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Em entrevista, Roberto Rodrigues, comenta sobre o agronegócio em 2013

Sustentado pelos preços ainda elevados da soja e do milho no mercado internacional, o agronegócio brasileiro deve ter mais um ano positivo em 2013, apesar de um possível encolhimento das margens devido ao aumento dos custos de produção. A avaliação é do coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP, Roberto Rodrigues, que espera ainda uma recuperação de segmentos que sofreram em 2012, em especial os de aves e suínos.

Em entrevista ao Valor, Rodrigues manifesta, porém, pessimismo em relação às cadeias citro e sucroalcooleiras, que passam por uma grave crise. Para ele, a citricultura – afetada pelo excesso de oferta de suco de laranja e a queda da demanda nos países desenvolvidos – deverá experimentar um ajuste “doloroso”, com a debandada de agricultores e o encolhimento da produção em São Paulo.

Ministro da Agricultura durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, Rodrigues sobe o tom das críticas ao governo quando avalia os problemas enfrentados pelo setor de cana-de-açúcar. Para ele, a resistência da equipe econômica em ajustar os preços da gasolina está “destruindo” o setor, já que o etanol tornou-se um produto menos competitivo do que o derivado do petróleo em praticamente todo o país.

Rodrigues considera que o Brasil fez muito pouco nos últimos anos para resolver os gargalos do setor e que uma eventual queda nos preços das commodities, em 2014, pode expor essas fragilidades. Além do déficit na infraestrutura de transportes e armazenagem, o especialista chama a atenção para a falta de políticas de renda, acordos comerciais bilaterais e recursos para pesquisa e desenvolvimento. Ele classificou ainda como “inaceitável” que o país não tenha superado definitivamente o risco de febre aftosa, o que o impede de exportar carnes para mercados importantes como Japão e Coreia do Sul.

Para o ex-ministro, o Brasil “negligencia a oportunidade que lhe oferecem de mão beijada”, de ser o maior responsável pelo aumento na produção de alimentos nos próximos anos. “Nos falta estratégia.”

“Sim, é preciso investir e ganhar produtividade, mas quem vai investir se não há rentabilidade?”

Valor: O agronegócio vislumbra mais um ano positivo em 2013?

Roberto Rodrigues: Falando especificamente de soja e milho, o Brasil deve colher uma produção muito grande em 2013. Mas deve ser uma safra menos rentável do que nos últimos anos, porque os custos de alguns insumos, como os fertilizantes, subiram em meio à demanda aquecida. E é possível que os preços caiam em relação a 2012, porque a quebra da safra americana aparentemente não foi tão significativa quanto se estimava inicialmente. Mesmo assim, será um ano de renda elevada, porque os estoques globais continuam abaixo da média dos últimos 10 a 15 anos após perdas de produção nos Estados Unidos, na Argentina, no Brasil e na Europa Central. E a demanda se mantém aquecida, uma vez que a crise financeira que afeta a Europa não chegou aos emergentes com o vigor que se podia esperar.

Valor: Outros setores, como os de aves e suínos, enfrentaram problemas neste ano. Há perspectiva de recuperação?

Rodrigues: O ajuste feito pela avicultura e, particularmente, pela suinocultura foi muito dramático, mas está praticamente concluído. Provavelmente não será um ano dourado, mas a tendência é que seja melhor do que 2012. Não apenas porque o ajuste está feto, mas porque os preços dos grãos [matéria-prima para a produção de rações] podem cair um pouco e a demanda está aquecida. Tenho dúvidas sobre o que vai acontecer com os produtores de leite, porque certamente teremos um problema com o custo de produção. A alta dos preços dos grãos ainda não chegou a esse setor, porque tivemos um inverno chuvoso, que impediu a degradação dos pastos. Mas temo que tenhamos um problema de renda em 2013.

Valor: Os preços do café também caíram muito em 2012. É um segmento que preocupa?

Rodrigues: Não, porque o café terá uma safra menor devido ao ciclo bianual da cultura e os estoques não são excepcionais. Não creio que será um ano pior do que este, em termos de preços. A renda bruta deve diminuir, porque a produção será menor, mas o cenário para o produtor deve evoluir.

“Mantidas as condições normais de produção, a tendência é que tenhamos grandes safras em 2013 e 2014”

Valor: Quais setores demandam mais atenção?

Rodrigues: Há dois segmentos que enfrentam problemas muito graves. O primeiro deles é a citricultura. Os estoques mundiais de suco são muito grandes, a crise nos países desenvolvidos fez encolher o mercado, que agora enfrenta a concorrência de outros tipos de suco e novos refrigerantes, que ganham um espaço muito grande junto aos jovens. O esforço do governo tem sido pequeno diante da gravidade do problema.

Valor: Como combater esse desequilíbrio?

Rodrigues: Falta uma série de coisas para a citricultura, sobretudo liderança. Tinha uma grande expectativa em relação à criação do Consecitrus [conselho que vem sendo costurado há mais de dois anos para tentar ordenar as relações entre produtores e indústria em São Paulo, maior parque citrícola do mundo], mas a briga entre as lideranças e entidades do setor está inviabilizando essa discussão. A modernização institucional desse setor é fundamental. Temos uma concentração industrial gigantesca, e o Consecitrus seria a grande saída para dar equilíbrio à relação entre produtores e indústria. Já o governo poderia ajudar a fomentar o mercado interno, financiando estoques e promovendo o consumo de laranja na merenda escolar e a distribuição de suco por meio programas sociais.

Valor: Sem o Consecitrus ou uma ação mais firme do governo, o que deve acontecer?

Rodrigues: Sem isso, o ajuste será social, pela exclusão e, portanto, doloroso. Teremos uma enorme debandada do setor para outras atividades, principalmente para a cana-de-açúcar. Esse é o outro setor que passa por um momento delicado, uma crise sem tamanho.

Valor: A que se deve a crise do setor sucroalcooleiro?

Rodrigues: Basicamente à inação governamental, a uma questão que até as pedras das cidades produtoras de etanol conhecem: o preço da gasolina continua artificialmente baixo, o que inviabiliza a competição do etanol. O governo argumenta que faz isso para controlar a inflação, mas o preço é que a sociedade tem de bancar o prejuízo da Petrobras. É inacreditável a erosão que a Petrobras está sofrendo por causa dessa política de preço.

Valor: O governo argumenta que o setor tem um problema de produtividade.

Rodrigues: O governo fica repetindo que precisa aumentar a produtividade, mas é espetacular o que avançamos em produtividade desde o Proálcool. Tivemos alguns problemas climáticos nos últimos dois a três anos, um cenário mais favorável para a produção de açúcar, mas o efeito disso é marginal. Sim, é preciso investir e ganhar produtividade, mas quem vai investir se não há rentabilidade? O setor carece é de um marco institucional mais adequado. O fato é que inexiste uma estratégia pública. Temos um setor globalmente promissor, com um horizonte espetacular nas áreas de bioeletricidade e alcoolquímica, que está sendo destruído por inação política.

Valor: Por que a indústria não consegue sensibilizar o governo?

Rodrigues: O setor sucroalcooleiro é um setor de gente poderosa, de grandes multinacionais que conseguem acessar os governos individualmente e tratam com os poderosos de Brasília os seus próprios problemas, e não os problemas do setor. E não há nada que o governo mais goste do que isso: cada um pede uma coisa diferente e você não dá nada para ninguém. Essa é uma tribo de caciques sem índios, muito pouco liderável, porque todo mundo é lider.

Valor: O etanol foi uma prioridade nos primeiros anos do governo Lula. A descoberta do pré-sal atrapalhou?

Rodrigues: Muita gente me faz essa pergunta, mas não tenho uma resposta. Obviamente, o petróleo surgiu como uma alternativa, que, por sinal, está difícil de amadurecer. Estamos importando gasolina cara e vendendo barato. Mas esse é um problema fácil de resolver, basta equilibrar os preços da gasolina e do etanol. A Petrobras precisa disso e o setor sucroalcooleiro também. E o governo precisa entender que, quando Bunge, Cargill, ADM e as grandes petroleiras investiram no etanol, não tinham em mente o mercado doméstico, mas o mercado mundial, uma coisa muito mais ampla. E o Brasil tinha de liderar esse processo. Não de vender álcool, mas de vender usina, tecnologia, legislação, conhecimento, todo o ‘know-how’ que a gente acumulou nesses 40 anos, que é o que realmente vale dinheiro.

“É inacreditável a erosão que a Petrobras está sofrendo por causa dessa política de preço”

Valor: Do ponto de vista institucional, tivemos algum avanço nos setor em 2012?

Rodrigues: Avançamos pouco e em basicamente dois temas. No front da tecnologia, tivemos o Programa ABC [Projeto Agricultura de Baixo Carbono, do Ministério da Agricultura, que visa a estimular sistemas produtivos que integrem lavoura e pecuária], que é muito relevante para a imagem do Brasil lá fora e que é capaz de mudar paradigmas sobre o uso da terra. Há um esforço real do governo para implantar isso, apesar da burocracia brutal. A tentativa de regionalização das políticas agrícolas – uma ideia antiga, que era defendida quando a agricultura familiar ainda estava sob o chapéu do Ministério da Agricultura – voltou à tona e é relevante, porque não se pode ter a mesma política agrícola para o produtor da serra gaúcha e o produtor de Rondonópolis (MT).

Valor: Quais são as prioridades?

Rodrigues: A essência, que é a estratégia, continua intocada. A logística ainda é o tema central. Vamos ter safra recorde no ano que vem. O que vai acontecer com a nossa estrutura portuária, de armazenagem? Ninguém sabe. A presidente [Dilma Rousseff] mexeu no tabuleiro, mas muita gente ainda está cética. O seguro rural e as políticas de renda, como um todo, não avançam, embora o Banco do Brasil tenha criado uma seguradora específica para tratar do setor. A lei do seguro é de 2003, mas não decola. A política comercial está totalmente paralisada. Colocamos todos os ovos em Doha, que está desmaiada há 11 anos. Chile, Colômbia e México têm acordos bilaterais com um monte de gente. O Brasil não possui nenhum. Nossa pesquisa está abandonada. O Instituto Agronômico de Campinas e o Instituto Biológico, que são os pais da Embrapa, não têm dinheiro para fazer pesquisa, não têm recurso para nada. É uma tragédia, e o risco é ficarmos cada vez mais para trás no campo da inovação. E aí entra um subcapítulo dramático, que
é a nossa defesa sanitária. É inaceitável que não possamos vender carne para alguns mercados por que ainda convivemos com o risco da aftosa. Precisamos de uma política continental de defesa, que seja liderada pelo Brasil. Temos que acabar com a aftosa no Paraguai, na Bolívia.

Valor: Ao encobrir esses problemas, os anos de prosperidade do agronegócio provocaram uma acomodação?

Rodrigues: É exatamente a história da política comercial. Os preços estão tão bons, então porque se preocupar com protecionismo? Mas é o contrário! Quando os anos estão bons é que você tem de resolver os problemas estruturais, porque virão os anos de vacas magras. Isso é tão certo quanto dois mais dois é igual a quatro.

Valor: Quando virão?

Rodrigues: Isso é um exercício de adivinhação, uma previsão de altíssimo risco. Mas há uma corrente crescente entre os especialistas que acredita que os preços cairão para valer já em 2014. Claro que podemos ter outra seca nos Estados Unidos ou problemas com pragas, e aí essa previsão cai por terra. Mas, mantidas as condições normais de produção, a tendência é que tenhamos grandes safras em 2013 e 2014, porque os preços ao produtor são muito atraentes, e isso deve pesar lá na frente.

Valor: A desaceleração da China preocupa?

Rodrigues: O processo de urbanização da China é uma realidade e vai se manter. A demanda por alimentos vai aumentar e a produção local vai diminuir, porque eles terão de redirecionar a água do campo para as cidades. Portanto, eles terão de comprar mais produtos agrícolas. O problema com a China é a agregação de valor. Está na hora de o Brasil ter uma negociação mais firme nesse sentido. A China quer comprar a soja e esmagá-la lá. Ela está certa, porque quer agregar valor em seu território. Mas o Brasil quer agregar valor aqui e também está certo. Então precisamos criar um mecanismo de aproximação e dizer o seguinte: China, este ano a gente vai exportar 100% de grão, mas ano que vem será 90% grão e 10% farelo. No ano seguinte, será 80% grão e 20% farelo. Precisamos, paulatinamente, sair da commodity para o produto de maior valor agregado. É um esforço que precisa ser liderado pelo governo, mas também deve ser uma briga do setor privado. E não deve se restringir à China, mas tem de ser com a Índia, os Estados
Unidos, a União Europeia, o Canadá, para que a gente não seja eternamente um exportador de matéria-prima.

Valor: Falta iniciativa ao Brasil?

Rodrigues: O mundo todo acha que o Brasil é relevante para a agricultura. Quando a OCDE diz que o Brasil precisa aumentar sua produção em 40% em dez anos para que o mundo possa aumentá-la em 20%, é uma demanda relevante para a qual o Brasil está de costas. É como se dissesse ‘não, obrigado, não quero produzir’. O Brasil negligencia a oportunidade que lhe oferecem de mão beijada. Se tivermos uma estratégia e assumirmos esse papel, vamos voar muito rapidamente porque os recursos humanos disponíveis no Brasil são fantásticos, e sobra gente no mundo querendo investir aqui. O que nos falta é uma base institucional adequada, uma estratégia.

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