um impacto semelhante ou até maior em várias espécies de inimigos naturais. Em laboratório, foram mais prejudiciais para os organismos de controle biológico em experimentos de campo e tiveram um Quociente de Impacto Ambiental maior. O estudo mostrou ainda que os pesticidas novos vêm melhorando e que nem sempre os orgânicos são ambientalmente mais ecológicos do que os convencionais. Portanto, o melhor é não  rejeitar tecnologias com menor impacto ambiental com base em suposições ou ideologias.
Outro exemplo similar é a importância da produtividade na agricultura. Muitas vezes esse aspecto é visto de forma negativa, como se a produtividade fosse importante exclusivamente por interesses econômicos. São desconsiderados a melhora na qualidade de vida da sociedade, a maior qualidade nutricional dos alimentos e os benefícios à saúde do planeta. Do ponto de vista humanitário, a intensificação agrícola melhora diretamente a saúde humana e salva vidas, na medida em que aumenta a oferta de alimentos disponíveis. 
Além disso, há também o legado ambiental da produtividade, que é menos óbvio. Há muito tempo se reconheceu que a maior produtividade da lavoura tem poupado o aumento da área agrícola para obter a mesma quantidade de alimento. Ou seja, evita a destruição de florestas ou ecossistemas que lesa a biodiversidade vegetal e animal. Mas ainda há dúvidas sobre a capacidade da agricultura moderna para equilibrar as necessidades humanas e ecológicas tanto no presente como no futuro. 
Considerando que a agricultura é reconhecida como fonte considerável de emissões de gases e que devemos aumentar os esforços para mitigar o efeito estufa, Burneya e colaboradores analisaram o efeito da intensificação agrícola entre 1961 e 2005. A descoberta é interessante: enquanto as emissões de gases provenientes da produção e aplicação de fertilizantes aumentaram, o efeito líquido total graças ao maior rendimento fez com que fossem evitadas até 161 gigatoneladas de emissões de carbono desde 1961.
Obviamente todos os sistemas agrícolas são importantes, cada qual com suas vantagens e desvantagens e, além destes, existe toda uma gama de aspectos a serem considerados para reconhecer as melhores opções. Entretanto, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), há um bilhão de pessoas famintas no mundo. A população segue crescendo e, sem dúvida, proteger o meio ambiente da melhor maneira é necessário. 
É imperativo que tratemos desse tema de maneira responsável e isenta, afastando da discussão as questões ideológicas que permeiam sempre as questões ambientais. Está mais do que na hora de tomarmos a ciência como base para indicar a combinação ideal de opções mais sustentáveis e inteligentes para a produção de alimentos, que melhor sirva para cada região e cultivo.
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Lúcia de Souza é bióloga, doutora em bioquímica e membro da Public Research and Regulation Initiative (PRRI).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bahlai, C. A., Y. Xue, . (2010). “Choosing Organic Pesticides over Synthetic Pesticides May Not Effectively Mitigate Environmental Risk in Soybeans.” PLoS ONE 5(6):
Burneya, J.A.; Davisc, S. J., and Lobella, D.B.,  2010. “Greenhouse gas mitigation by agricultural IntensificationProceedings of the National Academy of Sciences, 
www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.0914216107 http://www.pnas.org/content/early/2010/06/14/0914216107.full.pdf+html

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