Você está aqui: Home / Imprensa / Notícias / Polo mineiro de hortaliças já gera receita de R$ 1 bilhão

Do alto, em fotos de satélite, o que se vê são discos em tons de verde e marrom. É dali, numa porção de terra de cerca de 50 mil hectares, no centro-oeste de Minas Gerais, que sai atualmente uma produção agrícola bilionária.

O carro-chefe não é a soja, nem o café, nem a cana, nem o milho, culturas de primeira ordem do agronegócio brasileiro, mas cenoura, alho, beterraba e outros itens da cesta de hortaliças.

Produtores da região do município de São Gotardo tornaram-se referência nacional no segmento e abastecem hoje mercados de quase todo o país. Caminhões refrigerados levam todos os dias carregamentos para São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, para boa parte do Nordeste e até para Manaus.

Mas este ano a ameaça de uma nova temporada de seca põe a região em alerta. Fazendeiros já falam em reduzir a área de plantio ou adiar planos de expansão devido ao risco de não terem água suficiente – seja da chuva, seja para a irrigação. O alerta em São Gotardo pode ter um efeito de ondas. Isso porque se a produção na região cair, os preços dos hortifrútis em várias praças pelo país tenderão a subir, pressionando a inflação.

"Os produtores de São Gotardo realmente exercem um efeito muito grande sobre os preços", diz Carlos Antonio Moreira Leite, professor da Universidade Federal de Viçosa (MG). "Se a oferta deles cair, tende a haver um aumento de preços em São Paulo, o que impactaria o Brasil porque São Paulo é um grande centro de distribuição".

São Gotardo, no Alto Paranaíba, em Minas, ganhou expressão no ramo dos hortifrútis por sua produção de cenoura – que aqui é colhida praticamente o ano todo. Segundo cálculos da principal cooperativa de produtores da região, a Coopadap, a área plantada de cenoura é de cerca de 4 mil hectares, o que representa 16% da área de cenoura cultivada no país, de 25 mil hectares. Mas com uma produtividade muito maior alta que a médica nacional (75 mil quilos por hectare contra 30 mil quilos por hectare), segundo a cooperativa, a região responde por cerca de 40% da cenoura colhida no país.

Com o alho, a relação é semelhante: dois mil hectares na região contra 12 mil no Brasil. Mas a produtividade também supera a nacional, 18 mil quilos por hectare contra 10 mil quilos, aproximadamente, conforme a Coopadap.

No caso da batata e da cebola, mesmo com menor relevância, a região também tem seu peso como fornecedor nacional. Entre as frutas, o abacate se destaca, com cerca de mil hectares plantados na região – ante 11 mil no país.

Quem começou e ainda é a principal força da produção na região são agricultores descendentes de japoneses que vieram do Paraná e de São Paulo nos anos 1970, quando o governo militar do presidente Ernesto Geisel pôs em marcha um plano de assentamento para desenvolver a agricultura nessa porção do Alto Paranaíba. Era o Plano de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba (Padap). "Costumo dizer que foi o projeto de reforma agrária que mais deu certo no Brasil", afirma Jorge Nobuhico Kiryu, diretor conselheiro da Cooperativa Agropecuária do Alto Paranaíba (Coopadap).

Vários dos primeiros agricultores do Padap eram associados à Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), que chegou a ser a maior cooperativa rural da América do Sul, mas foi liquidada nos anos 1990. O projeto nos novos assentamentos começou com café, soja, milho e trigo. À medida que a irrigação foi ganhando espaço, produtores passaram a tentar outras culturas, entre elas hortaliças. "No Brasil, não existia uma produção de hortaliças nessa escala", diz Kiryu. A boa qualidade da terra, a altitude de 1.000 a 1.300 metros e o clima ameno são decisivos para o sucesso dessas culturas, acrescenta.

No início dos anos 2000, os hortifrútis já eram opção bem disseminada em São Gotardo, Campos Altos, Ibiá, Matutina, Tiros e Rio Paranaíba – nesta última, concentra-se 60% a 70% da área plantada da região.

Os produtores mantêm culturas do início do Padap, só que hoje, em muitas das propriedades, como coadjuvantes das hortaliças e frutas. A rotação entre cereais e hortaliças é comum na região. "Calculamos que o faturamento somado dos produtores seja de cerca de R$ 1 bilhão", diz Kiryu. O prefeito de São Gotardo, Seiji Sekita (PT), faz a mesma estimativa.

Somente a Coopadap fatura R$ 300 milhões. A família Sekita, com suas quatro empresas, fatura R$ 200 milhões, segundo o prefeito, que está à frente do grupo Fênix e que tem como destaque seus 300 hectares de repolho. Mas é um de seus irmãos quem personifica melhor a produção em grande escala de hortaliças e frutas nessa faixa de Minas. Makoto Edison Sekita, da Sekita Agronegócios, diz que só de cenoura cultiva 900 hectares, o que lhe rende uma produção anual de 45 mil toneladas. Parte disso é exportada ao Uruguai.

"Nosso grupo é o maior do país em produção de cenoura e também na produção de beterraba", diz ele, diante de uma das áreas circulares irrigadas por pivôs centrais – que do alto parecem discos esverdeados e marrons. Sekita tem 62 desses pivôs.

Por dia, são despachadas de sua propriedade 150 toneladas de cenoura, 60 toneladas de beterraba e 12 toneladas de alho em caminhões que vão para São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Belém, Porto Velho, Manaus, além dos mercados da região Sul e do Nordeste. A empresa, que há cinco anos faturava R$ 60 milhões, fechou 2014 com receita de R$ 100 milhões e espera chegar a R$ 110 milhões este ano.

Sekita afirma que conseguiu limitar o impacto da estiagem do ano passado graças à construção de quatro lagoas com 80 milhões de litros de água de riachos e minas para irrigação. "Alguns produtores da região deixaram de plantar o que planejavam quando perceberam que poderiam não ter tanta água", observa.

Marcelo Akihiro Morita, outro produtor e atual presidente da Coopadap, diz que a disponibilidade de água passou mesmo a ser uma preocupação. "Este ano há uma possibilidade grande de vivermos escassez de água. Isso será provavelmente um empecilho", admite. "Por causa da pouca chuva, muita gente vai ter que plantar menos aqui. A gente está vendo o risco grande de que vai haver um impacto na oferta".

Morita avalia que a temida falta de chuva deve reduzir o plantio não apenas na região de São Gotardo, mas também em Goiás, onde há uma grande produção de hortaliças, e no interior de São Paulo.

Na avaliação de João Paulo Deleo, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, o impacto mais previsível no Alto Paranaíba da pouca chuva é sobre a produção de batata – menos irrigada que cenoura.

Terceira geração de agricultores, Hugo Shimada é o diretor administrativo da empresa que leva o nome da família e presidente Cooperativa de Agronegócios do Cerrado Brasileiro (Coopacer). Os Shimada faturaram R$ 30 milhões no ano passado. Seus principais cultivos são cenoura e alho. "A questão da água é um fator limitante e preocupante. No ano passado, tivemos de fazer uma nova captação", diz.

As terras da família se espalham por três municípios. São pouco mais de 2 mil hectares, sendo mil irrigados por 19 pivôs centrais. "A gente considera que hoje o que temos de água dá para manter nossa área. Mas não dá para aumentar, porque o clima está muito incerto".

Apesar dos riscos climáticos, produtores se preparam para começar a vender cenoura, alho e outros itens com um selo de origem da região de São Gotardo. É uma tarefa que está sendo desenvolvida com apoio do Sebrae e que pretende aproveitar o prestígio do município para valorizar seus alimentos. O Sebrae prevê que em maio alguns mercados de São Paulo comecem a receber a novidade mineira.

 

Fonte: Jornal Valor Econômico

ANDEF. Avenida Roque Petroni Júnior, 850 . 19º andar . Torre Jaceru . Jardim das Acácias . CEP: 04707-000 . Tel.: 55 (11) 3087-5033 - (Mapa) Desenvolvido por UAU!LINE.