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O desafio do país de aumentar a produtividade em 40% ou 100 mi de toneladas.

A humanidade experimenta enormes mudanças nas últimas décadas. A cada momento surgem novas formas de se interpretar e alterar a realidade, assim como novas fontes de compreensão sobre a natureza, a sociedade e os processos históricos. Fica cada vez mais evidente a importância da ciência e de processos aprimorados de análise e antevisão, para lidarmos com a complexidade que marca o nosso tempo.

É nestas circunstâncias que identificamos um movimento em curso nas instituições técnicas nacionais e internacionais, nos centros de pesquisa, nas universidades, expresso em artigos, debates e contribuições diversas, que aqui sintetizamos: urge à sociedade emprestar “um novo olhar sobre a agricultura brasileira”.

Por um lado, a agropecuária e a bioenergia oferecem uma histórica janela de oportunidades (renda, divisas e emprego) para o Brasil e para os brasileiros, do campo, ou das cidades. Por outro, tais objetivos podem e devem ser lastreados na sustentabilidade em seu sentido mais amplo, que articula compromissos ambientais, econômicos e de inclusão social. Valores que se corporificam no fortalecimento do conceito de democracia alimentar: alimentos mais nutritivos e saudáveis, produzidos em maior quantidade, com uso mais inteligente e racional dos recursos naturais, com preços mais acessíveis para a população.

Para tanto, é indispensável construir um canal de comunicação entre o campo e a cidade. Apresentar o Brasil ao Brasil. Tal diálogo será mais eficaz se a leitura da realidade for interpretada pelos paradigmas e comparativos praticados pela ciência. Eles nos ensinam a separar a ideologia do ideário, a emoção dos fatos. A agricultura precisa ser percebida por seu real significado para o presente e futuro dos brasileiros. O peso histórico desta realidade exige-nos uma leitura mais atenta, justa e elaborada – mais realista e menos passional.

Em 40 anos, o desenvolvimento de uma agricultura tropical brasileira projetou o país para um papel crucial na oferta. E as projeções de crise alimentar são indiscutíveis, resultado do aumento da população (de 7 para 9 bilhões, até 2050) e da renda. Um dilema grave, já que a oferta planetária de alimentos exibe um quadro crítico de limitações: intensificação de estresses climáticos, obsolescência tecnológica, limitada disponibilidade de terras, fadiga dos sistemas convencionais de produção, dentre outras. É neste quadro que a FAO reserva ao Brasil a missão de fornecer 40% da demanda suplementar de alimentos das próximas décadas. Ou, produzir mais 100 milhões de toneladas de grãos em 20 anos.

Num mercado global cada vez mais competitivo, onde outros segmentos encontram sérias limitações, a agricultura brasileira figura como uma apólice de seguro de crescimento econômico já contratado.

Esse panorama coloca a nação face a face com suas verdades e responsabilidades. Trata-se de um dos maiores desafios de nossa história. De um lado, perspectiva real de desenvolvimento sustentado. De outro, obstáculos colossais. Estudos recentes apontam para uma limitada disponibilidade de terras de novas fronteiras. A produtividade, a segunda safra, a integração de cultivos e a reconversão de pastagens ainda oferecem espaço de crescimento, mas exigem inédito esforço de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico, ao lado de providências normativas na infraestrutura e na segurança jurídica, que são condição preliminar para assegurar o ritmo de investimento.

A percepção do interesse coletivo é o espaço que permite colocar soluções no lugar de preconceitos, aferição no lugar de premonição, e gerenciamento do território e planejamento estratégico no lugar da emoção.

A mídia aos poucos traduz o verdadeiro sentido da agricultura para a sociedade, seja tentando explicar a vitória sobre o Corinthians de um time plantado na fronteira agrícola, o incógnito Luverdense, seja pontuando que nos últimos três anos cerca de 80% do crescimento do PIB vieram da agricultura. Os fatos transitam em julgado: no espaço de uma geração, a pesquisa promoveu o frango do adágio (“quando o pobre come frango, é porque um dos dois está doente”) à condição de proteína popular – barata e generalizada. Mas, reconhecemos, faltam elementos para ilustrar o debate.

Por isto, o Agropensa, da Embrapa, o Fórum do Futuro, o FGV-Agro, a Fundação Dom Cabral e o IICA estão promovendo uma série de seminários e eventos, que convergem na aferição da dimensão da ruralidade no Brasil e do real peso social, econômico e ambiental da agricultura. Na construção do diálogo entre o campo e a cidade, o referencial científico é o capital de confiança. Investigar, medir (aferições agroecossistêmicas), comparar pré-requisitos. A escolha do futuro passa por elementos mensuráveis e esclarecedores, capazes de orientar a sociedade na eleição de suas prioridades. Exemplo: investir sem demora no conhecimento profundo de cada um dos seis biomas brasileiros, condição sine qua non para a interação ideal com cada um deles, para o bem do campo e das cidades.

O desafio de combater o espectro da fome e o desiderato da responsabilidade ambiental marcaram inapelável encontro na mesma visão de futuro. Por isso é imperioso que todos os brasileiros compartilhem o que acontece em Sorriso, Rio Verde, Cristalina e Luiz Eduardo Magalhães, e saibam como isto impacta suas vidas e o porvir do planeta. É decisivo envolver a juventude. São os jovens estudantes das universidades ditas urbanas (das áreas de engenharia, mecatrônica, economia, informática, de tecnologia em geral) que podem oferecer ao país soluções que conciliem a produção de mais alimentos, com mais inclusão social, e menos impacto sobre os recursos naturais. No caminho inverso, mas no mesmo sentido, as universidades ditas agrárias abraçando cada vez mais os espaços de tecnologia, tecendo um networking de comprometimento nacional.

A resposta para minimizar o uso e o custo da água na irrigação, por exemplo, pode estar neste momento na cabeça de um estudante de robótica de uma universidade situada numa grande cidade, mas que ainda não atentou para a relevância da agricultura como espaço profissional que já opera no estado da arte das tecnologias. A história convoca o Brasil para ser vanguarda na construção de um novo tempo, no qual nada é mais nobre do que produzir alimentos. Não é a reputação da agricultura que está em jogo, nem se trata aqui do interesse isolado de um segmento econômico. Trata-se aqui de um projeto de sociedade, de um projeto de política maior. Entre mitos e realidades, o Brasil administra a invejável condição de poder crescer na liderança, de escolher a qualidade do próprio futuro. E o momento é agora.

*Alysson Paolinelli é presidente do conselho consultivo do Fórum do Futuro;
*Manuel Otero é representante do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) no Brasil;
*Maurício Antônio Lopes é presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária;
*Roberto Rodrigues, do Centro de Agronegócio da FGV (FGV-Agro);
*Wagner Furtado Veloso é presidente executivo da Fundação Dom Cabral.

Fonte: Valor Econômico – 12/09

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