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Produtores de Jales (SP) recorrem à assistência técnica para driblar mau tempo.

Nem mesmo as péssimas condições climáticas, que há mais 20 anos não eram tão impróprias para a produção de uvas, impediram que a região de Jales, extremo noroeste de São Paulo, tivesse uma boa safra em 2010. Com mudanças no manejo, produtores reverteram as expectativas em contrário e fizeram com que a colheita fosse uma das mais lucrativas da história.

A região, a única de São Paulo a produzir uvas nesta época do ano, iniciou a colheita em julho e deve terminar em novembro, mas o excesso de chuva e a falta de sol interromperam a boa formação dos cachos, o que quebrou até 60% da produção de quem não fez o manejo correto.

Quem se preparou e recebeu assistência técnica, porém, manteve os índices de produtividade e agora lucra com os maiores preços dos últimos anos, devido à falta de uvas no mercado.

Só de mesa. Jales produz uvas de mesa, a rústica niagara, e as finas itália, benitaka, rubi, brasil, red globe, red meire e centenial. A niagara é de entressafra e as finas são produzidas nesta época do ano somente na região de Jales. O preço do quilo da niagara pago ao produtor estava na semana passada em R$ 3,50 e deve chegar a R$ 3,80 nesta semana.

Em 2009, considerada a melhor safra para a niagara, a média foi de R$ 3,50 o quilo. Já o quilo das uvas finas está em R$ 4, o dobro da média do valor pago no ano passado. “Em mais de 20 anos não se viam condições climáticas tão ruins, mas também poucas vezes o preço esteve tão bom”, diz o agrônomo Antônio Augusto Fracaro, doutor pela Unesp em Produção Vegetal, com especialização em viticultura, e autor da técnica que transformou Jales na região produtora de uvas niagara de entressafra. “A niagara, por ser rústica, sentiu menos os efeitos climáticos.” Por isso, segundo ele, as perdas foram maiores entre as uvas finas.

Receita de bolo. O resultado das mudanças os produtores sentem agora, na colheita. “Aqui não tive perda, mas sei de amigos que colheram apenas um terço do que deveriam”, diz o viticultor Adriano Ramazoti. “Mas não pense que tudo foi como uma receita de bolo. Houve época em que choveu mais, em outras o tempo ficou encoberto, em outras o chuvisqueiro predominou e isso fez com que tivéssemos de ter uma atenção maior, especialmente com as análises e regulagem dos equipamentos.”

A família Ramazoti cultiva 1,5 hectare de niagara e 0,5 hectare de benitaka no Sítio Santa Maria. A previsão é colher 20 toneladas de benitaka e 45 toneladas de niagara. “Essa produção só está sendo possível porque tivemos assistência técnica. Sem ela, teríamos prejuízo.”

A orientação do agrônomo é dada desde que a família Ramazoti começou a produzir uvas, há 13 anos. A viticultura sustenta quatro famílias, a dos pais e a de mais três irmãos. O sítio da família, de 6 hectares, é exemplo de propriedade familiar que deu certo. Na propriedade, estão construídas quatro boas casas, cada uma com carro na garagem, e são desenvolvidas criações e plantio de subsistência, como pecuária leiteira, grãos e legumes para sustento das famílias. “Quando cheguei aqui não tinha nada, agora você está vendo. Tudo isso conquistamos com a uva”, diz o patriarca da família, José Ramazoti.

Mas o sucesso dos Ramazoti não foi repetido por muitos produtores. Eles tiveram perdas consideráveis por não ter interferido no trato das parreiras. “Esperava colher 40 mil quilos, mas vou colher só 6 mil”, diz o produtor Élcio Alexandre Ferreira, dono do Sítio Santa Salete, que possui 1,5 hectare de uvas finas e niagara, em Santa Salete, vizinho a Jales.

“Houve sombra, o que não deixou os cachos se desenvolverem. Além disso, choveu muito. A gente nunca sabe o que vai acontecer. O problema é que eu estava sem assistência técnica e não sabia que isso poderia influenciar tanto assim na produção”, conta Ferreira. “Se der para pagar o que gastei, estará de bom tamanho. O problema é a frustração de saber que, em vez do prejuízo, eu poderia estar lucrando”, diz Ferreira.

Outro produtor que teve prejuízo foi José Edgard Mazetto, dono de 5 mil pés de niagara em 1,5 hectare do Sítio Fazendinha. “Houve um descontrole por causa do frio e das chuvas. Esperava colher 40 toneladas, mas vou atingir de 25 a 28 toneladas. No máximo vou empatar os custos.” Segundo Mazetto, a perda poderia ser ainda maior, se não tivesse antecipado a poda, que costuma ser feita em maio-junho, para março-abril.

Agrônomo. Mazetto também possui videiras em Indaiatuba, região onde a colheita ocorre a partir de dezembro, exatamente após o fim da colheita em Jales. “Em Jales é bem diferente, mas eu senti a falta de assistência técnica que conhecesse mais a situação aqui, por isso dancei”, diz. De acordo com Mazetto, o próximo passo será contratar um agrônomo para prestar assistência. O custo de assistência prestada por agrônomos da cidade varia de R$ 200 a 1 salário mínimo/mês, dependendo do tamanho da área.


Cuidados simples, porém bastante eficientes

Tempo ruim. Em vez do sol, o templo nublado, a chuva e o chuvisco impediram a entrada de luz nas videiras, o que prejudicou a reação química-fisiológica necessária para que a gema produtiva se desenvolvesse. O resultado foram menos cachos por rua. Para evitar mais perdas, os produtores redobraram cuidados com o manejo. Na poda de formação, a partir de setembro, foram retirados os brotos secundários, que nascem após a poda e impedem a entrada de sol.

“Trocamos também o esterco de galinha pelo bovino, mais fraco. O de galinha deixa a planta com mais folhas e cachos que impediriam ainda mais a entrada de sol.” Além das mudanças, os produtores prestaram mais atenção às doenças e às pulverizações. “O chuvisco levava os defensivos embora e tivemos de tomar muito cuidado com a regulagem dos equipamentos para que os agrotóxicos surtissem efeito”, diz. Outro cuidado foi com o controle do pH da calda, pois a água da chuva tinha pH diferente da água das pulverizações. Quem cuidou desta forma do pomar, garante Fracaro, teve o mesmo nível de produtividade da safra anterior.

Matéria e foto: Chico Siqueira
O Estado de S.Paulo

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