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A cada dia, em todo o mundo, cerca de doze mil crianças com menos de cinco anos de idade morrem de fome ou por problemas a ela associados. Diante desse alerta dramático da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), é importante uma reflexão, de forma responsável e sensata, entre aqueles realmente preocupados com a saúde das pessoas

De acordo com a FAO, quase 1 bilhão de pessoas no Planeta enfrentam esse flagelo, e o Brasil não está de fora: somos cerca de 7 milhões de subnutridos. Mas, o que mais impressiona é que, apesar dos números, esta tragédia não sensibiliza com a devida agudeza uma parte da sociedade brasileira.

É importante lembrar que o Brasil começou a reverter o quadro da fome graças ao avanço da competitividade de sua agropecuária. Porém, mesmo que hoje seja reconhecida mundialmente como referência em produtividade e sustentabilidade, nota-se que se elevam as vozes contrárias, entre alguns próprios brasileiros, a essa agricultura geradora do desenvolvimento.

Interpretações equivocadas e, muitas vezes, maldosas animam os caprichos de um certo ambientalismo urbano. Nele, há pessoas bem-intencionadas, mas também os militantes ideologizados; alguns, inclusive, abrigados em órgãos oficiais do Governo. O fato é que esses não semeiam, não plantam, não produzem comida. No oportunismo das notícias equivocadas, acende-se uma espécie de militância black-blocapregoando uma produção sem o uso de tecnologias.

A afirmação ingênua que propõe uma imediata “substituição ao modelo dominante” (sic), deixa a seguinte reflexão: a quem interessa o fracasso do moderno modelo brasileiro de produzir alimentos, copiado e estudado largamente em todos os quatro cantos do mundo?

Não há problema em defender ou optar por modelos agrícolas diferentes. Ao contrário, há espaço para todos e a diversidade nas formas de manejo das culturas é muito importante. O grande problema é a ideologia que prega um cenário trágico, que coloca em xeque um modelo produtivo baseado na Ciência e na sustentabilidade, que faz do Brasil o campeão mundial de preservação e, ao mesmo tempo, de produtividade. Não há outro País no planeta Terra que faça algo parecido. Mas, esse sentimento de orgulho nacional incomoda. Incomoda a quem?

A gritaria injustificada contra a agricultura moderna está longe de ser útil – muito ao contrário: prejudica justamente as populações mais pobres e os pequenos produtores, cerca de 70% dos cinco milhões de agricultores do País. Levada ao extremo, a volta da lavoura arcaica – que alguns defensores tanto admiram no conforto dos seus escritórios bem refrigerados – aniquilaria a competitividade dos campos.

Mais do que enaltecer e estimular um ‘desespero infundado’, é crucial que os sensatos concentrem sua energia e tempo para ampliar os arranjos estratégicos que envolvam agricultores, entidades do setor, comunidade científica, institutos de pesquisa, órgãos de governos e empresas. Juntos, continuaremos a levar o Brasil rumo ao progresso.

*Eduardo Daher é economista pela FEA-USP, pós-graduado pela FGV-SP e diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF).

Fonte: Artigo publicado na revista Agroanalysis | Maio 2015

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