Você está aqui: Home / Imprensa / Notícias / Desafios frente à tecnologia na agricultura

Artigo escrito por José Graziano, diretor-geral da FAO.

*José Graziano

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada por todos os Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro de 2015, representa um pacto que afronta o carrossel desordenado do cenário mundial.

Ao estabelecer o compromisso de erradicar a fome e a miséria nos próximos quinze anos, melhorar a nutrição e tornar mais sustentáveis os sistemas alimentares, ela fixou uma estaca para além da espessa neblina do presente.

Os desafios da travessia não são pequenos, nem mesmo previsíveis, na medida em que os desequilíbrios climáticos adicionaram à incerteza econômica uma octanagem explosiva.

A epidemia do vírus Zika, por exemplo, ilustra os riscos inerentes a alterações climáticas que aceleram a abrangência e a velocidade de eventos do percurso, os quais rapidamente escapam do seu escopo nacional para ganhar dimensão regional e global.

Os impactos da mudança do clima emprestam renovada atualidade às palavras de Lord Keynes: "Não há base científica para formar qualquer probabilidade calculável". Como concluía ele, "Nós simplesmente não sabemos o que pode acontecer…"

Nesse contexto, é preciso mobilizar um amplo portfólio de ferramentas e abordagens para injetar consistência às metas para segurança alimentar no futuro próximo. O uso de biotecnologias agrícolas é um desses casos. Hoje ela opõe e conflita, não raro de forma equivocada e desnecessária, setores e interesses distintos da sociedade.

Durante três dias, em fevereiro último, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) reuniu, em sua sede em Roma, cerca de quinhentos especialistas no "Simpósio Internacional sobre o papel das Biotecnologias Agrícolas em Sistemas Alimentares Sustentáveis e na Nutrição".

O encontro contou com a participação de representantes de governos, da sociedade civil, do setor privado, de cooperativas e de instituições de pesquisa.

O objetivo era identificar e analisar as possibilidades oferecidas pelas biotecnologias agrícolas, sobretudo para 500 milhões de estabelecimentos da agricultura familiar, dos quais dependerá uma fatia importante do êxito da segurança alimentar planetária nas próximas décadas.

Até 2050, estima-se que a produção agrícola terá que aumentar em 60% para atender a uma população de mais de nove bilhões de pessoas.

Quase 100% desse incremento de oferta terá que vir de países em desenvolvimento – e 80% disso de fronteiras agrícolas já ocupadas -, com um requisito adicional: não degradar o meio ambiente e ostentar a resiliência necessária diante de eventos climáticos extremos.

Outra forma de dizê-lo: tornou-se incontornável reconciliar produtividade, agricultura familiar e preservação dos recursos que formam as bases da vida na terra.

O desenvolvimento de biotecnologias agrícolas, especialmente quando direcionadas aos pequenos produtores, pode ser uma ponte nesse caminho, segundo os especialistas que se reuniram na FAO.

Uma das principais conclusões do simpósio diz respeito à necessidade de superar o reducionismo que identifica a biotecnologia aos organismos geneticamente modificados (OGMs). Biotecnologia é muito mais do que OGMs. O debate em torno do assunto, portanto, tem de ser ampliado de forma a englobar todas as biotecnologias agrícolas, "low-tech" e "high-tech", já disponíveis e aquelas em elaboração para uso no futuro próximo.

Estamos falando de processos de fermentação e de biofertilização, de inseminação artificial, de vacinas e de diagnósticos rápidos de pestes e doenças, apenas para citar algumas possibilidades.

Outro ponto de destaque foi a conclusão de que a biotecnologia e a agroecologia não devem ser vistas como mutuamente contraditórias, mas como "approaches" complementares em favor da segurança alimentar da população mundial.

Nesse sentido, por exemplo, produtos biotecnológicos podem ser utilizados em sistemas de produção baseados em princípios agroecológicos, com a finalidade de aumentar a produtividade, mas levando em conta questões inerentes à promoção da sustentabilidade e da conservação do conhecimento tradicional e indígena.

O importante é promover o debate, de forma a construir e difundir conhecimento sobre os benefícios da biotecnologia.

É importante ter em mente também que as biotecnologias agrícolas não devem ser consideradas de forma isolada, já que seu desenvolvimento e aplicação requerem harmonia entre instituições de pesquisa, serviços de capacitação e acompanhamento rural, organizações de agricultores e outros componentes de um sistema mais amplo de inovação agrícola.

A disseminação maciça de variedades de sementes mais tolerantes a secas – e menos exigentes em insumos químicos -, é outra providência indispensável para aquelas áreas e populações mais vulneráveis aos eventos climáticos que teremos pela frente. Mais de 70% da insegurança alimentar concentra-se aí.

Não há bala de prata contra as incertezas econômica e ambiental que obscurecem a sorte da sociedade e o destino do desenvolvimento nesse longo amanhecer do século XXI.

A incerteza é um fenômeno intrínseco à economia de mercado, na qual interesses contraditórios exigem a mediação ininterrupta e sempre inconclusa da luta pelo excedente. Um setor financeiro regulado amortece esse processo ou, ao contrário, acelera sua instabilidade, como na crescente volatilidade dos preços internacionais.

Quando a incerteza impõe a sua dominância, dá-se o que vivemos hoje, um estreitamento asfixiante do horizonte do emprego, do investimento, do crédito e da renda.

A anemia generalizada da demanda e, portanto, do comércio mundial, está na raiz de uma contração estrutural precificada na retração generalizada dos preços das commodities.

A FAO está convencida de que o casamento da biotecnologia com a agroecologia – estendido finalmente à agricultura familiar – é um pedaço do chão firme capaz de desautorizar a turbulência atual a se consolidar como o 'novo normal' do mundo.

*José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). 

Fonte: Jornal Valor Econômico

ANDEF. Avenida Roque Petroni Júnior, 850 . 19º andar . Torre Jaceru . Jardim das Acácias . CEP: 04707-000 . Tel.: 55 (11) 3087-5033 - (Mapa) Desenvolvido por UAU!LINE.