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Igor Savenhago*

Mário Von Zuben, diretor-executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF), defende modernização da lei que trata dos registros de novos defensivos agrícolas no Brasil e lamenta a falta de investimento em pesquisa e inovações.

Prevendo que o Brasil tem todas as condições possíveis de assumir o protagonismo que se espera dele no mundo como produtor de alimentos, o diretor-executivo da ANDEF, Mário Von Zuben, destaca que o País conseguiu fazer uma revolução no campo graças às inovações tecnológicas que permitiram um controle eficiente de pragas nas lavouras.

A partir disso, ele chama a atenção para os recentes cortes promovidos pelo Governo justamente em inovação, que, segundo ele, deveria ser justamente um dos itens a serem levados em conta para que o Brasil possa superar a crise econômica e, de quebra, favorecer a preservação ambiental.

Essas e outras questões, você confere na entrevista que ele concedeu à Terra & Cia.

Terra & Cia: Vivemos em um momento no planeta em que é preciso conciliar a necessidade de produzir mais para alimentar 7 bilhões de habitantes, inovar para garantir melhor produtividade e promover ambientes sustentáveis. Qual o papel do Brasil nesse sentido?

Mário: O Brasil é um país tropical, com clima e demais condições que favorecem a produção de duas a três safras num ano em algumas culturas, enquanto outros países produzem apenas uma safra. Há um cenário muito favorável para que o Brasil, de fato, se torne um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Nesse contexto, a adoção de tecnologias que sustentam esse crescimento é fundamental para se garantir a maior produtividade de alimentos e, ao mesmo tempo preservar, os recursos naturais.

Terra & Cia: O mundo espera do Brasil que exerça o papel de provedor mundial de alimentos. Nosso país está preparado para isso?

Mário: Em apenas 40 anos, o Brasil deixou a incômoda posição de importador de comida para se tornar um dos maiores exportadores de alimentos, fibras e biocombustíveis do mundo. Um fator fundamental para essa incrível “revolução verde” foi o controle cada vez mais eficiente nas pragas, alcançando através de inovação constante das empresas associadas à Andef. Entre 1977 e 2013, os defensivos agrícolas foram parte importante de um pacote tecnológico que possibilitou um aumento de 371% na produção de alimentos, enquanto a área plantada cresceu apenas 42%. Segundo a ONU, o Brasil é um dos poucos países, dentre os grandes produtores agrícolas mundiais, cuja competitividade é capaz de, nas próximas décadas, superar o desafio de prover a demanda global de alimentos sem prejuízo aos recursos naturais do planeta.

Terra & Cia: Em 2016, o Sr. Escreveu um artigo para o Valor Econômico que a crise poderia ser uma boa oportunidade para o Brasil apostar na inovação. Esse pensamento continua? O que avançamos nesses dois anos?

Mário: Infelizmente não. O país tenta respirar um pouco mais aliviado por conta da crise econômica, mas um dos principais cortes é em investimento em pesquisa e desenvolvimento de inovações. Segundo o ranking do Índice Global de Inovação, publicado em 2017, o Brasil ficou em 69º lugar.

Terra & Cia: Uma das questões importantes envolvendo a produção de alimentos no mundo, e não é diferente no Brasil, na visão de diversas entidades ambientais, é encontrar um equilíbrio com o meio ambiente. Agricultura e meio ambiente estão, realmente, de lados opostos?

Mário: O uso de tecnologias modernas contribui para preservação ambiental. Para que ocorra a autorização de produção e comercialização, os defensivos agrícolas passam por uma avaliação ambiental, no qual se considera uma série de estudos ou testes físicos-químicos, toxicológicos, ecotoxicológicos e destino ambiental, conforme legislação vigente.

Terra & Cia: Nesse contexto, de pouco tempo para cá, o Brasil discute a modernização da Lei 7.802, de julho de 89, que alguns denominam de “PL do Veneno”. Por que esse tema tem gerado tanta polêmica?

Mário: A Lei 7.802/89 tem quase 30 anos, e foi feita com base em uma visão antiga da ciência e das metodologias de avaliação, que era o disponível na época. Ocorre que houve grande avanço científico, não só no desenvolvimento de produtos com melhor perfil, mas também nas formas de uso destes produtos e, principalmente, na ciência apliacada aos procedimentos que suportam as avaliações, como modelos matemáticos que trazem avaliação de risco ocupacional, dietético e ambiental, que nunca foram tão preciosos. Desta forma, é natural a necessidade de modernizar a lei, para assegurar a disponibilidade das melhores ferramentas de controle fitossanitário e, consequentemente, manter e/ou elevar os níveis de produtividade das lavouras. Neste sentido, ter acesso às tecnologias necessárias ao controle fitossanitário é fundamental para a manutenção e incremento dos atuais padrões de produtividade da agricultura brasileira, sem abrir mão da segurança à saúde humana e ao meio ambiente.

Terra & Cia: Quem questiona a lei diz que sua atualização priorizaria o lucro das empresas que trabalham com agrotóxicos em detrimento da saúde das pessoas. Qual a posição da Andef diante disso?

Mário: O que a Andef acredita é que sejam necessárias algumas alterações na atual legislação que regulamenta a produção e comercialização de defensivos agrícolas no Brasil, para modernizar este setor. Isso porque uma legislação de quase 30 anos está naturalmente defasada, já que não está atualizada com processos e recursos científicos mais modernos. A Andef apoia a manutenção de responsabilidades no processo de registro de defensivos agrícolas, em que o Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama analisam a eficiência agronômica, aspectos de saúde e ambientais, respectivamente, de acordo com suas competências e funções. Um dos aspectos mais relevantes do PL é a Avaliação do Risco. Trata-se de uma técnica regulatória para o registro de defensivos agrícolas que avalia os produtos em condições de uso, e que tem, como foco, a segurança do trabalhador no campo, a saúde do consumidor e os aspectos ambientais. Outro aspecto positivo do Projeto de Lei é a desburocratização do processo de registro. Atualmente, em países em que, assim como o Brasil, a agricultura tem altíssima representatividade econômica, o registro leva de 1 a 3 anos, enquanto no Brasil se leva 8 anos, em média. Acreditamos que este prazo seja adequado para que o Brasil seja beneficiado pela inovação e se garanta avaliação rigorosa de defensivos agrícolas cuja utilização segura se relaciona diretamente com o alcance de mais produtividade no campo. A Associação ainda reforça que modernizar a legislação não significa flexibilizar ou facilitar o registro de defensivos agrícolas, e sim incluir critérios objetivos na avaliação, respeitando metodologias cientificas que asseguram a competitividade da agricultura brasileira.

Terra & Cia: Como a Andef tem trabalhado nesse cenário de produção agrícola com sustentabilidade? O que a associação tem orientado aos seus associados? Qual tem sido a importância da associação nesse cenário?

Mário: A sustentabilidade faz parte do dia a dia das nossas empresas. Nossos produtos permitem que o produtor consiga produzir mais sem ter que expandir a área plantada. Importante destacar que os novos produtos descobertos pelas nossas associadas são cada vez mais seguros para o homem e para o meio ambiente. Além disso, a disponibilidade de mais produtos para o produtor faz com que a resistência das pragas seja melhor manejada coma rotação de cultivos e de produtos com modos de ação diferentes.

Terra & Cia: Muitos tem apostado na Integração Lavoura-Pecuária-Floresta com um caminho viável para um campo mais produtivo e, ao mesmo tempo, saudável. O que pensa a Andef?

Mário: A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é uma prática que veio para ficar, otimizando e integrando esses três tipos de produção com benefícios, não só econômicos, mas também ambientais, porque otimiza o uso de terra a produtividade.

*Entrevista publicada na revista Terra & Cia, edição nº235.

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