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Francisco Vila faz uma reflexão sobre os defensivos agrícolas.

Sou a favor da iniciativa que quer barrar o uso de agrotóxicos. Vou explicar o porquê. Mas antes, uma correção da terminologia. Os produtos que combatem pragas e doenças vegetais e animais chamam-se defensivos, e não agrotóxicos.

Pois, desde que se intensificou a aplicação desses insumos na produção de alimentos, a humanidade se multiplicou e, além disso, dobrou sua expectativa de vida. Perante esse histórico, ficamos em dúvida se os defensivos são veneno ou remédio milagroso.

Cada vez mais humanos consomem mais e melhores alimentos, gastando menos da sua renda mensal. Nos Estados Unidos, o custo da comida representa, hoje, 20% do nível de 100 anos atrás. E a família brasileira, que gastava 45% da sua renda mensal nos anos 1970, dedica, atualmente, em torno de 15% para essa finalidade.

Ou seja, mais gente no mundo, mais bocas sendo alimentadas por preços menores e produtos mais seguros e saborosos. Qual é o segredo dessa (r)evolução: “Mais com menos, melhor e mais barato”?

Essa história toda começou em 1800, quando o economista inglês Thomas Malthus alertou os governos que deveriam criar algum mecanismo e controle de natalidade para reduzir o número de filhos por família, pois a Terra não daria mais conta e alimentar toda população.

Àquela altura, o mundo era habitado por 1 bilhão de humanos, dos quais 800 milhões passavam fome. Conforme estatísticas recentes, hoje, o número de indivíduos abaixo da linha de pobreza continua em torno de 800 milhões, no entanto, entre um total de 7,6 bilhões de cidadãos. Isso significa que a proporção de famintos baixou de 80% para um pouco mais de 10%. Nada mal!

Só para termos uma ideia mais objetiva daquilo que estamos avaliando, seguem alguns números. Em 1950, a população da Terra era de 2 bilhões, com uma expectativa de vida de 42 anos.

Hoje, temos quase 8 bilhões, e as pessoas vivem, em média, 75 anos. Fiz o cálculo contando com duas refeições por dia por pessoa durante 365 dias por ano. Assim, temos o seguinte cenário: a população quadruplicou em duas gerações, e a expectativa de vida dobrou.

Então, ao longo da minha vida de 70 anos, a demanda por comida aumentou oito vezes. Fica a pergunta: se Malthus diagnosticou, em 1800, com 1 bilhão de almas na Terra, que estava faltando alimento (mesmo com 80% passando fome), como, agora, com 16 vezes mais bocas, em 2020, conseguimos manter constante esse número de famintos?

O que o visionário inglês não sabia – nem podia imaginar – era que com Justus Liebig, que inventou os fertilizantes, com a construção do primeiro trator por J. I. Case e, ainda depois, com a revolução química que forneceu pesticidas para a produção rural, o mundo do agro evoluiria de forma tão espetacular.

Na revolução verde, no Brasil dos anos 1970, essa façanha se repetiu. Simplificando, podemos constatar que quanto mais agrotóxicos aplicamos no campo, mais tempo vive o consumidor. E nem consideramos os verdadeiros venenos, como fumo, poluição do ar, álcool, etc. Resolvemos, assim, o debate sobre o balanço entre riscos e benefícios do uso de defensivos? Acho que sim.

Mas, já que estamos olhando da nossa Varanda para o futuro incerto e cada vez mais nebuloso, quero compartilhar uma reflexão baseada em comentários de cientistas e visões de filósofos e sociólogos. O recém-falecido gênio Stephen Hawking, de sua cadeira de rodas, diagnosticou o seguinte:

“A tecnologia resolverá todos os problemas da humanidade, desde alimentos, transporte, saúde e renda, até o desafio da recuperação do equilíbrio ambiental. O único gargalo para um planeta feliz será a incapacidade do homem de acompanhar esse avanço tecnológico.”

Sem politicas públicas inteligentes (cada vez mais distantes na prática dos governos), aumentará a desigualdade, gerando conflitos que incitarão a humanidade a destruir a si mesma. O surgimento de “ódio” e “raiva” na comunicação e nas redes sociais, além nos discursos políticos, é prova dessa tendência.

Com o aumento da desgovernança geral, acelerada pelo impacto cruel das notícias falsas ou incorretas, os povos, as classes sociais e os grupos ou indivíduos extremistas inventarão meios para desestabilizar o equilíbrio que a tecnologia por si poderia providenciar.

Perante esse cenário apocalíptico, surge minha solução satírica. Vamos apoiar a proibição de defensivos e voltar para a tradicional autoalimentação, com base na horta familiar, sem adubo, com animal de tração e apenas comendo os produtos da época.

Com isso, recuperaremos a proporção histórica de 50% a 80% de famintos e encurtaremos a expectativa de vida de todos. E, com a concentração das energias dos humanos para assegurarem a satisfação de suas necessidades básicas, quem sabe, isso não desvia a atenção das crescentes tendências de autodestruição de uma sociedade afluente e sem norte e valores.

Além disso, o cenário de menos pessoas com menos anos de vida e mais anos de trabalho também poderia evitar a bancarrota da Segurança Social Brasileira. Como dizem os ingleses: “Não se pode comer o bolo e querer ficar com ele”. Das duas, uma: ou alimentamos uma população crescente e longeva, aplicando as tecnologias em constante evolução, ou abdicamos do progresso e voltamos às cavernas. Sem defensivos, Thomas Malthus ressurgirá do túmulo.

Essas reflexões podem servir para aquecer as conversas com os “idealistas” que preferem banir o progresso. Enquanto torcemos pela aceleração do desenvolvimento de novas moléculas sincronizadas com os avanços da nanotecnologia e da engenharia genética, vamos aproveitar o tempo para provocar os críticos insistindo que eles nos mostrem suas soluções sobre como pretendem alimentar 8 bilhões de pessoas 12 meses por ano apenas com hortas.

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