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José Otávio Menten comenta o uso de defensivos na produção de alimentos.

O conceito de sustentabilidade vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade e sendo discutido em importantes fóruns e debates pelo Brasil. Dentro desse conceito, está um assunto que gera polêmica e divide opiniões entre os estudiosos: os agrotóxicos. Para discutir o tema sobre o uso de agrotóxicos na produção de alimentos, o Portal Dia de Campo entrevistou com exclusividade José Otávio Menten, presidente do CCAS (Conselho Científico para Agricultura Sustentável) e professor da Universidade de São Paulo.

Portal Dia de Campo – Os agrotóxicos também são chamados de defensivos. O que é exatamente esse conceito de defesa vegetal?

Menten – A defesa vegetal envolve todas as medidas para a proteção de plantas contra as pragas. Hoje, chamamos de pragas todos os agentes nocivos às plantas, envolvendo insetos, ácaros, fungos, bactérias, vírus e plantas daninhas.

O uso de agrotóxicos é um tema que gera bastante polêmica. Os defensivos são necessários para viabilizar a produção, mas alguns ainda questionam o risco que isso pode causar à saúde humana e ao solo. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre essa polêmica.

Tecnicamente, sempre defendemos o que chamamos de manejo integrado de pragas, ou seja, o uso simultâneo de todas as medidas, incluindo a utilização química dos defensivos quando necessário. Infelizmente, na nossa situação, os defensivos são fundamentais. Outras medidas de controle, como o biológico e o vazio sanitário, não são suficientes  para evitar ou reduzir os danos causados pelas pragas. Isso porque vivemos em um país tropical, onde o clima é extremamente favorável ao desenvolvimento dessas pragas. O importante é que esses produtos tenham boa qualidade e sejam utilizados de maneira adequada.

Para a liberação dos agrotóxicos, existe o conceito da ingestão diária aceitável. O senhor pode explicar melhor como se baseia esse conceito?

Todos os defensivos utilizados no Brasil devem ser registrados. O registro significa uma análise não só dos aspectos agronômicos. O defensivo, quando usado em determinada dose e em determinada cultura, é eficiente para o controle de determinada praga. Esse é o estudo de eficiência e praticabilidade agronômica. Existe outro estudo: o ambiental. Esses produtos, quando utilizados na dose que consta no rótulo e bula, não podem causar impacto ambiental. Essa análise é feita pelo IBAMA. Existe ainda um terceiro grupo de estudos: os toxicológicos. Eles determinam a ingestão diária aceitável de todos os produtos hoje comercializados.

Por que os produtos que não são utilizados em alguns países ainda são vendidos aqui no Brasil?

Isso pode ter duas razões. Uma delas é que, em determinados países, as culturas e as pragas não são as mesmas do Brasil. Então, produtos que são importantes para a agricultura no país, não necessariamente são importantes em países de clima temperado. Outra razão é que a severidade das pragas aqui existentes, em regra, é maior que nos outros países.

De que forma a utilização de agrotóxicos se encaixa no conceito de agricultura sustentável?

Quando falamos em agricultura sustentável, temos que analisar três aspectos. Um deles é o econômico. As pragas causam hoje, no país, 40% de redução no rendimento. Se não estivéssemos utilizando defensivos, a produção média de todas as culturas seria 40% menor do que hoje. A sustentabilidade também passa por aspectos sociais. Então, temos que utilizar apenas defensivos registrados para não expor o homem do campo a qualquer risco de intoxicação. Existe ainda o aspecto ambiental, ou seja, só aplicar defensivos quando realmente for necessário obedecendo todas as prescrições e evitando qualquer tipo de impacto ambiental.

Eu gostaria que o senhor falasse sobre uma questão importante para os agricultores: a tecnologia de aplicação dos defensivos. Muitas vezes, o residual do produto é muito grande porque os produtores ainda aplicam os defensivos de forma inadequada.  Quais são as recomendações da CCAS para a aplicação de agrotóxicos?

Todos os envolvidos com a aplicação de defensivos devem seguir rigorosamente o que está escrito no rótulo e bula. Devem procurar se atualizar e participar de treinamentos para utilizá-los adequadamente. Deve haver ainda um processo de verificação sistemática das boas condições dos aparelhos de aplicação. Deve-se ainda obedecer a aspectos como o ambiente de aplicação, sem muito vento ou calor excessivo. Além disso, obedecer rigorosamente ao período de carência.

Outra questão importante é a prática de algumas revendas que empurram os produtos, muitas vezes sem necessidade, aos produtores menos informados. De que forma isso atrapalha todo o processo?

O primeiro aspecto nesse caso é o ético. Essa prática não é aceitável e não faz parte dos procedimentos de um profissional bem formado. O técnico que prescrever qualquer defensivo agrícola desnecessário deve ser punido ou levado a uma reciclagem para que adote procedimentos adequados.

No final do ano passado, saiu mais um ranking da Anvisa sobre o residual de agrotóxicos nos alimentos. Qual a sua opinião em relação à repercussão que houve?

O grande problema é a maneira como a Anvisa divulga esses dados, como se nossos alimentos estivessem inadequados. Os próprios dados da Anvisa não refletem esse problema. As maiores percentagens de amostras consideradas irregulares se referem à presença de produtos em doses pequenas, mas de produtos não registrados para determinadas culturas. Isso é um problema muito mais legal do que de saúde. O monitoramento de resíduos é importante, mas deve ser muito bem explicado para a sociedade para evitar qualquer tipo de pânico infundado.

Existe algum programa que faça a rastreabilidade desse percentual de agrotóxicos?

No Brasil, temos dois grandes programas de monitoramento de resíduos de defensivos em alimentos. Um deles é a Anvisa, que tem maior repercussão. O outro é feito pelo Ministério da Agricultura: o Programa Nacional de Contaminantes e Resíduos. Esse programa tem a rastreabilidade de todas as amostras analisadas, o que permite o retorno para que ações educativas sejam feitas com quem produziu a amostra. Já o programa da Anvisa, não possui essa rastreabilidade.

Em relação a outros países no mundo, como está o Brasil na questão do residual de agrotóxicos nos alimentos?

Tirando o problema dos produtos não registrados, estamos nos mesmos níveis de cerca de 3% a 4% de amostras acima do limite máximo definido pelos órgãos de saúde.

Os produtores brasileiros podem afirma hoje que o Brasil produz alimentos saudáveis?

Estou seguro que sim. Essas análises que vêm sendo feitas, tanto pela Anvisa como pelo Ministério da Agricultura, nos permite dizer que produzimos alimentos saudáveis e que a população pode consumir com segurança. No entanto, esses 3% a 4% de amostras acima do limite máximo de resíduos estipulado serve de alerta para que nós estejamos atuando no treinamento para tentar zerar esses poucos casos de produtos que estão acima do limite permitido.

*José Otávio Menten, Presidente do CCAS (Conselho Científico para Agricultura Sustentável) e professor da Universidade de São Paulo.O conceito de sustentabilidade vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade e sendo discutido em importantes fóruns e debates pelo Brasil. Dentro desse conceito, está um assunto que gera polêmica e divide opiniões entre os estudiosos: os agrotóxicos. Para discutir o tema sobre o uso de agrotóxicos na produção de alimentos, o Portal Dia de Campo entrevistou com exclusividade José Otávio Menten, presidente do CCAS (Conselho Científico para Agricultura Sustentável) e professor da Universidade de São Paulo.

Portal Dia de Campo –  Os agrotóxicos também são chamados de defensivos. O que é exatamente esse conceito de defesa vegetal?

Menten –  A defesa vegetal envolve todas as medidas para a proteção de plantas contra as pragas. Hoje, chamamos de pragas todos os agentes nocivos às plantas, envolvendo insetos, ácaros, fungos, bactérias, vírus e plantas daninhas.

O uso de agrotóxicos é um tema que gera bastante polêmica. Os defensivos são necessários para viabilizar a produção, mas alguns ainda questionam o risco que isso pode causar à saúde humana e ao solo. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre essa polêmica.

Tecnicamente, sempre defendemos o que chamamos de manejo integrado de pragas, ou seja, o uso simultâneo de todas as medidas, incluindo a utilização química dos defensivos quando necessário. Infelizmente, na nossa situação, os defensivos são fundamentais. Outras medidas de controle, como o biológico e o vazio sanitário, não são suficientes  para evitar ou reduzir os danos causados pelas pragas. Isso porque vivemos em um país tropical, onde o clima é extremamente favorável ao desenvolvimento dessas pragas. O importante é que esses produtos tenham boa qualidade e sejam utilizados de maneira adequada.

Para a liberação dos agrotóxicos, existe o conceito da ingestão diária aceitável. O senhor pode explicar melhor como se baseia esse conceito?

Todos os defensivos utilizados no Brasil devem ser registrados. O registro significa uma análise não só dos aspectos agronômicos. O defensivo, quando usado em determinada dose e em determinada cultura, é eficiente para o controle de determinada praga. Esse é o estudo de eficiência e praticabilidade agronômica. Existe outro estudo: o ambiental. Esses produtos, quando utilizados na dose que consta no rótulo e bula, não podem causar impacto ambiental. Essa análise é feita pelo IBAMA. Existe ainda um terceiro grupo de estudos: os toxicológicos. Eles determinam a ingestão diária aceitável de todos os produtos hoje comercializados.

Por que os produtos que não são utilizados em alguns países ainda são vendidos aqui no Brasil?

Isso pode ter duas razões. Uma delas é que, em determinados países, as culturas e as pragas não são as mesmas do Brasil. Então, produtos que são importantes para a agricultura no país, não necessariamente são importantes em países de clima temperado. Outra razão é que a severidade das pragas aqui existentes, em regra, é maior que nos outros países.

De que forma a utilização de agrotóxicos se encaixa no conceito de agricultura sustentável?

Quando falamos em agricultura sustentável, temos que analisar três aspectos. Um deles é o econômico. As pragas causam hoje, no país, 40% de redução no rendimento. Se não estivéssemos utilizando defensivos, a produção média de todas as culturas seria 40% menor do que hoje. A sustentabilidade também passa por aspectos sociais. Então, temos que utilizar apenas defensivos registrados para não expor o homem do campo a qualquer risco de intoxicação. Existe ainda o aspecto ambiental, ou seja, só aplicar defensivos quando realmente for necessário obedecendo todas as prescrições e evitando qualquer tipo de impacto ambiental.

Eu gostaria que o senhor falasse sobre uma questão importante para os agricultores: a tecnologia de aplicação dos defensivos. Muitas vezes, o residual do produto é muito grande porque os produtores ainda aplicam os defensivos de forma inadequada.  Quais são as recomendações da CCAS para a aplicação de agrotóxicos?

Todos os envolvidos com a aplicação de defensivos devem seguir rigorosamente o que está escrito no rótulo e bula. Devem procurar se atualizar e participar de treinamentos para utilizá-los adequadamente. Deve haver ainda um processo de verificação sistemática das boas condições dos aparelhos de aplicação. Deve-se ainda obedecer a aspectos como o ambiente de aplicação, sem muito vento ou calor excessivo. Além disso, obedecer rigorosamente ao período de carência.

Outra questão importante é a prática de algumas revendas que empurram os produtos, muitas vezes sem necessidade, aos produtores menos informados. De que forma isso atrapalha todo o processo?

O primeiro aspecto nesse caso é o ético. Essa prática não é aceitável e não faz parte dos procedimentos de um profissional bem formado. O técnico que prescrever qualquer defensivo agrícola desnecessário deve ser punido ou levado a uma reciclagem para que adote procedimentos adequados.

No final do ano passado, saiu mais um ranking da Anvisa sobre o residual de agrotóxicos nos alimentos. Qual a sua opinião em relação à repercussão que houve?

O grande problema é a maneira como a Anvisa divulga esses dados, como se nossos alimentos estivessem inadequados. Os próprios dados da Anvisa não refletem esse problema. As maiores percentagens de amostras consideradas irregulares se referem à presença de produtos em doses pequenas, mas de produtos não registrados para determinadas culturas. Isso é um problema muito mais legal do que de saúde. O monitoramento de resíduos é importante, mas deve ser muito bem explicado para a sociedade para evitar qualquer tipo de pânico infundado.

Existe algum programa que faça a rastreabilidade desse percentual de agrotóxicos?

No Brasil, temos dois grandes programas de monitoramento de resíduos de defensivos em alimentos. Um deles é a Anvisa, que tem maior repercussão. O outro é feito pelo Ministério da Agricultura: o Programa Nacional de Contaminantes e Resíduos. Esse programa tem a rastreabilidade de todas as amostras analisadas, o que permite o retorno para que ações educativas sejam feitas com quem produziu a amostra. Já o programa da Anvisa, não possui essa rastreabilidade.

Em relação a outros países no mundo, como está o Brasil na questão do residual de agrotóxicos nos alimentos?

Tirando o problema dos produtos não registrados, estamos nos mesmos níveis de cerca de 3% a 4% de amostras acima do limite máximo definido pelos órgãos de saúde.

Os produtores brasileiros podem afirma hoje que o Brasil produz alimentos saudáveis?

Estou seguro que sim. Essas análises que vêm sendo feitas, tanto pela Anvisa como pelo Ministério da Agricultura, nos permite dizer que produzimos alimentos saudáveis e que a população pode consumir com segurança. No entanto, esses 3% a 4% de amostras acima do limite máximo de resíduos estipulado serve de alerta para que nós estejamos atuando no treinamento para tentar zerar esses poucos casos de produtos que estão acima do limite permitido.

*José Otávio Menten, Presidente do CCAS (Conselho Científico para Agricultura Sustentável) e professor da Universidade de São Paulo.

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