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Brasil em ritmo de competitividade: Andef responde editorial de 9 de junho.

Carta-resposta ao editorial do jornal O Estado de S. Paulo, de 9 de junho.
Se a economia do Brasil cresce em ritmo chinês, faz todo sentido – e é ótimo para o país – que também avancem os investimentos em tecnologia na agricultura.


O Brasil em ritmo chinês. Com estas palavras, o título de um dos editoriais do jornal O Estado de S. Paulo, desta quarta-feira, 9 de junho, saúda os resultados do PIB, Produto Interno Bruto, no primeiro trimestre do ano. Diante dos números positivos sobre o crescimento econômico, não se justificam os argumentos pouco consistentes e o tom crítico do outro editorial, “Campeão de agrotóxicos”, na mesma edição.

O texto ignora conhecimentos elementares agronômicos e do mercado de defensivos agrícolas. O mais grave é sua abordagem alarmista causar receios injustificados à população consumidora de alimentos. Ela também golpeia os agricultores na sua difícil lida diária de  evitar os prejuízos nas lavouras e garantir os alimentos em nossas mesas; atinge duramente os pesquisadores que, ao longo de anos, se empenharam no desenvolvimento de tecnologias que tornam o país referência mundial e, por fim, as empresas que apostam na agricultura brasileira.  Portanto, em respeito aos fatos e aos próprios leitores, os equívocos do editorial precisam ser prontamente reparados.

1. Importação de agrotóxicos

– O editorialista estranha o aumento das importações em 2009. Mas bastaria ler o próprio jornal onde trabalha para entender a conjuntura agrícola do país. Vejamos um trecho de “O Brasil em ritmo chinês”, o outro editorial: “O investimento em máquinas e instalações corresponderia a um crescimento de 33%. O uso da capacidade instalada chegou a 83%”. Ou seja, os investimentos dos agricultores em  tecnologia apenas seguem a tendência geral da economia – o que, aliás, é ótimo para o país.

– O segundo aspecto apontado é o volume de importações que, em 2009, somaram 2,3 mil toneladas. Numa rápida conta, o jornal verificaria que este volume  é insignificante para o tamanho da agricultura brasileira. Em 2009, os produtores utilizaram 725 mil toneladas de defensivos agrícolas. Ou seja, as 2,3 mil toneladas importadas representaram menos de 0,3% do total empregado no combate às pragas que devoram os alimentos nas plantações.

– Portanto, coube à indústria nacional abastecer a quase totalidade da necessidade interna e, assim, garantir a competitividade do campo. A indústria do setor no Brasil emprega cerca de 10 mil funcionários e investe, por ano, somente em Pesquisa e Desenvolvimento, cerca de US$ 80 milhões.

2. Produção agrícola em condições tropicais

– O Estado de S. Paulo tem tradição no jornalismo agropecuário, com seu Suplemento Agrícola. Contudo, o citado editorial engana-se redondamente ao questionar os agricultores que “alegam que o clima do Brasil propiciaria a proliferação de pragas, o que justificaria o uso mais intenso de herbicidas e inseticidas”. Ora, a necessidade premente de maior esforço fitossanitário em países tropicais é uma constatação científica, consagrada pela pesquisa mundialmente e no Brasil desde os estudos pioneiros no Instituto Agronômico, IAC, de Campinas, fundado há 123 anos.

– De acordo com a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a tecnologia evita a redução, em média, de 40% na produção dos alimentos. Os prejuízos são ainda maiores em países tropicais como o Brasil, cuja incidência de pragas não tem a proteção natural das baixas temperaturas e geadas, casos da Europa e dos Estados Unidos.

– Portanto, da mesma forma é ingênua, para dizer o mínimo, a afirmação, no editorial, do sr. Marcelo Firpo, da Fiocruz, segundo o qual “com o encolhimento do mercado internacional, as indústrias passaram a estimular as vendas de produtos ao Brasil”. Veja-se o que afirmam cientistas que desfrutam de toda credibilidade, como Décio Gazzoni pesquisador da Embrapa e assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República: “As alterações do clima acarretam modificações na incidência de pragas agrícolas, com sérias conseqüências econômicas, sociais e ambientais”.

– Aliás, o próprio Estadão traz este fato quase todas as semanas no Suplemento Agrícola: “A umidade aumenta a incidência de pragas e reduz a qualidade da produção, derrubando preços”, informa a reportagem “Chuvas ameaçam safra recorde” (31.01.10), constatando que o atraso na colheita de arroz, feijão, milho e soja favoreceu a proliferação de doenças.

3. Produtos banidos no Exterior e em uso no Brasil

–  Conforme constado anteriormente, que diferentes climas e culturas requerem diferentes manejos fitossanitários, esta realidade agronômica faz com que cada país adote diretrizes próprias no uso de defensivos. Ao decidir retirar do mercado um determinado produto, o país prevê o impacto insignificante no cultivo de certos alimentos.

– Por exemplo, se a Europa proibir um defensivo essencial para o feijão, não causará o menor prejuízo na sua agricultura. Porém, a decisão será drástica sobretudo para os consumidores e a segurança alimentar de um dos cinco maiores produtores de feijão: Brasil, Índia, China, Mianmar e México, que juntos representam mais de 65% da safra mundial.

– É fundamental destacar, ainda, que  os defensivos agrícolas são os produtos químicos mais severamente regulados no mercado. Somente são registrados e produzidos após longa e rigorosa avaliação de três ministérios: da Agricultura; da Saúde, através da Anvisa; e do Meio Ambiente, através do Ibama. Seus técnicos se dedicam, durante anos, na avaliação de estudos exigidos pela legislação brasileira compatíveis com as regulamentações e protocolos internacionais.

4. Segurança alimentar e qualidade dos alimentos 

– O editorial de O Estado de S. Paulo finaliza advogando em causa dos chamados alimentos orgânicos – que utilizam fertilizantes e defensivos agrícolas químicos naturais, diferentemente das culturas que recorrem aos produtos químicos sintetizados em laboratórios. Do ponto de vista do mercado de alimentos, não há sequer uma concorrência entre ambos, uma vez que é impensável a produção orgânica atender o agricultor, em termos de custo e escala, e minimamente atender a demanda da população brasileira. 

– Outro aspecto que, cientificamente, não procede é o argumento segundo o qual os orgânicos têm benefícios nutricionais superiores aos alimentos cultivados com fertilizantes e defensivos sintéticos. Este fato foi constatado em estudo, no passado, do American Journal of Clinical Nutrition.

– Ambos os cultivos exigem rígidas normas de Boas Práticas Agrícolas, determinadas pelo Ministério da Agricultura – recentemente, inclusive, reforçadas para as plantações orgânicas. Ou seja, em ambas, quando o manejo obedece as recomendações agronômicas e de segurança, não há riscos para os alimentos.

– Isto posto, resta um imenso desafio para os agricultores, pesquisadores, empresas e governos. O de garantir que o consumo de alimentos em quantidade e qualidade não seja um privilégio, mas um direito a que todas as pessoas tenham pleno acesso. A adoção dos recursos tecnológicos é um caminho seguro para tanto, como afirma Kofi Annan, ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas: “A agricultura moderna é um elemento-chave do desenvolvimento sustentável e essencial para o bem-estar da humanidade e do planeta”.

Associação Nacional de Defesa Vegetal – ANDEF
10 de junho de 2010

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