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Estudo contesta as evidências da melhor composição nutricional dos orgânicos

Qualidade Nutricional dos Alimentos Orgânicos: Uma Revisão Sistemática
Nutritional Quality of Organic Foods: A Systematic Review

Autoria: Alan D. Dangour; Sakhi K. Dodhia, Arabella Hayter, Elizabeth Allen, Karen Lock and Ricardo Uauy
American Journal of Clinical Nutrition (AJCN).

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Introdução
  A demanda por alimentos orgânicos está aumentando. Em 2007 no Reino Unido o mercado de orgânicos foi estimado em £ 2 bilhões, com aumento de 22% desde 2005. Alimentos orgânicos são produzidos seguindo padrões específicos, dentre eles fatores estão o controle da utilização de defensivos agrícolas e de produtos veterinários enfatizando a diminuição dos impactos ambientais.
   Estudos anteriores, não-sistemáticos, concluíram que os alimentos orgânicos têm uma composição nutricional superior aos alimentos produzidos de forma convencional, contudo, esse fato não é consistente. Todos os produtos naturais podem variar sua composição nutricional. Diferentes cultivares, da mesma cultura, podem apresentar composições nutricionais diferentes. A composição nutricional também depende da utilização de fertilizantes, regime de utilização de defensivos agrícolas, condições de crescimento, estação do ano e outros fatores. A composição nutricional também pode ser afetada pela idade, raça de um animal, regime de alimentação e estação do ano.
      Essa variável também pode ser afetada pela estocagem, transporte e preparação do alimento. O entendimento correto dos fatores que afetam a qualidade nutricional dos alimentos é importante para a interpretação das pesquisas que relatam as diferenças nutricionais entre alimentos no regime orgânico e convencional. Contudo, a incerteza na avaliação das evidências da composição nutricional dos alimentos em diferentes regimes de produção, faz com que os consumidores paguem preços mais elevados, baseados na aparente qualidade e benefícios nutricionais dos alimentos orgânicos.
      Devido à força das informações existentes sobre a qualidade nutricional dos alimentos orgânicos será possível desenvolver indicações baseadas em evidências, índices, a nutrição potencial relacionada a saúde pública, seus riscos e benefícios associados ao consumo de alimentos orgânicos, permitindo aos consumidores que façam escolhas informadas.
      Serão apresentados os resultados de uma revisão sistemática de estudos que realizaram análises químicas de alimentos produzidos de forma orgânica e convencional.  O resultado é restrito aos nutrientes e qualidade nutricional, não serão apresentados índices de contaminação dos alimentos e os impactos ambientais causados pelos regimes de produção

Métodos
    
 A qualidade e heterogeneidade dos dados que foram avaliados retratam que não devemos empreender uma meta-análise formal dos resultados numéricos. Aderiu-se, o máximo possível, a diretriz de uma revisão sistemática de estudos observacionais. 

Estratégia de Pesquisa

    Desenvolveu-se uma estratégia de pesquisa no PubMed (http://ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/) utilizando títulos de assuntos médicos e termos nos títulos de resumos.
    Os termos pesquisados foram: “orgânico”, “alimento saudável” e “convencional” associados com “alimento”, “culturas”, “rebanhos” e “agricultura”. Todos esses termos foram combinados com termos relacionados a nutrientes, nutrição, substâncias relevantes de um recente relatório global sobre dieta, nutrição e prevenção ao câncer.
    As pesquisas foram realizadas em um intervalo de 50 anos, de 01/01/1958 a 29/02/2008

Critério de Seleção e Extração de Dados
 
 Estudos com resumo em inglês, publicados em periódicos acadêmicos em qualquer língua, foram incluídos quando relatavam uma comparação direta da composição de nutrientes ou nutrição de substâncias em alimentos orgânicos e convencionais.
  Estudos que relatavam comparações entre orgânicos e qualquer outro tipo de produção integrada ou biodinâmica foram excluídos, pois essas práticas são especificamente não-convencionais. Foram excluídos também estudos que tinham como objetivo primário analisar diferentes regimes de fertilização, de contaminação (ex: mercúrio), estudos que visam identificar métodos de produção de alimentos e estudos que não tem publicação (ex: resumos de conferências);
 Toda a pesquisa foi conduzida por dois assistentes e todo desacordo foi resolvido com o líder do projeto. Todas as informações foram separadas em culturas e rebanhos. Informações em outros idiomas foram extraídas com o auxílio de falantes nativos e foram discutidas com o grupo. Todas as inconsistências e diferenças foram discutidas até chegar a um consenso.

Projeto de Estudo
 
 Estudos sobre a quantidade de nutrientes em alimentos orgânicos e convencionais foram baseados em 3 diferentes projetos de estudo: experimentações a campo, análise de exploração agrícola e estudos de comparação realizados com alimentos orgânicos e convencionais do varejo.

Qualidade dos Estudos
 
  A qualidade dos estudos dessa área é muito variável. Cada estudo foi classificado, de acordo com a qualidade, em 5 critérios:
– 1º Definição clara sobre os métodos de produção orgânica, incluindo o órgão certificador;
– 2º Especificação da cultivar da cultura e raça do rebanho;
– 3º Indicação de qual nutriente ou substância nutricional foi analisada;
– 4º Descrição do método laboratorial analítico utilizado;
 – 5º Indicação dos métodos estatísticos utilizados.
 

Síntese Quantitativa dos Dados
 
 Para avaliar a totalidade das evidências, todos os projetos de estudos de alimentos foram incluídos na análise. Os artigos relataram análises químicas de 100 diferentes tipos de alimentos e apresentaram dados de 455 nutrientes e substâncias nutricionais relevantes que foram agrupados em 98 categorias para facilitar a análise.
  Há um número insuficiente de estudos comparativos sobre cada alimento para conduzir uma análise direta. As análises foram feitas por categoria de nutrientes através dos projetos de estudos.
  Devido ao grande número de possíveis nutrientes que poderiam ser analisados, uma decisão pragmática foi tomada para conduzir uma comparação estatística sobre as categorias de nutrientes relatadas, ? 10 estudos em culturas e ? 4 estudos em rebanhos.
  Um pequeno número de estudos relatou alguma (n=5) ou todas (n=1) as informações relevantes em gráficos. Apenas a parte numérica foi utilizada para a análise. Todos os outros estudos apresentaram níveis de nutrientes como valores médios. Quando o resultado consistia de mais de uma média, a média da média era calculada.
  A maioria dos estudos não continham informações de tamanho de amostra ou variabilidade acerca da estimativa central. A análise apresentada é, conseqüentemente, uma escolha pragmática que permite que os dados disponíveis possam ser utilizados em suas versões mais completas.
  Nós calculamos a diferença da porcentagem no índice de nutriente médio relatado, como segue:

  [(Relato de nutrientes em alimentos orgânicos – Relato de nutrientes em alimentos de producão convencional) / Relato de nutrientes em alimentos de produção convencional] x 100
 
  Diferenças positivas sugerem que podem existir mais nutrientes na produção orgânica, enquanto negativas sugerem que podem existir mais nutrientes na produção convencional de alimentos.
  Devido às diferenças intrínsecas nos projetos de estudos, incluindo as análises, as diferenças de porcentagem não são traduzíveis em diferenças de nutrientes específicos.

Revisão Externa
 
 Um grupo de peritos ficou responsável por vigiar e aconselhar as condutas deste estudo. Os peritos foram:
 – Julie Lovegrove – Especialista no assunto e;
– Martin Wiseman – Especialista em nutrição e saúde pública.

Resultados

Visão Geral sobre os Estudos:
– Dos 52.471 artigos incluídos na pesquisa, 292 foram identificados com títulos de potencial relevante. Dos 292, foram feitas cópias integrais de 281 que após análise minuciosa, descartou-se 145.
Qualidade dos Estudos:
– Mais da metade dos estudos identificados falharam na hora de especificar o órgão de certificação orgânica;
– 20% dos estudos falharam ao identificar a cultivar da cultura ou a raça do rebanho;
– 1% dos estudos falhou ao identificar as técnicas laboratoriais;
– 14% dos estudos falharam ao identificar os métodos estatísticos utilizados.
– 33% dos estudos apresentaram níveis satisfatórios de qualidade;
Comparação do Índice de Nutrientes e Outras Substâncias:
– Foram extraídas 1149 comparações de índices de nutrientes de 46 estudos satisfatórios de qualidade de cultura, e dados em 11 categorias de nutrientes que foram relatados em ? 10 estudos.
– As análises de qualidade de cultura satisfatória não encontraram diferenças em 8 das 11 categorias de nutrientes (vitamina C, compostos fenólicos, magnésio, potássio, cálcio, zinco, cobre e sólidos solúveis totais).
 As quantidades de nitrogênio foram significantemente maiores na produção convencional de culturas e as quantidades de fósforo e ácido tituláveis foram significantemente maiores na produção orgânica de culturas.
 Foram extraídas 125 comparações de 9 estudos satisfatórios de rebanhos e dados de apenas 2 categorias de nutrientes foram relatados em ? 4 estudos;
 A análise do banco de dados limitado não encontrou evidências sobre a diferença entre os métodos de produção.

Discussão

 Este artigo apresenta os resultados da primeira publicação sobre revisão sistemática que investiga as diferenças de concentração de nutrientes nos regimes de produção orgânica e convencional.
 A análise apresentada sugestiona que tanto a produção orgânica quanto a convencional apresentam concentrações praticamente equivalentes de nutrientes. Das 13 categorias de nutrientes analisadas, 10 não apresentaram diferenças significativas no que diz respeito ao método de produção
 As diferenças detectadas nas culturas foram biologicamente plausíveis e provavelmente ocorreram devido a diferença na utilização de fertilizantes (N e P) e pela maturação no período de colheita.
 É improvável que o consumo de alimentos orgânicos com os teores de nutrientes mencionados neste estudo forneçam benefícios, a mais, a saúde. É importante ressaltar que os alimentos orgânicos não são inferiores aos
convencionais no que diz respeito aos teores de nutrientes.
 Em desacordo com os relatos anteriores, não sistemáticos, conduziu-se uma rigorosa pesquisa na literatura, identificando um grande número de estudos publicados nos últimos 50 anos. A abordagem sistemática, focada em estudos de qualidade satisfatória, está de acordo com alguns estudos no que diz respeito as altas concentrações de fósforo. No que diz respeito as altas concentrações de vitamina C e magnésio nos alimentos orgânicos, este estudo não está de acordo com todos pesquisados anteriormente.

Resultados de análises em > 450 nutrientes e substâncias relevantes foram identificados neste estudo e, enquanto muitos artigos focaram os objetivos de pesquisa outros analisaram dados pouco relacionáveis.
 Devido ao grande número de nutrientes, estes foram agrupados em categorias distintas para análise. Esta revisão elucida a heterogeneidade e a baixa qualidade das pesquisas nesta área, portanto, qualificaram-se poucos estudos como satisfatórios.  

  Uma análise adicional, incluindo 162 estudos, independentemente da qualidade, concluiu que não há evidência de diferenças significativas na quantidade de nutrientes contidos em alimentos orgânicos e convencionais.
 Este artigo também tem suas limitações, foram excluídas a “literatura cinza” e artigos que não possuíam resumo em inglês, resultando na possível perda de informações relevantes.
 Em todos os produtos naturais existe variação na composição de nutrientes e outras substâncias relevantes, principalmente devido ao método de produção. Os métodos de produção, principalmente aqueles que regulam a utilização de fertilizantes químicos, defensivos agrícolas, podem alterar a composição química dos alimentos. Regimes orgânicos certificados, que controlam o uso de produtos químicos e produtos veterinários, podem ter benefícios potenciais a saúde e ao meio ambiente, porém é uma análise que não está no escopo deste trabalho.
 A análise sugere que existe uma pequena
diferença entre a quantidade de nutrientes contidos nos alimentos orgânicos e convencionais e que embora essas diferenças sejam biologicamente plausíveis, não são relevantes para a saúde pública.
 Conclui-se que não há evidência que suporte a seleção de alimentos orgânicos em substituição dos alimentos convencionais baseado na quantidade de nutrientes.


 

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