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*Decio Luiz Gazzoni

Quem não prosseguisse na leitura deste artigo, em virtude de seu título, fá-lo-ia por convicção de que se trata de propaganda da indústria de agroquímicos. Entretanto, a pretensão é comentar uma revisão da literatura científica efetuada pelos cientistas Jerry Cooper e Hans Dobson (Natural Resources Institute, University of Greenwich, United Kingdom), publicada na revista CropProtection.

As duas primeiras frases do artigo acima referido são: “A maioria dos artigos publicados sobre pesticidas foca nos seus atributos e nas suas externalidades negativas. Este fato provavelmente explica a percepção inacurada da sociedade no tocante ao afetivo perigo que eles representam e o baixo nível de reconhecimento dos benefícios que trazem”. Elas traduzem a motivação dos autores, que se autoimpõem o objetivo de “explorar e analisar os muitos benefícios do uso de pesticidas, de maneira a que a sociedade possa fazer uma análise mais equilibrada.” Segundo os autores, no total de artigos por eles revisados, foi constatada uma proporção de 40 com visão negativa para cada artigo com visão positiva sobre o uso de pesticidas.

Liminarmente os autores analisam o risco percebido versus o risco real. Em um arrazoado comparativo, é mostrado que, nos EUA, 40 mil pessoas morrem atropeladas por carros a cada ano, apesar da rígida legislação americana. Contrapõem que a fome mata 15 milhões de crianças por ano, o que poderia ser evitado se pragas agrícolas fossem adequemente controladas nos países assolados pela fome. Referem um estudo que classificou os 30 perigos que mais conduzem à morte nos EUA. Os pesticidas ficaram em 28º lugar, sendo menos perigosos que conservantes de alimentos (27º), eletrodomésticos (15º), natação (7º), fumo (2º) e bebidas alcoólicas (1º).

Benefícios primários

Os autores listam 26 beneficios primários, diretos, como controle de pragas, e 31 benefícios secundários, que não são tão perceptíveis. Os benefícios primários são divididos em três categorias. A primeira delas trata do controle de pragas e vetores de doenças. Os principais benefícios elencados são: 1) aumento da produtividade e da qualidade dos produtos agrícolas; 2) redução da presença de micotoxinas nos alimentos; 3) aumento do “tempo de prateleira” dos alimentos; 4) redução da penosidade no controle de pragas, especialmente de plantas invasoras; 5) redução do uso de combustíveis fósseis no controle de plantas invasoras; 6) viabilização do plantio direto e menor necessidade de movimentação do solo; 7) redução da taxa de dispersão e de estabelecimento de pragas exóticas.

A segunda categoria trata do controle de pragas e seus vetores, que afetam animais e a espécie humana. Nesse grupo são listados benefícios como: 1) redução de mortalidade humana; 2) redução do sofrimento de cidadãos por menor incidência de enfermidades; 3) redução dos incômodos impostos à sociedade por enfermidades; 4) aumento da produtividade do trabalho, por menor incidência de doenças que afastem pessoas do trabalho ou as inabilitem para tanto; 5) redução da mortalidade de rebanhos de animais de criação; 6) redução do sofrimento dos animais por menor incidência de enfermidades; 7) aumento da produtividade e da qualidade dos alimentos e produtos derivados de animais e; 8) contenção geográfica das enfermidades animais.

Como terceira categoria são listados os benefícios pelo controle de pragas que afetam atividades humanas e estruturas físicas. Entre outros, são listados: 1) maior visibilidade nas estradas vicinais por controle de plantas nos acostamentos; 2) controle de pragas em vegetação nativa; 3) controle de pragas em parques e jardins; 4) proteção de estruturas de madeira.

Benefícios indiretos

O primeiro grupo é o de benefícios às comunidades, sendo elencados como principais: 1) o ingresso de recursos financeiros pela melhoria da atividade agrícola, favorecendo outros segmentos econômicos de uma comunidade; 2) melhoria do acesso à alimentação e maior segurança alimentar, pela maior oferta e menor custo; 3) segurança dos alimentos, pela multiplicidade e severidade das regras e controles legais; 4) maior diversidade de cultivos, viabilizados pela disponibilidade de controle de pragas; 5) liberação de mão de obra pra outras atividades; 6) aumento da expectativa de vida; 7) redução de custos com medicamentos veterinários e humanos.

A segunda categoria trata dos benefícios de uma nação, com autores destacando: 1) maior peso da economia agrícola; 2) aumento das exportações; 3) aumento da produtividade da mão de obra; 4) redução da erosão e aumento da capacidade de armazenagem de água no solo; 5) redução da migração das áreas rurais para urbanas; 6) áreas de parques e jardins mais agradáveis.

Finalmente, a terceira categoria trata dos benefícios globais, com destaque para: 1) segurança alimentar; 2) menor pressão de expansão da fronteira agrícola; 3) menor emissão de gases de efeito estufa; 4) menor pressão de introdução de pragas em novas áreas; 5) maior conservação da biodiversidade; 6) menor intensidade de epidemias em humanos, quando transmitidas por vetores.

O espaço aqui disponível permite tão somente elencar as causas, sem poder analisa-las, fundamentá-las e discuti-las. Assim, o objetivo deste artigo é informar que existe uma análise aprofundada do tema, incentivando-se os interessados a ler o artigo original de Cooper e Dobson, para entendimento das justificativas de cada beneficio em particular, disponível em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026121940700097X

*Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.

Artigo publicado na Revista Cultivar, edição n° 238, março. 

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