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Artigo da Folha explica os desafios que o mercado do Café enfrenta atualmente.

*Kátia Abreu

O agronegócio vai tão bem que pouca gente presta a devida atenção ao que se passa com cada ramo particular de produção.

Os últimos anos têm sido muito favoráveis à maioria dos produtos que exportamos, mas, quando observamos de perto, vemos que os bons ventos não sopram igualmente para todos.

É o caso do café. A demanda mundial de grãos e carnes tem crescido a taxas elevadas, com a melhoria de renda das populações que deixaram a condição de pobreza nas últimas décadas. Muito concentrado em países mais desenvolvidos, há cinco anos imersos numa séria crise econômica, o consumo de café não segue a mesma lógica.

Em 2012, por exemplo, nossas exportações para os Estados Unidos caíram 27%; para a Alemanha, 19%; para a Espanha, outros 33%. E com a melhora na produtividade, nossos cafeeiros estão produzindo mais.

Em princípio, questões de mercado devem ser resolvidas pelos mercados. Quedas de preços provocam, em seguida, queda da produção, reequilibrando oferta e demanda. É isso que precisa ocorrer com a produção de café?

Olhemos mais de perto a cafeicultura brasileira. Nosso parque cafeeiro ocupa 2,1 milhões de hectares, com investimentos em torno de US$ 25 bilhões. Essas áreas são cultivadas por 380 mil produtores que geram US$ 7,5 bilhões por ano. E grande parte delas não têm aptidão para cultivos alternativos, especialmente por questões topográficas.

Exatos 58% da produção provêm de pequenas propriedades. Só 17% do total produzido vêm de grandes propriedades, em média com cerca de 450 hectares.

No último triênio, o valor das exportações superou US$ 20 bilhões. Vê-se, portanto, que uma crise na economia do café não é de modo algum uma questão trivial para a economia interna, nem para o balanço de pagamentos. Compromete um produto que, por décadas, sustentou como um herói solitário nosso superávit comercial.

Nos cultivos anuais, o ajuste entre oferta e demanda pode ser feito a cada ano. Se os preços caem, a área plantada de grãos, por exemplo, é reduzida. Se os preços se recuperam no ano seguinte, a área é novamente recomposta. Com o café, isso não é possível.

O café é um cultivo permanente, com um ciclo de quatro a cinco anos entre o plantio e a colheita. Se os produtores estão perdendo dinheiro, deixam simplesmente de cuidar da lavoura. Resultado: a degradação dos cafeeiros, que dificilmente podem ser recuperados.

Uma planta permanente não é um equipamento que se desliga e, eventualmente, pode ser novamente posto a funcionar, se as circunstâncias se alteram. Ciclos biológicos não podem ser interrompidos e depois retomados.

E os problemas de mercado não são estruturais. A crise nos países desenvolvidos está aos poucos se dissipando e os mercados emergentes -como China, o restante da Ásia e países do Leste europeu- crescem a taxas superiores a 4% ano.

O próprio consumo interno brasileiro vem crescendo 3,5% ao ano. Previsões da Organização Internacional do Café indicam que, em 2018, o consumo mundial ficará entre 157 a 173 milhões de sacas. Ao ritmo em que crescem nossa produção e o nosso consumo interno, a perspectiva é de falta e não de excesso do produto.

Por essas razões, é o caso de perguntar se vale a pena para o país abandonar a atividade ao seu próprio destino, ou se mais vale um esforço para manter intacta esta poderosa estrutura que é a economia do café, geradora de 8 milhões de empregos diretos e indiretos.

Não tenho dúvidas quanto à resposta correta: é útil e vantajoso para o Brasil a preservação da produção de café. Há mecanismos financeiros disponíveis para equilibrar preços e custos, sem sacrifícios indevidos para a sociedade.

Também não podemos deixar de considerar as dificuldades de todas as atividades intensivas de mão de obra como o café, o cacau, a laranja e a cana, pelo elevado custo Brasil na área trabalhista. Este é um fator inerente ao produtor.

Neste caso, só o governo pode efetivamente agir. Ao caminhar no presente, devemos sempre ter o cuidado de não destruir os caminhos do futuro.

*Kátia Abreu é senadora (PSD-TO) e a principal líder da bancada ruralista no Congresso. Formada em psicologia, preside a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Escreve aos sábados no caderno ‘Mercado’.


Fonte: Folha de S. Paulo

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